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1 A revolução de Kant

FERRARIS, Maurizio. Goodbye Kant! Cosa resta oggi della Critica della ragion pura. Milano: RCS Libri, 2012.

Por que começar uma revolução

1. Ao morrer aos oitenta anos, em 12 de fevereiro de 1804, Kant estava tão esquecido que anotava tudo numa grande folha onde reflexões metafísicas se misturavam a contas de lavanderia, tornando-se a paródia melancólica do princípio supremo de sua própria filosofia, o de que um eu penso deve acompanhar toda representação e de que há um único mundo para o eu que o percebe, o recorda e o determina pelas categorias.

2. Essa ideia, já presente sob várias formas antes de Kant, foi por ele decisivamente transformada, pois a referência à subjetividade não se opõe à objetividade, mas a torna possível, já que o eu não é um feixe desordenado de sensações, e sim um princípio de ordem dotado das duas formas puras da intuição e das doze categorias, verdadeiras fontes da objetividade, segundo a revolução copernicana que pergunta não como as coisas são em si, mas como devem ser para serem conhecidas.

3. Cabe perguntar por que um súdito dócil do déspota esclarecido da Prússia empreendeu tarefa tão heroica e arriscada, cujos motivos, diferentemente das causas das revoluções políticas modernas, parecem pouco claros, embora conceitualmente não menos poderosos e convincentes.

4. Kant não tinha escolha, pois a filosofia da época chegara a um impasse entre um empirismo cego e um racionalismo vazio, situação histórica retratada com exatidão pelo célebre lema de que pensamentos sem conteúdo são vazios e intuições sem conceitos são cegas, por mais discutível que ele seja como posição teórica.

Os racionalistas e a Biblioteca de Babel

1. Os racionalistas, em grande parte professores alemães, remontavam a Leibniz, o grande conciliador que buscou harmonizar católicos e protestantes, desviar Luís XIV da Alemanha para o Egito e pacificar a filosofia moderna cartesiana com a escolástica aristotélica, de modo que o racionalismo se identifica em boa medida com a Schulphilosophie que atualizava a escolástica com fortes doses de cartesianismo.

2. A ideia central dos racionalistas era que se conhece por conceitos, que conhecer um objeto é enumerar suas características e que escrever metafísica é formular definições combinadas racionalmente sem contradição, o que permitiria realizar o sonho de Raimundo Lúlio, renovado no Renascimento e na época de Descartes, de uma arte combinatória capaz de prometer o saber universal pela composição de conceitos e, em última instância, de palavras.

3. Essa arte resolveria questões como quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete, respondendo por definição que infinitos, já que são puros espíritos sem corpo e invisíveis, e não se tratava de gracejo, pois Leibniz concebia o mundo atual como apenas uma entre inúmeras possibilidades realizadas, de modo que uma metafísica completa deveria ocupar-se de todas as possibilidades não contraditórias.

4. Kant detestava esse modo de fazer metafísica, pois era curioso pelas ciências e pelas viagens, embora nunca tenha deixado Königsberg, não acreditava que dicionários acrescentassem conhecimento e herdara de seu professor Martin Knutzen o ódio ao intelectualismo, acusando os leibnizianos de tecerem definições meramente nominais que resultavam, no melhor dos casos, em dicionários e, no pior, em fantasias nascidas de combinações de palavras.

5. O conto A Biblioteca de Babel, de Borges, ilustra a mistura perversa entre a ideia do real como mera manifestação do possível e o sonho de uma arte combinatória, pois a biblioteca infinita que contém todas as combinações de letras guarda tudo, inclusive o que se ignora, mas também o contrário de tudo, e como não há meio de distinguir o verdadeiro do falso, é inútil e seria melhor que não existisse.

6. O núcleo da insatisfação de Kant e de outros críticos de Leibniz reside em que só se distingue o verdadeiro do falso passando do mundo da mera possibilidade ao da atualidade, aquilo que se encontra no espaço e no tempo, e em que há uma grande diferença, subestimada pelos leibnizianos, entre a matemática, na qual a combinação ou construção de símbolos produz resultados exatos e sempre repetíveis, e a metafísica.

