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ESCATOLOGIA DE ORFEU
ELIADE, Mircea. Historia de las creencias y las ideas religiosas (3 vols). Barcelona: Paidós, 1999.
- A escatologia órfica é reconstituída a partir de referências de Platão, Empédocles e Píndaro, e de inscrições em lâminas de ouro encontradas em sepulturas, que descrevem o percurso da alma no além e as instruções para alcançar um destino privilegiado.
- As referências platônicas indicam que o caminho no Hades não é único, apresentando desvios e obstáculos, com uma estrada à direita para os justos e outra à esquerda para os maus.
- As lâminas de ouro, datadas do século V, contêm instruções precisas para o morto, como evitar uma fonte à esquerda e, em vez disso, pedir água aos guardas do lago de Memória, declarando-se filho da Terra e do Céu estrelado.
- A recompensa por seguir corretamente as instruções é beber da fonte sagrada e reinar entre os heróis.
- A necessidade de evitar a água do Lete decorre da crença de que as almas dos órficos não reencarnavam, ao contrário das almas comuns no mito de Er, que são obrigadas a beber do esquecimento antes de reencarnar.
- A inscrição numa lâmina celebra a fuga do “ciclo das pesadas penas e das dores” e a transformação do homem em deus.
- Outras tabuinhas detalham o sofrimento do iniciado, sua súplica a Perséfone e o acolhimento benevolente da deusa, que o envia para a morada dos santos.
- O “ciclo das pesadas penas” é um processo de múltiplas reencarnações, durante o qual a alma, após julgada e temporariamente recompensada ou castigada, retorna à Terra, sendo que os órficos descreviam detalhadamente os tormentos dos condenados.
- Kern atribui ao orfismo a criação da noção de Inferno, com base nas descrições de suplícios como ser mergulhado na lama ou esforçar-se inutilmente para encher um tonel furado.
- A figura de Orfeu, com sua descida ao Hades em busca de Eurídice, contém um elemento xamanístico, similar aos relatos de xamãs da Ásia central e setentrional que popularizaram uma geografia infernal por meio de suas descidas extáticas.
- A paisagem e o itinerário descritos nas lamelas, como a fonte, o cipreste e a estrada da direita, encontram paralelos em outras mitologias funerárias, possivelmente representando uma herança comum imemorial de especulações sobre êxtases e viagens imaginárias, e não uma influência oriental direta.
- A imagem da árvore junto a uma fonte é um símbolo recorrente do Paraíso, como no jardim mesopotâmico com sua árvore sagrada e fonte guardada pelo Rei-Jardineiro.
- A importância religiosa das lamelas reside na apresentação de uma concepção da pós-existência da alma diferente da tradição homérica, possivelmente originada de crenças arcaicas mediterrâneas e orientais que ganharam prestígio entre órficos e pitagóricos.
- A nova interpretação da “sede da alma” é significativa, pois na tradição órfica a memória se torna um elemento central em contraposição ao esquecimento, que na doutrina da transmigração passa a simbolizar o retorno à vida e não a morte.
- A crença de que a “Aguardente” assegura a ressurreição é difundida, mas para os gregos, a morte era assimilada ao esquecimento, com exceção de alguns privilegiados como Tirésias que conservavam a memória.
- Na doutrina da transmigração, a fonte do Lete faz a alma esquecer o mundo celeste para reencarnar, enquanto a memória, conservada por Pitágoras e Empédocles, é sinal de que escaparam ao ciclo do devir, um tema que também influenciou técnicas contemplativas indianas e o gnosticismo.
- Os fragmentos das lamelas de ouro são considerados parte de um guia do além, cuja origem “órfica” é contestada por alguns estudiosos em favor de uma origem pitagórica, embora as semelhanças entre as duas tradições não invalidem a existência de um movimento órfico autônomo.
- As lendas de Pitágoras apresentam elementos “xamanísticos” análogos aos de Orfeu, como a catábase, a “coxa de ouro” e o domínio sobre animais, que também são encontrados em figuras como Ábaris, Arísteas e Hermotimo.
- As analogias entre doutrinas e práticas órficas e pitagóricas, como a crença na metempsicose e o ascetismo, não provam que o orfismo tenha sido inventado por Pitágoras, sendo mais provável que ambos os movimentos tenham se desenvolvido paralelamente como expressões do mesmo espírito da época, embora os pitagóricos tenham se organizado como uma sociedade fechada com um sistema de “educação completa”.
- O grande mérito de Pitágoras foi estabelecer as bases de uma “ciência total” de estrutura holística, que integrava o conhecimento científico a princípios éticos, metafísicos e religiosos, com uma função gnosiológica, existencial e soteriológica.
- Esse tipo de “ciência total”, que perdeu prestígio após Aristóteles, pode ser reconhecido no pensamento de Platão, nos humanistas do Renascimento, em Paracelso e nos alquimistas do século XVI, bem como na medicina e alquimia indianas e chinesas.
- A diferença em relação à ciência moderna não implica insuficiência do método holístico, mas sim uma perspectiva e um objetivo diferentes, como no caso da alquimia em relação à química.
- O orfismo, ao contrário de uma “Igreja” ou seita secreta, caracteriza-se como um movimento popular que atraía as elites, comportando iniciações e dispondo de uma vasta literatura, o que o aproxima mais de movimentos como o tantrismo indiano e o neotaoismo.
- Os órficos podem ser vistos como sucessores de grupos iniciatórios arcaicos (Cabiras, Curetes, etc.), que guardavam “segredos de ofício” ligados à metalurgia e cura, os quais foram substituídos pelos “segredos” sobre o destino da alma após a morte.
- Apesar do declínio do prestígio do orfismo após as guerras médicas, suas ideias centrais, como o dualismo e a imortalidade da alma, persistiram no pensamento grego por meio de Platão e em nível popular, influenciando as religiões de Mistérios e renovando-se com os neoplatônicos.
- A figura de Orfeu transcendeu o movimento órfico, sendo continuamente reinterpretada por teólogos judeus e cristãos, hermetistas, filósofos renascentistas e poetas modernos, consolidando-se como uma das raras figuras míticas gregas preservadas pela Europa através dos séculos.
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