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BEATRIZ DE DANTE

WILLIAMS, CHARLES. DELPHI COMPLETE WORKS OF CHARLES WILLIAMS ILLUSTRATED. S.l.: DELPHI PUBLISHING LTD, 2023.

  • O exame proposto concentra-se na figura de Beatriz e na relação que essa figura mantém com o conjunto da obra, porque ela é apresentada desde o início como centro organizador da experiência poética.
    • O início da obra dantesca é situado entre poetas que inauguram o trabalho por uma experiência pessoal intensa, declarada como tal e integrada à poesia.
    • Essa experiência não permanece confinada ao primeiro livro, pois é recordada e confirmada no trabalho posterior e mais amplo, de modo que a origem experiencial se prolonga e se ratifica.
  • A experiência à qual Beatriz pertence é tipificada por Dante no Convivio, como estupor ou assombro mental diante do grande e do maravilhoso, com dois efeitos necessários.
    • O estupor produz reverência e desejo de saber mais, de modo que a experiência inicial se desdobra simultaneamente em culto e em investigação.
    • O encontro com a jovem florentina é apresentado como caso dessa estrutura, e a obra inteira é descrita como incremento progressivo desse culto e desse conhecimento.
  • A permanência e a renovação deliberada da imagem de Beatriz definem um regime de interioridade que não se confunde com fantasia, porque é declarado como memória de um fato exterior.
    • A palavra imagem é adotada por conveniência, primeiro porque a recordação subjetiva corresponde a algo objetivamente fora, de modo que se trata de visão e não de invenção.
    • A impossibilidade de inventar Beatriz é afirmada como tese central, pois a imagem remete a um dado exterior, não a um desejo interior.
    • A palavra imagem é adotada também porque a forma exterior é compreendida como imagem de realidades que a excedem, de modo que o visível remete ao além de si.
  • A relação entre o menor e o maior é descrita por meio de uma estrutura triádica atribuída ao símbolo, mas a escolha recai no termo imagem para preservar a individualidade vívida do termo menor.
    • O menor deve existir em si, derivar de algo maior e representar em si a grandeza de que deriva, e essa tríplice exigência é aplicada ao caso de Beatriz.
    • A reserva quanto ao termo símbolo decorre da suspeita de que ele já não garante, no uso contemporâneo, a realidade vívida do ente singular.
    • Beatriz é afirmada como imagem de nobreza, de virtude, da vida redimida e, em certo sentido, do próprio Deus, sem que isso apague sua identidade singular.
    • A derivação para o maior não deve obscurecer a identidade de Beatriz, assim como a identidade de Beatriz não deve ocultar a derivação.
  • A simultaneidade entre Beatriz como pessoa objetiva e Beatriz como via de acesso ao poder expresso por ela é mantida sem exclusões recíprocas.
    • A imagem mental de Beatriz não exclui a Beatriz objetiva, mas é o modo pelo qual ela pode ser conhecida.
    • A Beatriz objetiva não exclui o poder que se expressa por meio dela, mas o torna acessível.
    • Assim como a Beatriz objetiva é conhecida pela imagem mental, o poder final é conhecido, para Dante, apenas por meio dela, porque foi desse modo que esse poder se deu a conhecer.
    • A máxima que regula a relação com o poder final é formulada como dupla afirmação e dupla negação, de modo que o reconhecimento não se converte em identificação simples.
  • A exclusividade de Beatriz como via é imediatamente corrigida por uma pluralidade de outras formas presentes no pensamento de Dante, cada qual com identidade própria e autonomia, mas reunidas sob a ordenação beatriciana.
    • Existem muitas outras figuras, de pessoas e lugares, de filosofias e poemas, e cada uma preserva sua existência própria.
    • A determinação poética consiste em relacionar todas essas figuras à figura de Beatriz, aproximando-a, tanto quanto possível, da imagem final do Deus todo-poderoso.
    • Essa operação é identificada como marca de gênio poético, e também como expressão máxima de um caminho espiritual em que a alma se aproxima de seu fim por meio da afirmação da validade das imagens, começando pela imagem de uma jovem.
  • O objeto das páginas é o exame desse modo particular de aproximação, situado no interior de uma distinção clássica de dois caminhos principais no pensamento cristão, sem pretensão de exclusividade absoluta.
    • O primeiro caminho é descrito como via de rejeição, conhecida pelos registros de santidade e associada à renúncia de todas as imagens, exceto a imagem final de Deus, e por vezes também à exclusão dessa última imagem de todo sentido humano.
