1 Realitismo
UM. REALITISMO. O ataque pós-moderno à realidade
Do pós-modernismo ao populismo
1. O pós-modernismo entrou na filosofia com A condição pós-moderna, de Lyotard, publicado em setembro de 1979, que anunciava o fim das grandes narrativas do Iluminismo, do idealismo e do marxismo, já incapazes de mover as consciências e justificar o saber, numa crise vivida aparentemente sem tragédias e difundida com facilidade graças a uma multidão cosmopolita de precursores, de Toynbee, Gehlen, Vonnegut e Venturi até Federico de Onís, que nos anos trinta deu esse nome a uma tendência poética.
2. O denominador comum desses precursores é o fim da ideia de progresso, substituída por um recuo no qual o futuro já seria a soma de todos os passados, e na filosofia, como o progresso exige confiança na verdade, a desconfiança pós-moderna levou à ideia nietzschiana de que a verdade pode ser má e a ilusão boa, cujo núcleo não está na morte de Deus, mas na tese de que não há fatos, só interpretações, pela qual o mundo real se torna uma fábula de retorno cíclico.
3. Diferentemente de outras correntes, e mais que o próprio marxismo, o pós-modernismo encontrou plena realização política e social, mas o primado das interpretações sobre os fatos e a superação do mito da objetividade não trouxeram a emancipação profetizada pelos professores, pois o mundo real tornou-se um reality show e o resultado foi o populismo midiático, sistema no qual quem detém poder pode fazer crer qualquer coisa e no qual o não há fatos, só interpretações revelou seu verdadeiro sentido, o de que a razão do mais forte é sempre a melhor.
4. O pós-modernismo recua filosófica e ideologicamente não por ter falhado, mas por ter atingido bem demais seus objetivos, já que seus sonhos foram realizados pelos populistas, de modo que o dano não veio diretamente do pós-modernismo, animado por admiráveis aspirações emancipatórias, mas do populismo que dele recebeu poderoso apoio ideológico, afetando sobretudo massas que nunca ouviram falar de pós-modernismo e se convenceram de que o populismo midiático não tem alternativa.
5. Essa utopia realizada e invertida resume-se em três pontos cruciais da koiné pós-moderna, a ironização, segundo a qual levar uma teoria a sério é dogmatismo e convém manter distância irônica das próprias afirmações, a dessublimação, segundo a qual o desejo é por si emancipação contra o domínio da razão, e sobretudo a desobjetificação, segundo a qual não há fatos, só interpretações, e a solidariedade deve prevalecer sobre uma objetividade indiferente e violenta.
Ironização
1. O pós-modernismo introduz as aspas na filosofia, convertendo realidade, verdade, objetividade e justiça em termos entre aspas, com base na tese de que as grandes narrativas da modernidade e o objetivismo antigo seriam a causa do pior dogmatismo, de modo que, em vez de fanáticos, cabe ser teóricos irônicos que veem em fatos, normas e regras um mal em si, em atitude que exprime distanciamento, desatenção lexical ou parasitismo de quem ironiza sobre uma realidade construída por outros.
2. Pôr entre aspas assemelha-se à epoché de Husserl, mas o que nele era exercício filosófico torna-se protocolo de correção política que faz de quem retira as aspas um violento ou um ingênuo e de quem crê possuir alguma verdade um fanático, transformando a filosofia em doutrina parasitária da ciência, com consequências evidentes num tribunal regido pelo não há fatos, só interpretações e no abuso do riso e da farsa pelo populismo midiático, que confirma a hipótese etológica do riso como herança do mostrar os dentes antes da agressão.
3. A inclinação pós-moderna à ironia exprime-se na proposta de Deleuze, em Diferença e repetição, de fazer pela filosofia o que Duchamp fez pela arte, apresentando um Hegel de barba como a Mona Lisa de bigode, e na afirmação de Foucault, depois retratada, de que o pensamento deveria tornar-se uma mascarada.
