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denis_de_rougemont:romance

Triunfo do romance

DRAO

  • Caráter ideal do incipit romanesco e seu encanto
    • Exemplo paradigmático da abertura de Tristão de Bédier: convite para ouvir um belo conto de amor e morte.
    • Artefato retórico infalível que projeta imediatamente o leitor num estado de espera apaixonada, fonte da ilusão romanesca.
    • Interrogação sobre a origem desse encanto e sobre as cumplicidades íntimas que esse artifício mobiliza no coração humano.
  • Sucesso do romance como prova da ressonância profunda do acordo amor-morte
    • Sucesso prodigioso do romance estabelecendo o fato de que o acordo entre amor e morte comove as ressonâncias mais profundas do ser.
    • Razões mais secretas para ver nisso uma definição da consciência ocidental, além da mera eficácia narrativa.
  • Primado do amor mortal como essência do romanesco e do lirismo ocidental
    • Constatação de que o amor feliz não tem história; o romance nasce apenas do amor ameaçado e condenado pela vida.
    • Exaltação lírica ocidental centrada não no prazer dos sentidos ou na paz do casal, mas na paixão amorosa.
    • Etimologia fundamental: paixão significa sofrimento, constitui o fato primordial dessa sensibilidade.
  • Culto moderno da paixão e sua inversão semântica
    • Entusiasmo contemporâneo pelo romance e pelo cinema, difusão de um erotismo idealizado em toda a cultura e educação.
    • Necessidade de evasão exacerbada pelo tédio mecânico, glorificando a paixão como promessa de uma vida mais intensa, de um poder transfigurador.
    • Inversão semântica: no termo paixão, não se percebe mais aquilo que sofre, mas aquilo que é apaixonante.
  • Contradição fundamental entre a idealização da paixão e sua realidade infeliz
    • Realidade sociológica: na sociedade ocidental de costumes estáveis, o amor-paixão assume na maioria das vezes a forma do adultério.
    • Crueldade da estatística que refuta a poesia e a ilusão coletiva.
    • Questão central: vivemos numa ilusão/mistificação que ocultou essa infelicidade, ou secretamente preferimos o que fere e exalta a uma vida harmoniosa?
  • Desnudamento da ilusão e resistência psicológica
    • Esforço analítico desagradável que visa destruir a ilusão ao afirmar a coalescência frequente entre paixão e adultério.
    • Exposição daquilo que o culto do amor mascara, recalca e se recusa a nomear para permitir um abandono ardente ao interdito.
    • A resistência do leitor a reconhecer essa confusão constitui uma primeira prova do paradoxo: queremos a paixão e a infelicidade, desde que nunca confessemos querê-las como tais.
  • Preponderância literária do adultério como sintoma social
    • Julgamento externo: o adultério apareceria como uma das principais ocupações dos ocidentais, a julgar por suas literaturas.
    • Raridade dos romances que não lhe fazem alusão; sucesso e cumplicidades despertadas por aqueles que o tratam.
    • A literatura vive da crise do casamento e simultaneamente a alimenta, seja pela idealização, pela psicologização ou pela ironia.
  • Tratamentos literários do adultério como confissão de uma realidade insuportável
    • Diversos modos de tratamento (direito divino da paixão, psicologia mundana, comédia de trio) traindo um tormento obsessivo.
    • Esses tratamentos (místico ou farsesco) buscam evadir-se da realidade atroz, confessando assim seu caráter insuportável.
    • Categorização ampla dos indivíduos afetados (mal casados, decepcionados, revoltados, infiéis, traídos), de fato ou em sonho.
  • Extensão da infelicidade humana ligada ao adultério e carência do discurso
    • Metade da infelicidade humana parece se resumir na palavra adultério, englobando renúncias, compromissos, rupturas, neurastenias.
    • Paradoxo: apesar da proliferação literária, a realidade dessa infelicidade parece muitas vezes inédita, certas questões ingênuas sendo mais frequentemente resolvidas do que colocadas.
  • Questionamento radical sobre a origem da crise matrimonial
    • Alternativa etiológica: a culpa é da instituição do casamento em si, ou de algo que a arruína no cerne de nossas ambições?
    • Interrogação sobre a responsabilidade da concepção cristã do casamento versus a de uma concepção do amor que torna o vínculo insuportável por essência.
  • Contradição profunda do ocidental e questão final
    • Constatação de uma contradição fundamental: o ocidental ama tanto aquilo que destrói quanto aquilo que assegura a felicidade conjugal.
    • Investigação sobre a origem desse gosto pela infelicidade: provém simplesmente do fascínio do interdito?
    • Questão última sobre a ideia de amor que isso trai, e sobre o segredo de nossa existência, de nosso espírito, talvez de nossa história que ela revela.
denis_de_rougemont/romance.txt · Last modified: by mccastro