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chauvire:1989:2

2 Gramática

CHAUVIRÉ, Christiane. Ludwig Wittgenstein. Paris: Seuil, 1989.

“Uma nuvem de filosofia numa gota de gramática”

1. A virada gramatical dos anos 1930 deixa intactas a oposição entre dizer e mostrar e a oposição entre vontade e representação, mantendo-se mais que nunca a tese da inefabilidade das relações semânticas, que se mostram mas não se dizem, e reaparecendo reforçada a distinção entre vontade e representação sob a forma da distinção entre as regras da gramática e as proposições ordinárias, eixos que se entrecruzam e são solidários.

2. A noção inteiramente original de gramática, em torno da qual se unifica toda a segunda filosofia, deriva em grande parte da sintaxe lógica do Tractatus e talvez da noção de símbolo que regula o uso do signo, mas tem campo mais amplo, sendo ao mesmo tempo o conjunto das regras que governam o uso efetivo de uma expressão e a maneira concreta como ela é usada, lida na prática e observada pelo filósofo para obter a representação sinóptica da linguagem em seu uso correto, cuja disposição apropriada dos fatos constitui a solução capaz de curar a doença filosófica.

3. Antes de recorrer à gramática, Wittgenstein passou por um estágio intermediário em que comparava a linguagem a um sistema como o xadrez ou a um cálculo e modificava a metáfora da régua graduada, aplicando à realidade não proposições isoladas, mas sistemas inteiros, como quando dizer que um ponto é azul aplica de uma vez toda a escala de cores, sendo a gramática das cores, que inclui o octaedro cromático e a geometria euclidiana, o exemplo privilegiado que conduz à noção geral de gramática e à noção-chave de paradigma, amostra ou padrão de medida, com o abandono da noção de objeto e do atomismo lógico.

4. Um paradigma de cor é um instrumento da linguagem com que se formulam enunciados de cor, sendo nesse jogo não algo representado, mas um meio de representação.

5. O que deve ser dado para que se formem proposições com sentido não são os objetos simples do Tractatus, mas regras de gramática, cuja essência, ao contrário da proposição ordinária, é determinar o que é um fato ou que forma deve ter sua descrição, de modo que a gramática não presta contas a nenhuma realidade, constitui a significação em vez de responder a ela e é, nessa medida, arbitrária.

6. Só se pode falar de fatos ou de experiência em virtude de regras gramaticais que, embora ligadas a certas condições empíricas, não derivam delas e, sendo condições de significação, não têm condições de verdade nem são verificáveis pela confrontação com a realidade, cabendo-lhes determinar a priori o que tem e o que não tem sentido, retirando de circulação as expressões sem sentido, numa morfologia impura das significações que, ao contrário da gramática pura de Husserl ou Peirce, incorpora elementos empíricos e se ocupa da linha de demarcação entre o gramatical, ou lógico, e o psicológico.

7. Como atividade de elucidação, a filosofia tem por objeto a gramática e busca uma visão sinóptica dela sem jamais reformar a linguagem ordinária, ao contrário do Tractatus, que a media por uma linguagem lógica ideal, devendo deixar as regras como estão, mantendo os livros de contas da gramática sem dirigir os negócios, como mostra o octaedro das cores, que desdobra a gramática das cores e torna a impossibilidade de um laranja azulado uma impossibilidade gramatical, e não física ou psicológica.

8. A geometria é também parte da gramática, sendo seus axiomas regras disfarçadas de uma sintaxe, e suas proposições, sem conteúdo descritivo, não falam do círculo ou do cubo ideais, mas constituem e definem a forma circular ou cúbica.

9. Pseudoproposições como não há verde avermelhado ou só eu sinto minha dor, que parecem descrever fatos essenciais, são na realidade regras gramaticais, pois o que corresponde a uma necessidade no mundo deve ser o que na linguagem parece uma regra arbitrária.

10. As pseudoproposições de essência são regras de linguagem, o que gera o pequeno paradoxo do caráter arbitrário da necessidade, exprimindo-se a essência na convenção, sem que toda necessidade tenha origem linguística.

11. Fazer das pseudoproposições gramaticais regras afirma a unidade da linguagem submetida a normas que não constituem uma superlinguagem, de modo que o filósofo, em vez de construir uma linguagem ideal para retificar a linguagem ordinária, já em ordem tal como está, deve apenas clarificar a gramática dos enunciados que geram mal-entendidos, estendendo-se o uso amplo do termo gramática à matemática, à filosofia, às proposições entre experiência e lógica da gramática das cores e às proposições empíricas que funcionam como normas, caso examinado em Da Certeza e nas Observações sobre as Cores, onde se relativiza a oposição entre proposições gramaticais e empíricas.

