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2 As teses básicas

FERRARIS, Maurizio. Goodbye Kant! Cosa resta oggi della Critica della ragion pura. Milano: RCS Libri, 2012.

O esquema da obra

1. Como a Crítica da Razão Pura apresenta seus temas numa ordem difícil de acompanhar, convém partir de um esquema geral da obra, designada pela abreviação KrV, correspondente ao título alemão Kritik der reinen Vernunft.

2. A obra divide-se em duas seções muito desiguais, a Doutrina dos Elementos, que descreve as partes da faculdade de conhecer e os objetos cognoscíveis ou não, subdividida em Estética, relativa à sensibilidade, e Lógica, esta desdobrada em Analítica, sobre o que se pode conhecer, e Dialética, sobre o que escapa à percepção sensível, e a Doutrina do Método, que estabelece o modo de organizar o conhecimento.

3. O que a obra discute e defende, no fundo, é a própria vida cotidiana, sobretudo aquilo que se encontra no mundo externo ao abrir os olhos e caminhar pela rua.

A metafísica da experiência

1. Para o filósofo transcendental, o que se encontra na rua são antes de tudo estruturas como espaço, tempo, substâncias e causas, e a experiência, embora seja o que há de mais próximo, revela-se escorregadia, exigindo um equilíbrio entre descrição e explicação que Kant não alcança plenamente, pois pende demais para o lado da explicação.

2. Segundo o célebre estudo de P. F. Strawson, a Crítica da Razão Pura isola os requisitos mínimos para se ter uma experiência e expõe o núcleo central do pensamento humano mais elementar, concentrando na Analítica uma metafísica da experiência resumível em seis teses rigorosas e aceitáveis, contrapostas ao idealismo transcendente implausível tratado na Dialética.

3. As seis teses dessa boa metafísica afirmam que a experiência exibe essencialmente sucessão temporal, remete a uma unidade necessária da consciência, aplica-se a objetos distintos da experiência que deles se tem, objetos essencialmente espaciais e inseridos num único quadro espaço-temporal coerente, no qual devem ser satisfeitos certos princípios de permanência e causalidade.

4. Permanece em aberto, contudo, se tal construção constitui de fato uma metafísica da experiência.

5. A reformulação de Strawson, ao descartar os aspectos mais extremos da teoria kantiana, é razoável para expor o conteúdo minimamente aceitável da filosofia transcendental, mas arrisca obscurecer implicações que o próprio Kant julgava centrais, ainda que próximas da metafísica transcendente justamente reprovada.

6. O problema principal reside em que Strawson pretende fazer de Kant um metafísico descritivo, uma espécie de fenomenólogo da experiência ordinária, expulsando assim tanto o metafísico transcendente que fala de Deus, da alma e do mundo quanto a vasta ciência que Kant mobiliza para explicar, e não descrever, a experiência.

7. Essa abordagem é enganosa porque o metafísico transcendente parece razoável ao tratar Deus, a alma e o mundo como ideias e não como objetos, enquanto o Kant teórico da experiência quase nunca é descritivo, mas prescritivo, confundindo ciência com experiência e oferecendo uma visão científica do mundo quando julga tratar da experiência.

8. Uma reconstrução menos indulgente da filosofia kantiana não deve aplainar suas asperezas, e por isso cabe substituir as seis teses de Strawson por outras mais fortes, cinco ontológicas, sobre o que existe, e duas epistemológicas, sobre o que se conhece do que existe.

9. Mostrar que a Crítica da Razão Pura se resume nessas teses permite sustentar que Kant parece oferecer uma teoria da experiência, mas apresenta na verdade uma teoria da ciência por confundir os dois níveis, conclusão que expõe com economia o núcleo de seu pensamento, as causas de seu sucesso e as razões de sua relativa obsolescência após dois séculos.

Cinco teses ontológicas

1. Estabelecida essa premissa, podem-se enunciar as cinco teses ontológicas que estruturam o pensamento kantiano.

2. A tese sobre o espaço sustenta que, por meio do sentido externo, os objetos são representados como exteriores e situados no espaço, um recipiente tridimensional que precede e contém todas as coisas extensas, dos átomos às moléculas e além.

3. A tese sobre o tempo afirma que coexistência e sucessão só são percebidas porque a representação do tempo é a priori, sendo o tempo outro recipiente que abrange tudo o que está no espaço e ainda objetos mais fugazes, como memórias e expectativas, dotados de duração mas não de extensão.

4. A tese sobre a substância defende que a substância permanece em toda mudança dos fenômenos e que essa permanência não é aprendida pelo hábito, mas compreendida graças a um conceito anterior à experiência, sem o qual não se reconheceria, por exemplo, que água, gelo e vapor são estados de uma mesma substância.

5. A tese sobre a causa estabelece que todas as alterações ocorrem segundo a lei da conexão entre causa e efeito, de modo que, sem esse conhecimento prévio à experiência, os sentidos sozinhos jamais ensinariam que o fogo faz a água ferver.

6. A tese sobre o eu afirma que o eu penso deve poder acompanhar todas as representações, constituindo um ponto inextenso e imutável, semelhante ao cogito cartesiano porém mais elaborado, que registra cada sensação ou pensamento e o refere a si, sem o que experiências e pensamentos não se ligariam a nada, como ocorre com ações feitas sem atenção e depois esquecidas.

7. Cada tese tem um alvo próprio, pois as do espaço e do tempo respondem a Leibniz e a Berkeley, que viam ambos como resultado das relações entre objetos, a da substância corrige Locke, que a tomava por construção mental gerada pelo hábito, e as da causa e do eu dirigem-se contra Hume.

Duas teses epistemológicas

1. Mediadas pela tese sobre o eu, que é ao mesmo tempo sujeito cognoscente e objeto conhecido, as teses ontológicas apoiam-se em duas teses epistemológicas.

2. A tese dos esquemas conceituais, segundo a qual pensamentos sem conteúdo são vazios e intuições sem conceitos são cegas, faz de Kant o primeiro a sustentar que ter experiências exige esquemas conceituais e que só existe o que está no espaço e no tempo, pois não basta ter olhos para ver, sendo necessários os óculos dos conceitos, articulados em juízos dos quais derivam as categorias, para converter a percepção confusa em experiência clara e coerente.

3. Ligada a essa, a tese do fenômeno, que condensa a revolução copernicana, estabelece que o objeto indeterminado de uma intuição empírica é o fenômeno, de modo que não há trato direto com as coisas em si, mas apenas com objetos mediados pelo espaço, pelo tempo, pelo eu e pelas categorias, objetos que não são meras aparências e existem tanto quanto o próprio eu, ele mesmo conhecido apenas como fenômeno.

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