Qual é o discurso do Outro?
CASTORIADIS1975
Mas qual é esse discurso do Outro não mais quanto a sua origem mas quanto a sua qualidade? E até que ponto pode ser eliminado?
A característica essencial do discurso do Outro, do ponto de vista que aqui interessa, é sua relação com o imaginário. É que, dominado por esse discurso, o sujeito se toma por algo que não é (que, de qualquer maneira não é necessariamente para si próprio) e para ele os outros e o mundo inteiro sofrem uma deformação correspondente. O sujeito não se diz, mas é dito por alguém, existe pois como parte do mundo de um outro (certamente, por sua vez, travestido). O sujeito é dominado por um imaginário vivido como mais real que o real, ainda que não sabido como tal, precisamente porquê não sabido como tal Aí está evidentemente a principal diferença em relação a outras formas do imaginário (como a arte ou o uso “racional” do imaginário na matemática por exemplo) que não se autonomizaram como tais. Voltaremos a isto longamente mais adiante. (O termo “imaginário” aqui e nas duas páginas seguintes ainda é usado num sentido ambíguo, onerado por seu uso corrente.). O essencial da heteronomia — ou da alienação, no sentido mais amplo do termo — no nivel individual, é o domínio por um imaginário autonomizado que se arrojou a função de definir para o sujeito tanto a realidade quanto seu desejo. A “repressão das pulsões” como tal, o conflito entre o “princípio do prazer” e o “princípio da realidade”, não constituem a alienação individual que é, no fundo, o império quase ilimitado de um princípio de des-realidade. A esse respeito o conflito importante não é o que ocorre entre pulsões e realidade (se esse conflito bastasse como causa patogênica, jamais teria havido uma só resolução mesmo aproximativamente normal do complexo de Edipo desde a origem dos tempos e jamais um homem e uma mulher teria andado sobre a terra). É o conflito entre pulsões e realidade, de um lado, e a elaboração imaginária no interior do sujeito, de outro lado nisso Freud foi bem claro (cf. em particular mal-estar na civilização). Mas nesse nível, novamente, encontramos o fato de que as “exigências” da sociedade não se reduzem nem às exigências da “realidade”, nem às da “vida em sociedade” de um modo geral, nem mesmo finalmente às de uma “sociedade dividida em classes”, mas vão além do que essas exigências implicariam racionalmente. Encontramos aí o ponto de união entre o imaginário individual e o imaginário social — ao qual voltaremos mais adiante..