12. A visão unitária da linguagem do Tractatus é superada, pois falar é uma prática social entre outras, abordável antropologicamente, e a linguagem se fragmenta em jogos de linguagem enraizados na forma de vida, com uma diferenciação explícita entre proposições ordinárias e regras, sem que se admita metalinguagem, de modo que o nivelamento entre proposições descritivas e regras normativas substitui o desnível entre gramática de superfície e gramática profunda, e a pluralidade dos jogos, todos no mesmo plano, substitui a ilusória essência da linguagem, restando à filosofia apenas a descrição dos fatos gramaticais.

13. Fragmentada em jogos heterogêneos, a linguagem conserva uma unidade que já não é a da essência, mas a de uma família de jogos ligados por ares de família, como um cabo cuja solidez vem de nenhuma fibra percorrê-lo de ponta a ponta, e a cisão entre proposições e regras manifesta um aspecto schopenhaueriano do pensamento de Wittgenstein, pois os juízos de valor formulados pelas regras adotadas exprimem a vontade, que nelas se objetiva, enquanto as proposições ordinárias permanecem do lado da representação.

Jogos de linguagem e ares de família

1. Os jogos de linguagem são apresentados no início das Investigações como modelos reduzidos de modos simplificados de funcionamento da linguagem, jogos inventados como o dos pedreiros, aparentados aos jogos com que se ensina às crianças a língua materna, mas tomados como linguagens completas, sistemas completos de comunicação humana, cujo objetivo é refutar a ideia de uma linguagem unitária e a técnica da análise lógica do Tractatus, desacreditando a independência das proposições atômicas e cristalizando o abandono do atomismo lógico.

2. No período de transição, a linguagem foi comparada a um cálculo ou ao xadrez, cujas peças não substituem nada e têm por significação apenas a soma dos lances possíveis, com regras autônomas, sem fundamento na realidade e arbitrárias, embora mudar as regras seja mudar o jogo, diferindo a linguagem do xadrez por aplicar-se à realidade, como a matemática pura.

3. Abandonada a metáfora do cálculo, que idealizava e sublimava a sintaxe à maneira do Tractatus, conserva-se a do jogo, mais flexível, livre criação do espírito e da vontade governada por regras, cuja prática supõe o domínio de uma técnica adquirida por aprendizado, preenchendo o adestramento e a familiaridade o fosso entre a regra e sua aplicação, e sendo o objetivo de ganhar puramente interno ao jogo.

4. O conceito de jogo torna-se o exemplo privilegiado de um conceito de ar de família, que não se define por notas características, mas se explica por casos que se recobrem de modos diversos, sem conjunto de condições necessárias e suficientes, podendo teoricamente estender-se indefinidamente.

5. O jogo de linguagem designa uma nova técnica de análise filosófica, introduzida no Caderno Azul, que consiste em considerar formas primitivas de linguagem nas quais as formas de pensamento aparecem sem a confusão produzida por processos de pensamento complicados, dissipando a névoa que envolve o uso ordinário e mostrando atividades e reações transparentes, das quais as formas complexas podem ser construídas por acréscimo progressivo.

6. O método analítico-genético é repudiado nas Investigações, onde o jogo de linguagem deixa de ser um estado da linguagem infantil e se distinguem jogos naturais e jogos inventados para fins filosóficos, linguagens primitivas completas que podem variar por adição e modificação, úteis por serem facilmente abarcáveis e sobretudo por fazerem ver conexões, analogias e diferenças que desdobram as articulações da linguagem fonte de perplexidade, sem precisar ser isomorfos a ela, servindo como objetos de comparação que isolam traços obscurecidos pelo emaranhado do uso ordinário e fazem recuar dogmatismo, preconceito e mitos filosóficos, no reino da analogia.

7. O conceito de ar de família tem papel polêmico contra o dogma, pedra angular do Tractatus, de que o emprego de um termo geral se justifica pela posse comum de certas propriedades, e contra a exigência fregeana de uma definição por notas que especifique condições necessárias e suficientes, pois para compreender um termo não é preciso poder defini-lo assim, e o que faz de diversas atividades jogos não é um conjunto fixo de propriedades comuns, mas uma rede de semelhanças entrecruzadas como as que existem entre os membros de uma família.

8. Explicar o que é um jogo consiste sobretudo em dar exemplos, numa tática antissocrática, descrevendo jogos e construindo outros por analogia para saber o que excluir da família, sendo os exemplos paradigmáticos centros de variação, e a ausência de definição por notas não impede que o conceito tenha unidade, a de uma única família, como ocorre com o conceito de número.