4. O impulso irônico revela que o pós-modernismo tem um coração antigo, pois, como a luz de uma estrela já extinta, chegou à filosofia no fim de um ciclo iniciado no radicalismo de Nietzsche, nas vanguardas filosóficas do século XX e antes ainda na revolução copernicana de Kant, na verdade ptolomaica por pôr o homem no centro como construtor de mundos, ciclo marcado pela prevalência dos esquemas conceituais sobre o mundo externo, mas o que distingue o pós-modernismo é seu caráter programaticamente parasitário, que desenha bigodes na tradição e proclama a morte da filosofia, reduzida a conversa ou gênero de escrita sem relação com verdade ou progresso.
5. A tese fundamental de que não há fatos, só interpretações talvez consista essencialmente em sua própria caricatura, esvaziando todo argumento à maneira de Duchamp, como mostra a gênese do pensamento fraco, antologia de propostas dissonantes reunidas sob um título evocativo e sintonizadas com o espírito da época, cujo êxito internacional fez crer na existência de um núcleo teórico, mas cuja ironia retomava traços da tradição filosófica italiana, a desconfiança da ciência e da técnica, o tradicionalismo, o idealismo e a suspeita do realismo, tendo como verdadeiro inimigo não o dogmatismo, mas o Iluminismo, numa reaparição da polêmica católica contra os espíritos fortes e de uma desconfiança radical na humanidade.
6. Nesse clima anti-iluminista, com a cumplicidade da ironia e das aspas, pensadores de direita tornam-se ideólogos da esquerda, como mostra o caso paradigmático de Heidegger, tratado como resistente antimetafísico com sua adesão ao nazismo esquecida ou reduzida a erro político entre aspas, quase uma tolice, como ele próprio a descreveu em 1966, remoção explicada em parte pela adoção de sua filosofia por pensadores franceses de esquerda e pela confiança na imagem que ele mesmo ofereceu em sua defesa.
7. Entre as estratégias de desnazificação, nenhuma iguala a absolvição a priori da nota da edição italiana dos Escritos políticos, que aproxima o Sieg Heil dirigido a Hitler em 1933 ao Ski Heil dos esquiadores, mas o que não se viu foi que o pensamento de Heidegger é hiper-hierárquico e que o apelo ao niilismo e à vontade de potência, a insistência na decisão e o abandono da noção tradicional de verdade constituem adesão profunda e não oportunista ao Führerprinzip.
8. A condenação da verdade e da objetividade como violência e o consequente apelo a uma teoria pop irônica elevam assim como herói, com indubitável ironia objetiva, um filósofo pop totalmente desprovido de ironia e convicto de sua própria destinalidade.
Dessublimação
1. A dialética da ironização opera também na ideia do desejo como elemento emancipatório, pois, se o heideggerianismo é um movimento de direita adotado pela esquerda, a revolução desejante, de esquerda nos anos sessenta e setenta, tornou-se instrumentum regni da direita, reencontrando suas raízes genuínas, já que o apelo nietzschiano ao corpo e a crítica da moral se formaram no quadro de uma revolução dionisíaca centrada no homem desejante, o papel político do corpo realizou-se como corpo do líder e, como já mostrava Wagner em Arte e revolução, o desejo remete ao arcaico, à infância e às mães, fazendo de toda revolução desejante uma revolução conservadora.
2. No populismo, a revolução conservadora manifesta-se pelo mecanismo da dessublimação repressiva estudado por Horkheimer e Adorno, no qual o rei concede liberdade sexual ao povo e reserva para si todas as demais liberdades, com um anti-intelectualismo difuso que alimenta o espelhamento entre povo e rei, de modo que a revolução desejante se converte em restauração desejante, e não por acaso a mudança de posição de Foucault começou por aí, quando A vontade de saber, quatro anos depois do Anti-Édipo de Deleuze e Guattari, substituiu o paradigma do desejo emancipador pela tese do sexo como instrumento de controle e primeira manifestação da biopolítica.