    • O mestre intelectual dessa via é identificado como Dionísio Areopagita, e a conclusão é apresentada como uma longa série de negações que recusa a Deus toda categoria acessível ao entendimento, por transcendência absoluta.
    • O segundo caminho é descrito como via de afirmação, definida como aproximação de Deus através das imagens, e sua máxima é extraída do credo atribuído a Atanásio, onde se afirma a elevação do humano a Deus em vez da conversão do divino em carne.
    • Essa máxima é apresentada como definição da encarnação e, por isso mesmo, como implicando muito mais do que seu enunciado imediato.
    • A plena expressão dessa via é atribuída à obra de Dante, como se a tradição tivesse aguardado sua formulação completa.
  • A exposição da via de afirmação é vinculada a uma ordem histórica de permissão, na qual primeiro se estabelece a diferença terrível entre Deus e mundo, e só depois se pode ver a semelhança terrível sem abolir a diferença.
    • A diferença precisa ser lembrada no interior da semelhança, sob pena de confusão.
    • Nenhuma das duas vias pode ser exclusiva, porque a vida humana obriga à atenção às imagens e também à relativização delas diante de Deus.
    • O asceta mais rigoroso deve lidar com as imagens mínimas de alimento, bebida e sono, ainda que brevemente.
    • O cristão mais indulgente deve manter suas imagens queridas como desprezíveis diante da imagem final de Deus.
    • Ambos devem considerar sua imagem particular de Deus menor que a imagem universal da Igreja, e esta ainda menor que a realidade sem imagem.
  • A vida terrena de Cristo é apresentada como uso simultâneo das duas vias, de modo que o exemplo fundador legitima a coexistência de afirmação e rejeição.
    • Os milagres de Caná e de cura são descritos como obras de afirmação das imagens.
    • O conselho de arrancar o olho é descrito como conselho de rejeição das imagens.
    • A vida de Cristo é narrada como rejeição para si, a ponto de não ter onde reclinar a cabeça, e como afirmação por conduta, a ponto de ser chamado glutão e bebedor de vinho.
    • O chamado aos discípulos reúne abandono e promessa, pois ordena abandonar tudo e promete em termos imagéticos uma restituição multiplicada.
    • A crucifixão e a morte são descritas como rejeição e afirmação ao mesmo tempo, porque afirmam a morte apenas para rejeitá-la, e a intensidade da morte é tomada como oportunidade de sua própria dissolução.
    • A ressurreição é apresentada como reafirmação da terra após a rejeição física da terra.
  • O princípio de analogia estabelece que, assim como em Cristo, também nos humanos a trama de afirmação e rejeição exige ser organizada em algum padrão, e essa organização é descrita como tarefa universal.
    • A necessidade de rejeição é apresentada como quase inevitável, em religião e talvez fora dela, pois as exigências da vida implicam mudança, infortúnio, insensatez, velhice e morte.
    • A disciplina da alma reforça essa necessidade, seja ordinária, seja extraordinária.
    • A preferência formal de certos bens sobre outros e o elogio da vida ascética são apresentados como imagens desse reforço.
    • Em contrapartida, doutrinas como ressurreição do corpo e vida eterna relembram continuamente a afirmação.
    • A afirmação é associada a atos de caridade e cortesia em relação ao outro e permissivamente em relação a si.
    • A equiparação de si com o outro é declarada como proclamação de uma república de imagens.
    • Mesmo quando compreendidas de modo elevado e voltado a Deus, as doutrinas permanecem exatas em si, e depois das afirmações podem ser descobertas rejeições, mas depois das rejeições devem retornar afirmações maiores.
  • A obra de Dante é apresentada como o maior registro europeu da via de afirmação das imagens, por traduzir fatos de existência em atualidades poéticas dotadas de constância.
    • As realidades da existência tornam-se atualidades de poesia e são reunidas sob um traço de constância que implica duração e consistência interna.
    • A maior parte da obra é poesia, e por isso se afirma que poesia não deve ser confundida com religião.
    • Não se pretende decidir se Dante viveu pessoalmente a via que imaginou, nem classificá-lo por termos que não são necessários ao objetivo.
    • O ponto é que a obra remete a uma experiência comum e a um caminho que poderia ser mais comum do que é, porque começa no comum e prossegue como possibilidade humana ampliável.
