0 Introdução
Jean-Pierre Cavaillé: Descartes – La Fable du Monde (Paris: Vrin / Éditions de l'EHESS, 1991)
1. O Mundo de Descartes, tratado de física mecanicista composto entre 1630 e 1633 e deixado sem publicação diante da condenação de Galileu, apresenta como fábula um novo mundo concebido no isolamento da Holanda, um universo imaginário do qual o filósofo é criador, monarca e único habitante, em oposição ao mundo dos outros, formado pelos círculos intelectuais, salões, academias e universidades com os quais, no entanto, mantém constante ligação.
2. O mundo próprio do filósofo e o mundo cultural de sua época não se separam drasticamente, mas se interpenetram, pois a obra pertence ao universo erudito da primeira metade do século XVII e a própria postura de desconfiança e afastamento em relação às instituições do saber reproduz dois traços marcantes daquela cultura: uma ética da desconfiança e uma estética da distância.
3. O Mundo constitui um acontecimento literário, científico e filosófico ao oferecer pela primeira vez, em francês e em estilo coloquial, um sistema cosmológico e fisiológico inteiramente mecanicista, fundado numa epistemologia centrada no espírito que conhece e não mais no mundo conhecido, esboçando ainda a metafísica nova exigida por essa revolução epistemológica.
4. Ressituar Descartes em seu mundo e reinterpretar o acontecimento que a obra representa exige uma perspectiva resolutamente filosófica, voltada não às determinações sociais, religiosas e culturais tomadas em si mesmas, mas ao diálogo crítico mantido pelo filósofo com a cultura de que provém, diálogo para o qual contribuem a história das ciências, a crítica literária e a história da arte, e que pode ser designado, com as devidas precauções, como relação com o pensamento barroco.
5. Apesar de vago e perigoso, o termo barroco designa com comodidade uma época da cultura europeia que vai das duas últimas décadas do século XVI até meados do século XVII, período em que se inscreve inteiramente a vida de Descartes, contemporâneo de Rembrandt, Calderón e Corneille, interlocutor de Mersenne, Arnauld, Bérulle e libertinos, testemunha da Guerra dos Trinta Anos e da Fronda, constatação longamente evitada pelos comentadores, mas decisiva para compreender os motivos de sua filosofia.
6. A inserção de Descartes na idade barroca reabre a questão de sua relação com o ceticismo, categoria capaz de abarcar a maior parte da produção cultural da época para além de suas clivagens, manifestando-se como crítica da metafísica tradicional e crise do pensamento presente tanto nos libertinos, no agostinianismo renovado, em Gassendi, em Hobbes e na nova ciência quanto no aristotelismo universitário, como terreno pré-teórico de uma cultura do trompe-l'oeil, da teatralidade, da dissimulação e da vaidade, e ainda como filosofia natural mundana do homem educado, irônica diante da especulação filosófica.
7. Nesse mundo cultural, a filosofia cartesiana busca uma resposta definitiva à crise cética ao levar a dúvida até o ponto em que ela se converte na certeza absoluta do eu penso, fundando uma filosofia da verdade capaz de garantir o desenvolvimento coerente da ciência moderna e de definir o estatuto metafísico e moral do sujeito desse novo saber, de modo que o tratado de física, embora movido sobretudo pela preocupação científica, participa da cultura da dúvida e da representação ao mesmo tempo em que pretende superá-la.
8. A fábula serve de fio condutor da investigação por ser um conceito-chave do ceticismo barroco, tanto como gênero discursivo ligado ao imaginário e destinado a exprimir e denunciar a ilusão quanto como metáfora da vaidade e da falsidade do mundo, e é justamente sob a forma da fábula de um novo mundo, criado nos espaços imaginários deixados vazios pela filosofia escolástica, que Descartes apresenta a verdadeira ciência do mundo.