3. Outro aspecto da dessublimação repressiva é o uso autoritário da crítica nietzschiana da moral, pelo qual o relativismo teorizado pelos progressistas é praticado sobretudo pelos conservadores, como no argumento do que há de mal nisso, que esvazia a priori, sob a acusação de moralismo, toda instância crítica da opinião pública, já transformada em lugar de manipulação segundo Habermas, reduzindo a crítica a fofoca, enquanto a personalização carismática do poder concentra a atenção no líder e faz a opinião pública regredir à sua fase pré-iluminista de mexerico ressentido sobre os vícios dos poderosos.
Desobjetificação
1. A razão suficiente e o motor político da ironização e da dessublimação estão na desobjetificação, a ideia de que objetividade, realidade e verdade são algo mau e a ignorância algo bom, na qual o pós-modernismo reúne ao menos três orientações de grande importância cultural.
2. Essas orientações são a tradição nietzschiana, para a qual a verdade é metáfora antiga, mito ou vontade de potência e o saber é instrumento de domínio ou engano, o recurso ao mito, patrimônio tradicional da direita recuperado pela esquerda nietzschiana e heideggeriana no projeto de uma nova mitologia a partir do apagamento da diferença entre mito e logos, e sobretudo a tese, compartilhada por grande parte da filosofia analítica, de que não há acesso ao mundo senão pela mediação, radicalizada em construção, dos esquemas conceituais e da representação.
3. Um verdadeiro estudo de caso dos efeitos perversos da desobjetificação é a tese de Feyerabend, nos anos setenta, de que não há método privilegiado na ciência e de que Belarmino tinha o direito de condenar Galileu, formulada provocativamente contra a concepção positivista da física, mas usada vinte anos depois, com toda seriedade, por Bento XVI para afirmar que os próprios epistemólogos negam que Galileu tivesse razão e que o saber humano conduz a antinomias resolvidas apenas numa racionalidade superior.
4. Nisso opera a dialética pós-moderna, pela qual a desobjetificação, formulada com intenções emancipatórias, converte-se em deslegitimação do saber humano e em apelo a um fundamento transcendente, pois os filósofos pós-modernos, céticos, não têm razões últimas para preferir Copérnico a Ptolomeu, enquanto o papa, sublinhando a dúvida da modernidade sobre si mesma, recupera o prestígio perdido pela Igreja e repropõe uma visão de mundo duplamente justificada, como legítima entre outras e como mais verdadeira por inscrita numa racionalidade maior.
5. O lado mais agressivo do ceticismo e da despedida da verdade manifestou-se na política, pois a desobjetificação pós-moderna foi a filosofia subjacente do governo Bush, para o qual a realidade era crença das comunidades baseadas na realidade, como declarou um assessor a Ron Suskind ao afirmar que um império cria sua própria realidade enquanto os outros a estudam, absurdo arrogante antecipado por Baudrillard ao sustentar que a Guerra do Golfo era ficção televisiva, papel de cético útil a uma causa que não era a sua.
Do realitismo ao realismo
1. O resultado conjunto de ironização, dessublimação e desobjetificação é o realitismo, nome ligado aos reality shows que capta o mundo perdido celebrado pelos pós-modernos, no qual se cancela a autoridade do real em favor de uma quase realidade ficcional baseada na justaposição, na dramatização e na oniricização, procedimentos que, combinados ao efeito de realidade da televisão, fazem do pós-modernismo realizado um utopismo violento e invertido, que toma o real por fábula e confunde realidade e ficção, ciência, religião e superstição.