    • O traço decisivo é o gênio de imaginar inteiramente a via de afirmação, e essa via exige trabalhar em certas imagens e não em outras, porque a imaginação vocacional é sempre determinada por um conjunto específico.
  • O registro do caminho dantesco começa por três imagens que se entrelaçam desde o início e culminam em uma imagem complexa, concluindo na inGodding do humano.
    • As três imagens iniciais são descritas como experiência, ambiente da experiência e meio de compreender e exprimir a experiência.
    • Essas três imagens são formuladas como mulher, cidade e intelecto ou poesia, e novamente como Beatriz, Florença e Virgílio.
    • Elas nunca se separam inteiramente, e ao fim se misturam numa grande imagem composta.
    • O termo final do processo é apresentado como a divinização do humano.
  • A via dantesca não é apresentada como única, e uma aproximação inglesa é sugerida na obra de Wordsworth, ainda que sem alcançar a estatura comparável.
    • A afirmação wordsworthiana começa por imagens naturais, como fontes, prados, colinas e bosques.
    • Se houvesse a mesma estatura, haveria uma análise e registro comparáveis, mas se afirma que isso não ocorreu.
    • O poema é entendido como lembrança do caminho mais do que sua definição plena, e sua referência principal é a imaginação como faculdade que entende imagens reais ou poéticas.
    • As passagens citadas são mobilizadas para mostrar que a imaginação é descrita como poder e como insight, amplitude de mente e razão em modo exaltado, inseparável do amor espiritual.
  • As citações extensas de Wordsworth são justificadas por duas funções internas: descrever a dificuldade da via das imagens e revelar frases aplicáveis também ao caminho dantesco.
    • A via de afirmação não é tratada como necessariamente mais fácil que a via de rejeição.
    • A dureza da afirmação é exemplificada pela obrigação de afirmar a validade de uma imagem não desejada, o que se equipara em aspereza à rejeição de uma imagem desejada.
    • A formação dessa capacidade é descrita como trabalho pessoal, secreto e árduo, associado ao purgatório dantesco.
    • A voz de Beatriz é apresentada como auxílio no aperfeiçoamento de Dante tanto na Vita Nova quanto no Paraíso, de modo que o aperfeiçoamento é mediado por imagens e por disciplina.
    • A diferença entre Wordsworth e Dante não altera a aplicabilidade dos máximos, mas apenas a forma literária em que foram realizados.
  • A semelhança entre Dante e Wordsworth é localizada no gesto de começar por experiência pessoal definida e apaixonada, em contraste com outros grandes poetas.
    • O traço comum é a pulsação de descoberta pessoal, ausente, por exemplo, em modos distintos atribuídos a Shakespeare e Milton.
    • A diferença é descrita como crescimento gradual de capacidades humanas em um caso e consciência ritual de um momento de vitória de uma capacidade em outro.
    • Dante é apresentado como consciente desde o início de três tipos de capacidade subjugadas por um poder, e Wordsworth como portador de sentido semelhante, porém menos analisado.
    • Uma proximidade secundária é mencionada em Patmore, cuja entrada no caminho é dita mais delicada e retardada diante da revelação de um modo desconhecido de ser.
  • O modo desconhecido é identificado como natureza em Wordsworth e como amor romântico em Dante, e a escolha do termo romântico é defendida como necessária para descrever uma atitude de recepção da experiência.
    • O termo é adotado por conveniência descritiva do amor sexual, por incluir outros amores além do sexual e por permitir compreender algo do romantismo a partir do registro dantesco.
    • Romantismo é definido como atitude e maneira de receber experiência, não apenas como maneira literária.
    • A aplicação do termo ao jovem Dante é defendida por analogia com sua aplicação ao jovem Wordsworth.
    • Reconhece-se um romantismo falso, e afirma-se a intenção de sugerir que Dante o denunciou, sem permitir que o falso elimine o verdadeiro.
    • O uso barato do termo romântico é distinguido do valor intelectual que lhe pertence quando empregado com rigor.
  • O amor romântico é apresentado como experiência pessoal inicial da poesia de Dante e como objeto de exame quanto à sua natureza tal como revelada por Dante.
    • Não se julga necessário examinar o tema fora de Dante, porque a finalidade é estudá-lo no padrão da obra dantesca.
    • A controvérsia sobre seu caráter normal ou anormal é registrada como condicionando o valor geral do exame: quem o considera anormal tende a negar valor geral, quem o considera normal tende a admitir possível valor geral.