7. A matemática não é conhecimento, pois o conhecimento nasce do encontro entre conceitos e sensações produzidas por algo fisicamente real, sendo pensar diferente de conhecer, como pensar num relógio difere de olhar para ele para saber as horas, diferença que os leibnizianos não perceberam por admitirem entre sensibilidade e intelecto apenas uma diferença de grau de clareza e distinção, comportando-se na metafísica como matemáticos que tomam por verdadeiro tudo o que não é contraditório.

8. Do ponto de vista da formação de conceitos nada impede pensar que Bergson lia as aventuras de Flash Gordon, mas isso não é verdade, ou ao menos não se sabe que o seja, e não se podem construir teorias sobre hipóteses tão arbitrárias, já que os conceitos, ao contrário da matemática, são pouco claros, sejam concretos ou abstratos, como o de liberdade, que quase ninguém sabe exatamente o que significa.

9. Para não deixar a metafísica correr desenfreada, a máxima de prudência consiste em comparar, na medida do possível, conceitos com objetos e não conceitos entre si, cura que parecia apontada pelos empiristas, a ponto de Kant atribuir a Hume o mérito de tê-lo despertado do sono dogmático em que ele e muitos professores alemães haviam caído.

Os empiristas e Funes, o memorioso

1. A ideia básica dos empiristas era que todo conhecimento deriva dos sentidos e que no mundo se encontram sensações e não conceitos, de modo que se pode dispensar a organização conceitual do universo oferecida pela metafísica, já que sem ver uma janela derrubar um vaso não se conceberia a causa e sem experiência sensível talvez não se chegasse às dimensões do espaço, sobretudo à profundidade.

2. A moral extraída pelos empiristas é que o conhecimento deriva, não só quanto à formação dos conceitos mas absolutamente, da experiência sensível consolidada pelo hábito e pelo raciocínio, sendo os conceitos apenas modos rápidos e enganosos de codificá-la, de modo que a substância é mera conjectura de um substrato, a causa nasce da sucessão habitual de eventos, o eu é um feixe de sensações e a profundidade deriva da experiência.

3. Os empiristas não perceberam que sem metafísica se avança pouco, pois se causa, substância, eu e espaço são meros resultados da experiência, filosofia, ciência e moral desmoronam, o empirismo radical torna-se a última parada antes do ceticismo e as leis da física não diferem de um horário de trens, restando como grandes problemas a certeza, a passagem das sensações particulares às ideias gerais e a relação entre ideias e coisas.

4. O problema da certeza era o mais alarmante, pois, sendo todo conhecimento indutivo, todos estão na posição do peru que espera ser alimentado até o dia em que o fazendeiro lhe torce o pescoço, de modo que se deveria duvidar até de que o sol nascerá amanhã e a astronomia se tornaria pouco mais crível que a astrologia, conclusão que servia ao propósito sutilmente anticientífico de reservar espaço à filosofia, mas nada tinha de reconfortante.

5. O problema das ideias gerais, menos urgente na prática, gerava sérias dificuldades teóricas, pois a passagem da impressão deste cão à ideia de cão por mistura e enfraquecimento de percepções, como nas fotografias sobrepostas do século XIX em busca do criminoso médio, pode produzir qualquer coisa, e alguém de memória prodigiosa como Funes, de Borges, jamais formaria ideias gerais, tendo uma ideia distinta para cada impressão.

6. Os empiristas expõem-se ainda à objeção, frequente e justa, sobre a relação entre ideias e coisas, pois, lidando sempre com ideias e nunca com as coisas mesmas, não explicam o que a ideia de um broche tem em comum com o broche, já que a ideia não pica, assim como a ideia de telefone não serve para telefonar.

7. Tendo partido para ser mais concretos que os racionalistas, os empiristas correm o risco de acabar com as mãos cheias de pó, ou antes de ideias de pó.