9. O conceito de jogo não tem bordas nítidas, pois, não dependendo de uma definição por notas, sua extensão não é rigidamente delimitada, explicando-se por paradigmas sem especificar o grau de semelhança exigido, e se em certos casos se pode cercá-lo com uma linha de demarcação, ela é relativa ao objetivo do momento.

10. Combate-se assim a subestimação das formas de explicação diferentes da definição por notas, pois na prática corrente recorre-se a explicações variadas que cumprem perfeitamente sua função pragmática, sem que os conceitos assim explicados sejam mais contestáveis, podendo um mesmo conceito admitir explicações legítimas por diferentes conjuntos de paradigmas.

11. Rejeitam-se a hipótese da ambiguidade do conceito de jogo, que seria uma pluralidade de conceitos aparentados definidos por notas, a hipótese da disjunção de propriedades comuns e, sobretudo, a hipótese de que jogo seria inanalisável.

12. É agora a gramática que assegura a ligação e a harmonia entre linguagem e realidade, que é apenas a sombra da gramática, tendo a estrutura lógica que lhe encontramos porque nossas formas de representação têm a forma que lhes demos, mas, fiel ao Tractatus, Wittgenstein mantém que as estruturas comuns à linguagem e à realidade não podem ser ditas, apenas mostradas no uso, de modo que a essência se exprime na gramática sem ser nela descrita, e a isomorfia persiste não porque a linguagem reflita a forma lógica do universo, mas porque a estrutura aparente da realidade é a sombra da gramática.

13. Os problemas do Tractatus, contato entre linguagem e mundo, isomorfia estrutural e verdade, são resolvidos dentro da gramática, onde tudo se regula, sendo a harmonia entre linguagem e realidade preestabelecida pelas regras que nos demos e que a realidade não pode confirmar nem desmentir, já que só a apreendemos por essa gramática, de modo que a vontade assume o que no Tractatus pertencia à representação, o problema permanece transcendental, com um a priori relativo, e a eternidade dogmática dos objetos dá lugar à intemporalidade dos paradigmas, instrumentos de representação que antecipam a experiência e objetivam nosso querer.

14. O filósofo é tentado a reificar a gramática e atribuir poderes a regras sublimadas, tentação afastada pela comparação da regra com uma placa de sinalização, que nada é e nada faz se ninguém a lê e segue, pois só no uso uma frase exprime uma regra, e esse uso não lhe é intrínseco, como um mostruário de cores que poderia servir de papel de parede, sendo o uso das regras como guia, justificação e explicação que preenche o fosso entre a regra e sua aplicação.

Como se pode seguir uma regra?

1. A propósito desse fosso desenvolve-se o problema hoje muito estudado do que é seguir uma regra, melhor exemplo da guerra às representações mágicas engendradas pela linguagem a respeito da relação entre a regra e sua aplicação, a significação e o uso, saber uma língua e as execuções efetivas, devendo-se rejeitar a tentação de conceber a memória ou o espírito como um vasto entreposto ou mecanismo de onde provêm as execuções concretas, como se o saber fosse o reservatório hipotético de onde corre a água que se vê.

2. Essa representação é ilusória em parte pelo caráter causal ou mecânico atribuído à relação entre regra e aplicação, que leva a imaginar um corpo de significação por trás da palavra ou um corpo de regras que determinaria magicamente o sentido, como se a regra fosse uma fórmula mágica que nos submete a uma coação passiva, ideia sem correspondência real, de modo que a solução consiste em constatar que regra e aplicações estão em conexão interna, gramatical, mais rígida que qualquer conexão empírica e a única sem magia, sendo precisamente essa conexão interna que tenta a crer que a regra contém de antemão suas aplicações, mesmo na versão atenuada disposicionalista, e ilustra a ilusão filosófica típica de inventar um termo intermediário para explicar o que é claro em si mesmo, quando basta descrever a harmonia preestabelecida entre regras e aplicações, pois aplicar uma regra é uma capacidade e uma criação normativa, não um saber tácito, e cada aplicação é uma decisão espontânea sem razões a indicar, de modo que o risco filosófico é engendrar um mito do simbolismo ou dos processos mentais em vez de dizer o que todos sabem e não podem deixar de conceder.

3. A atitude diante da aplicação da regra é criativista ao extremo, sendo a suposta obediência uma decisão normativa, o que valeu a acusação de beirar o anarquismo, e pode-se perguntar se a conexão interna, imaterial e mais rígida que qualquer conexão material, não é ela mesma mítica e explicativa em vez de descritiva, mas o que se pretende não é desacreditar a ideia de que o uso futuro está virtualmente contido na regra, já que, havendo capacidade de aplicá-la e relação interna, as aplicações estão de certo modo já ali, e sim abolir as representações mágicas dessa relação de continente e conteúdo, análise que se aplica também à necessidade lógica e à dureza do dever lógico.

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