2. O realitismo não é simples produto pós-moderno, mas tem um coração tão antigo quanto o desejo humano de ilusão e o gosto pela mistificação, surge na infância quando se pergunta se as coisas são reais ou sonhadas e constitui uma variante do solipsismo, que parece de início uma libertação, o bacanal dos espíritos livres de Nietzsche, mas sem mundo externo nem diferença entre realidade e representação produz melancolia, uma síndrome bipolar entre onipotência e inutilidade de tudo, e solidão, como já mostrava ironicamente Thomas Reid ao notar que, se tudo é representação, o universo inteiro, com amigos e parentes, se desvanece, e o sonho vira pesadelo como em O Show de Truman.
3. Os pós-modernos não ignoraram o Golem que criaram ou sancionaram, pois partiam de um sincero desejo emancipatório, mas adotaram em geral a estratégia wagneriana de que só a arma que feriu pode curar, princípio mágico do semelhante que cura o semelhante, revelando-se, apesar da ironia e do desencanto, um antirrealismo mágico que atribui ao espírito domínio incontestado sobre o mundo, contra o qual o realismo emergiu na virada do século para relegitimar uma noção antes tida por ingenuidade filosófica e conservadorismo político na era do todo poder à imaginação, quando trinta anos de história ensinaram o contrário.
4. O novo realismo é o nome comum de uma transformação da cultura filosófica contemporânea desenvolvida em várias direções, como o fim da virada linguística e a inclinação realista de filósofos antes sensíveis ao construtivismo, de Putnam a Eco e ao realismo especulativo, o retorno à percepção, que faz da estética uma filosofia da percepção aberta a um real independente dos esquemas conceituais, e a virada ontológica, que recupera na filosofia analítica e continental a ontologia como ciência do ser e da multiplicidade dos objetos, superando a atitude dominante desde Kant, que trocara o orgulhoso nome de ontologia pela modesta analítica do entendimento puro.
5. Sobre esse retrato da filosofia contemporânea, profundamente mudada desde o fim do século passado, assenta uma concepção pessoal de realismo elaborada em vinte anos e resumida em três palavras-chave, ontologia, crítica e Iluminismo, que respondem às três falácias do pós-modernismo, a do ser-saber, a do constatar-aceitar e a do saber-poder.
6. Ontologia significa que o mundo tem suas leis e as impõe, não sendo colônia dócil dos esquemas conceituais, contra a falácia do ser-saber que confunde o que existe com o que se sabe sobre o que existe, pois saber que a água é H2O exige linguagem e categorias, mas a água era H2O antes da química e continuaria a sê-lo sem humanos, e molha e o fogo queima independentemente do saber, numa resistência do real, a inemendabilidade, que limita mas também permite distinguir sonho de realidade e ciência de magia, razão pela qual o capítulo sobre ontologia se intitula Realismo.
7. Crítica significa recusar a falácia do constatar-aceitar, pela qual os pós-modernos supuseram que constatar a realidade é aceitar o estado de coisas e que o irrealismo é por si emancipatório, quando o realismo é premissa da crítica e o irrealismo se identifica com a aquiescência, como a fábula contada às crianças para dormir, ao passo que o realista pode criticar e transformar pela mesma razão banal de que o diagnóstico é premissa da terapia, e como toda desconstrução que é fim em si é irresponsabilidade, o terceiro capítulo se intitula Reconstrução.
8. Iluminismo significa responder à falácia do saber-poder, pela qual atrás de todo saber se esconderia um poder negativo, fazendo do conhecimento instrumento de servidão, segundo o diagnóstico de Habermas que via no pós-modernismo uma onda anti-iluminista enraizada no coração de trevas da modernidade, em de Maistre, Donoso Cortés, Nietzsche e Baudelaire, que o intervalo entre pós-modernismo e populismo parece ter confirmado, de modo que alcançar a emancipação que dá nome ao último capítulo exige recorrer ao sapere aude kantiano e à fé numa humanidade que não é raça decaída carente de redenção, mas espécie animal que evolui e, em seu progresso, foi dotada de razão.
