Onde estás?
FERRARIS, Maurizio. Dove sei? Ontologia del telefonino. Milão: Bompiani, 2005.
- Prefácio de Umberto Eco
- Introdução: Onde estás?
- I. Perì Mail: o telefone celular do faraó
- 1. Falar
- 2. Escrever
- 3. Registrar
- 4. Construir
- O diabrete da garrafa
- II. Objetos sociais: realismo e textualismo
- 5. Realismo forte
- 6. Textualismo forte
- 7. Realismo fraco
- 8. Textualismo fraco
- Epílogo
Prefácio de Umberto Eco — A verdade e o telefone celular
1. Ao incorporar as funções de agenda e de computador de bolso conectado à internet, o telefone celular transforma os hábitos cotidianos e adquire interesse filosófico como instrumento de leitura, escrita e registro, práticas que remetem à noção derridiana de inscrição.
2. A passagem do telefone fixo ao celular altera a privacidade porque, embora se saiba geralmente quem atende sem saber onde essa pessoa está, a operadora pode localizar ambos os interlocutores, de modo que a menor visibilidade perante outros indivíduos convive com uma vigilância mais abrangente.
3. A disponibilidade permanente pelo celular pode evitar desencontros como o de Jivago e Lara, mas também permite que chamadas interrompam conversas presenciais e reduz as ocasiões de solidão e reflexão silenciosa, de modo que a transformação dos hábitos nem sempre representa emancipação.
4. A reflexão sobre o celular dá lugar à formulação de um realismo chamado «textualismo fraco», no qual a crítica à primazia da interpretação sobre os fatos e ao pós-modernismo filosófico, em confronto com Heidegger, Gadamer e Vattimo, desemboca na defesa da consciência como espelho da natureza.
5. A passagem do celular ao problema da verdade se apoia na distinção entre objetos físicos e ideais, que existem independentemente das decisões humanas, e objetos sociais, que só passam a operar mediante um registro ou uma inscrição, cuja possível fundamentação natural ajuda a compreender o celular como dispositivo de registro de alcance geral.
6. A distinção entre registro e comunicação merece exame mais detido, pois a análise dos registros, como extratos bancários, leis e cadastros de dados pessoais, é mais precisa que a caracterização genérica da comunicação, e a brevidade de uma Bustina limita o aprofundamento dessa diferença.
7. Embora os conceitos de escrita e assinatura pudessem bastar para formular as teses ontológicas, o interesse maior da investigação está em mostrar como a ontologia esclarece o papel do celular na vida social.
