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1 Mundo e seu teatro

Jean-Pierre Cavaillé: Descartes – La Fable du Monde (Paris: Vrin / Éditions de l'EHESS, 1991)

O MUNDO E SEU TEATRO

1. A figura deste mundo passa a todo momento, de modo que todo o mundo presente e visível não passa de um grande teatro em que tudo é figura e cujas belezas são meros adornos de cena.

2. No escrito intitulado Mundo, e nos textos cartesianos estreitamente ligados a ele, ergue-se sobre as ruínas do cosmos e da tradição um novo universo, o mundo moderno, objeto da física mecanicista e novo quadro da experiência humana, que ao mesmo tempo se inscreve na visão de mundo barroca e dela se desprende, transformando-a numa orientação indissoluvelmente científica e metafísica, o que exige especificar previamente a noção de mundo própria da cultura erudita do início do século XVII e sua relação com a tradição metafísica.

3. A noção barroca de mundo é inseparável da metáfora do teatro, razão pela qual o anfiteatro de anatomia de Leiden serve de microcosmo paradigmático do mundo pré-cartesiano, já que a anatomia da época, ao fazer do cadáver o paradigma do ser vivo, rompe com a tradição que concebia a vida como modelo de todo ente, confronta o homem com seu próprio não-ser e exprime uma crise profunda da ontologia, crise encenada por excelência no teatro como lugar da ilusão e da aparência sem ser, e somente nesse contexto a fábula cosmológica de Descartes pode ser verdadeiramente compreendida.

1. “MUNDUS EST FABULA”: O ENIGMA DO RETRATO

1. O aforismo “Mundus est fabula”, inscrito no livro aberto diante do filósofo no retrato pintado por Jean-Baptiste Weenix, constitui ao mesmo tempo uma variação sobre o tema barroco obrigatório do teatro do mundo e uma alusão explícita ao tratado que Descartes apresentou como fábula, conhecido dos contemporâneos pelo resumo do Discurso do Método e pelos Princípios de Filosofia, de modo que o retrato permite compreender como o novo mundo se desprende de sua matéria-prima, a mentalidade barroca, e reconduz, pelo duplo prisma da biografia e do universo cultural, à leitura do próprio texto.

2. Pintado por volta de 1647, quando a obra cartesiana já estava em grande parte constituída e o filósofo, cansado das controvérsias com universidades protestantes e com os jesuítas, adotava como divisa os versos de Sêneca sobre a morte de quem é conhecido de todos mas desconhecido de si mesmo, o retrato admite uma leitura neoestoica em que o mundo, tido por fábula, significa a vida mundana como cena teatral da existência encerrada pela morte, à maneira de um memento mori que ecoa o dito de Augusto “Acta est fabula”, retomado por Rabelais e pelos autores barrocos.

3. A leitura moral da epígrafe não afasta da ciência, pois no século XVII saber e moral permanecem ligados, seja na sabedoria como fim da ciência cartesiana, seja na anexação da moral à ciência política em Hobbes, e por isso a metáfora do teatro do mundo assume simultaneamente sentido moral e cosmológico, associada a uma concepção artificialista da natureza em que natureza e sociedade partilham a estrutura da teatralidade, cabendo à ciência desmontar os mecanismos ocultos que produzem as aparências ilusórias e à moral ensinar a conduta no palco do mundo, metáfora técnico-moral presente tanto no discurso do cortesão quanto no ascetismo cristão e diante da qual Descartes abre uma terceira via.

4. O anfiteatro de anatomia conhecido por Descartes oferece um exemplo de teatralidade ao mesmo tempo moral e científica, tornando-se lugar paradigmático do mundo pré-cartesiano que prepara o tratado do Mundo e no qual a epígrafe do retrato encontra seu lugar.

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