    • Não se afirma que Dante tenha reduzido sua atenção a Beatriz, e a inclusão de outras imagens é apresentada como condição de valor do foco em Beatriz.
    • Florença aparece como cidade e a imagem da cidade integra a afirmação dantesca, junto com imagens humanas e divinas.
    • A prosa e o verso são apresentados como meios das imagens poéticas e como atualidade da vida de Dante, de modo que literatura também é imagem.
    • Virgílio surge como a maior expressão literária dessa imagem dentro da própria obra.
    • A atenção a Beatriz torna-se valiosa precisamente porque é acompanhada pela atenção ao que não é Beatriz, o que impede sentimentalismo e egotismo disfarçado.
    • A moralidade atribuída a Dante consiste em perceber que imagens existem em seu próprio direito e não apenas como projeções.
  • A novidade do tratamento de Beatriz não reside na existência prévia da imagem da mulher, mas na intensidade e no extremo a que Dante leva esse tratamento, com reconciliação de imagens antes opostas.
    • Na Eneida, a imagem da mulher e a imagem da cidade são descritas como presentes, porém em oposição, porque Dido é inimiga de Roma e a moral leva o herói de Dido para Roma.
    • Em Dante, as imagens são reconciliadas, e a aparição de Virgílio no início da Commedia carrega também esse acento.
    • Virgílio não pode entrar no paraíso dessa união, porque seu poema a recusara, e essa limitação é integrada ao desenho dantesco.
    • Após Virgílio, o intelecto é dito ter tido visões comunicadas ao coração, sem fixar uma separação rígida entre ambos.
    • A reputação da visão foi prejudicada por seguimentos corruptos do caminho, mas a visão permanece, e o modo dantesco de enamoramento continua a ocorrer entre pessoas.
  • Duas correções são propostas em relação ao vínculo entre visão romântica e casamento, evitando dois erros opostos.
    • O primeiro erro é afirmar que a visão romântica é ou deve ser a única base do casamento, o que é declarado tão ridículo quanto negar que ela frequentemente o seja.
    • A existência do enamoramento é afirmada como frequente, mas não deve ser exigida nem negada, pois há múltiplas modulações entre visão, afeição e apetite, e nenhuma é necessariamente início impróprio do experimento chamado casamento.
    • O segundo erro é afirmar que a visão romântica implica necessariamente casamento, pois pode existir onde o casamento é impossível e nem sequer contemplado.
    • A adoração própria desse amor pode existir entre diferentes tipos de pessoas e é aproximada da forma de culto secundário permitida sob o nome de dulia, dirigida a santos, anjos e veículos da glória.
    • Onde houver essa adoração romântica, a investigação intelectual correspondente deve existir, pois o estado é considerado normal, ainda que seu desenvolvimento ao fim próprio ainda não seja normal.
    • Estados como culto a heróis e formas mais sentimentais são descritos como imagens mais vagas e menos convincentes dessa qualidade, frequentemente tolas, mas capazes de sinceridade que pode tornar-se fidelidade à imagem ou ao princípio no interior e além da imagem.
  • A morte ou desaparecimento de Beatriz é apresentada como não destrutiva para a tese do caminho, por duas razões que preservam a generalidade do modelo.
    • A morte corresponde a um estágio não incomum do desenvolvimento sensível no caminho, e será tratada adiante.
    • A morte ou desaparecimento não implica abandono da imagem, e a manutenção da imagem na Commedia exibe as definições gerais do caminho em aplicação ampla.
  • O conjunto do livro é organizado em três temas articulados, reunidos por uma máxima de atenção que se transforma de compulsão inicial em obediência escolhida.
    • O primeiro tema é a via geral de afirmação das imagens como método de processo em direção à divinização do humano.
    • O segundo tema é o amor romântico como modo particular desse mesmo progresso.
    • O terceiro tema é a involução desse amor com outras imagens, sobretudo a comunidade, isto é, a cidade, e a poesia e o saber humano.
    • A máxima geral é atenção, formulada como olhar e olhar bem, e a história desse olhar passa de choque inicial a disciplina por comando, culminando em obediência por escolha.
    • No início, a poesia e a cidade já são habituais e jovens para Dante e não o espantam, ao passo que Beatriz o espanta e inaugura a vida nova.
    • O fechamento reforça a analogia com Wordsworth ao afirmar a ação do olho corporal como agente que liga os sentimentos e fala lógica contínua à alma.
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