Refundar a metafísica invertendo o ponto de vista

1. Diante desse cenário deprimente, os físicos, que já não se reconheciam como filósofos, desmontavam crenças milenares e minavam o prestígio da metafísica, e aí está o detonador da revolução kantiana, que não é nem formalismo racionalista nem empirismo alemão, mas uma reabilitação da metafísica por meio da física, jamais imaginada por racionalistas ou empiristas.

2. Uma geração antes, Voltaire satirizara os metafísicos eruditos que acreditavam viver no melhor dos mundos possíveis, como Dom Ferrante em Os Noivos de Manzoni, que morre de peste negando que o contágio fosse substância ou acidente, sátira natural numa época em que Galileu e Newton haviam unido hipóteses conceituais e observações empíricas, separadas por racionalismo e empirismo, levando Voltaire a concluir que a metafísica era uma superstição a abandonar.

3. Kant foi muito mais brando com a metafísica, pois, embora comparasse os sonhos da metafísica aos do visionário Swedenborg e reconhecesse que Hume o despertara, julgava impossível dispensá-la, já que certas questões não se resolvem pela experiência nem pela ciência, como saber se a queda das Torres Gêmeas foi um ou dois eventos ou se o ser humano é livre, questões de consequências nada triviais para seguros, punições e recompensas.

4. Sobre a liberdade, a alma e Deus, Kant não decide, afirmando que é preciso crer neles para dar sentido à vida humana, mas quanto aos objetos físicos adota outro ponto de vista, pois assim como o físico pós-copernicano sabe que é a Terra que gira em torno do Sol, o filósofo transcendental sabe que vê as coisas como aparecem e não como são.

5. A vantagem desse ponto de vista é que o especialista não se pronuncia tão facilmente quanto os racionalistas sobre o que excede a experiência nem é tão evasivo quanto os empiristas sobre o que é preciso saber, admitindo, já que os objetos se conformam em parte ao sujeito, cinco princípios independentes e anteriores à experiência, eu, causa, substância, espaço e tempo, que contudo exigem conteúdo empírico, e nisso consiste a revolução copernicana, rebelião silenciosa alcançada por volta de 1770.

6. A elaboração plena da filosofia crítica veio com a Crítica da Razão Pura, de 1781, a Crítica da Razão Prática, de 1788, e a Crítica do Juízo, de 1790, sem que se saiba exatamente o que Kant pretendia, nem se queria reformar ou enterrar a metafísica, nem se as Críticas são tratados autônomos ou estudos introdutórios a um sistema a ser concluído depois.

7. Como observou Austin sobre Aristóteles, todo grande filósofo tem passagens em que afirma algo e outras em que o retira, mas é certo que Kant nunca discutiu a filosofia crítica em suas aulas e que as Críticas se propõem responder a três perguntas, o que posso saber, o que me é permitido esperar e o que devo fazer, às quais a Antropologia pragmática acrescenta o que é o homem.

8. Essa tentativa realiza-se pelo exame das três faculdades humanas fundamentais, conhecer, desejar e sentir prazer ou desprazer, nas quais se combinam sensibilidade, intelecto e razão, às vezes acrescidos da imaginação, conforme a divisão aristotélica da psicologia filosófica, cabendo à razão, capacidade de fixar fins, distinguir o ser humano, razão pela qual a filosofia é definida como teleologia da razão humana e a Crítica da Razão Pura permanece, por ser a primeira e a mais explícita quanto à revolução copernicana, a obra mais influente de Kant.

9. Tendo como tema central a revolução copernicana, a exposição isola as teses fundamentais de Kant, mostra o que ele herda, o que inventa e onde erra, desenvolve as teses em detalhe tomando literalmente a ideia de princípios válidos para a ciência e para a experiência, desmonta o mecanismo que as sustenta, apresenta a evolução posterior à primeira Crítica e faz um balanço da revolução, sendo os capítulos de reflexão teórica e histórica marcados com a indicação Exame.

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