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1 Metafísica

BRAGUE, Rémi. Les ancres dans le ciel: L'infrastructure métaphysique. Paris: Seuil, 2011.

A METAFÍSICA COMO SABER E COMO VIVÊNCIA

1. O adjetivo metafísico provém do substantivo metafísica, que por sua vez condensa numa só palavra a locução grega de três termos meta ta physika, e nenhum desses dois saltos, da locução ao substantivo e do substantivo ao adjetivo, é evidente, assim como não o é o sentido preciso da locução de partida.

§ 1. De um livro a um substantivo, depois a um adjetivo

1. A existência de uma disciplina, ciência ou domínio de investigação chamado metafísica não é evidente, pois ta meta ta physika é antes de tudo o título, ele mesmo muito problemático, de uma obra determinada, ou melhor, de um conjunto de tratados de Aristóteles.

2. O título não é do próprio Aristóteles e aparece pela primeira vez no século I num texto de Nicolau de Damasco conservado apenas em siríaco, e, se por muito tempo se admitiu que fosse obra de um bibliotecário por razões de classificação, isso parece hoje duvidoso, podendo o depois significar tanto a superioridade em dignidade da metafísica sobre a física quanto sua posterioridade na ordem do aprendizado, sentidos vertical e horizontal compatíveis, já que a metafísica trata de realidades que exigem elevar-se acima da vivência cotidiana por uma longa preparação numa ordem precisa.

3. Só com a tradução latina de Aristóteles feita por Tiago de Veneza no século XII a locução grega foi condensada, por ausência de artigo definido em latim, num único adjetivo, metaphysica.

§ 2. Uma disciplina filosófica

1. O nome da ciência formou-se a partir de um título de livro, e seu uso para designar uma disciplina está atestado em grego em Alexandre de Afrodísia, que acrescenta à física, à ética e à lógica a ciência após as físicas, entrando em árabe no século IX com al-Farabi, que dissipou sua confusão com a teologia ao dar-lhe por objeto próprio o ser enquanto ser e suas modalidades, e com Avicena, que a desenvolveu como disciplina amplamente articulada.

2. No início do século XIV, Duns Escoto, inspirado amplamente em Avicena e compreendendo-se antes como teólogo, propôs-se constituir a metafísica como disciplina fechada, menos para tratá-la tematicamente do que para dar-lhe um objeto, o ser enquanto ser, que a distinguisse nitidamente da teologia, cujo objeto é Deus.

3. No século XVI, o jesuíta Francisco Suárez apresentou os grandes problemas da ciência metafísica num volumoso manual, as Disputationes metaphysicae, cuja influência foi considerável, inclusive, paradoxalmente, nas universidades da Alemanha protestante.

4. A metafísica da idade clássica manifesta-se nas Meditationes de prima philosophia de Descartes, cujo título retoma a terminologia aristotélica de filosofia primeira, mas que se tornou na tradução francesa Meditações metafísicas, e o nome da disciplina aparece depois no Discurso de metafísica de Leibniz, fixando-se desde então na terminologia ocidental.

§ 3. Uma dimensão do humano

1. O vínculo entre a metafísica como disciplina e a humanidade do homem, embora evidente, raramente é tematizado por não precisar sê-lo, pois é óbvio que é o homem e não o cavalo quem estuda metafísica, o que vale para toda a filosofia e para tudo o que supõe a posse da linguagem, como ciências, arte, direito e religião.

2. Um vínculo mais direto e específico entre a humanidade do homem e a metafísica só aparece mais tarde, como em Kant, que menciona a disposição natural do homem à metafísica e a necessidade de responder a certas questões oriundas da natureza da razão humana universal.

3. Schopenhauer chama o homem de animal metafísico, retomando e explicitando a definição tradicional do animal racional, pois a posse do logos é nada menos que a capacidade de fazer metafísica, e, ao falar da necessidade metafísica do homem, sugere que ela é uma aspiração tão elementar quanto comer e beber, fundada na capacidade humana de espantar-se, reforçada pela consciência da morte, que os animais não possuem.

4. O espanto tem raízes antigas conhecidas em Platão e Aristóteles, que fazia do thaumazein uma característica do filósofo, ao passo que a consciência da finitude e da morte pouco foi tomada na Antiguidade como fonte do questionamento filosófico, sendo a morte antes a metáfora da atividade filosófica, como no Fédon e na definição tradicional da filosofia como exercício da morte.

5. Bergson, em sua Introdução à metafísica, marca uma etapa na tendência de longa duração de situar a metafísica do lado do sujeito, definindo-a como posse absoluta de uma realidade por uma intuição que se coloca em seu interior, possível apenas no conhecimento de nós mesmos, conhecimento interior e absoluto da duração do eu pelo próprio eu, empirismo verdadeiro que seria a verdadeira metafísica, a experiência integral.

6. O movimento existencialista orquestrou poderosamente o aspecto experiencial da metafísica, como no Diário metafísico de Gabriel Marcel e em A náusea de Sartre, que, preparando O ser e o nada, apresentou numa espécie de relato autobiográfico intuições sobre a natureza do mundo e sua contingência irredutível.

7. Esse estado de espírito estava no ar do tempo mesmo entre não filósofos, como o poeta Antonin Artaud, para quem, no estado de degenerescência atual, é pela pele que se fará a metafísica reentrar nos espíritos, fórmula que, tomada com rigor, indica a reintrodução de algo expulso, sendo o corpo o desvio inesperado e eficaz para fazer novamente justiça ao que o espírito havia traído.

8. O próprio adjetivo metafísico mudou de colorido, pois na idade clássica podia significar leve, pouco importante e distante da vida, como o doute hiperbólico de Descartes inaplicável à vida prática, e para as Luzes radicais bastava para desqualificar o adversário, como no galimatias metafísico-teológico de Diderot, ao passo que no século XX ganhou uma nuance de gravidade e angústia, a ponto de Heidegger identificar a angústia como tonalidade afetiva fundamental da metafísica.

§ 4. Uma ausência a compensar

1. Essa recolocação da metafísica no concreto talvez compense uma ausência, pois vários pensadores do século XIX, de Leopardi a Nietzsche, sentiram que as realidades transcendentes haviam perdido sua evidência, sentimento que se encontra também em Auguste Comte, que fala da fragilidade crescente dos fundamentos metafísicos, e em Flaubert, para quem falta a base teológica, concebendo o metafísico e o teológico não como coroamento nebuloso, mas como alicerce concreto, infraestrutura antes que superestrutura.

2. A impressão de perda do teológico é radicalizada pelo tema da morte de Deus, que aparece cedo, por exemplo no jovem Hegel, numa frase que pode ser apenas citação de um coral de Lutero, mas que Nietzsche soube encenar suntuosamente no célebre aforismo tradicionalmente intitulado O insensato.

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