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Metamorfoses do olhar

Adauto Novaes, Artepensamento 1988

1. Uma das peculiaridades mais notáveis da língua grega, e uma das raízes do próprio surto da filosofia, reside na vinculação entre o verbo ver e o ato de conhecer, inserida num processo de educação do olhar que faz da visão algo não apenas fisiológico ou psicológico, mas histórico, com uma história que acompanha os marcos decisivos da cultura ocidental.

2. A língua grega, pródiga em modalidades do verbo ver, das quais Bruno Snell enumera nove apenas em Homero, ligava cada uma a formas particulares de conhecer presas a situações objetivas, até que, com o teatro e a filosofia, verbos como blepein e theorein concentram a ação de ver em si mesma, fazendo da teoria um ver que sabe ver e inventa meios de ver melhor, educação do olhar da qual nascem a filosofia, as ciências do Ocidente e até a medicina da escola de Cós, que substituiu o feiticeiro pelo diagnóstico atento.

3. De Homero a Platão desenha-se uma história decisiva do ato de ver ligada ao conhecimento, mas com Platão e Aristóteles, como mostram o mito da caverna e a descrição da vida teorética na Ética a Nicômaco, o olhar passa a ser orientado metafisicamente, arrancado de seu estatuto natural e voltado para o alto, em busca de sua medida na contemplação das coisas divinas.

4. O mito da caverna preconiza uma transubstanciação do olhar voltada à divinização do homem, exigindo do prisioneiro das trevas uma dolorosa e violenta reeducação, expressa no anablepein, o ver para o alto, que substitui a práxis mundana por uma práxis contemplativa e institui a orthotes, o ver corretamente, origem da verdade como adequação, pela qual a natureza deixa de manifestar-se a partir de si mesma.

5. Com o platonismo a verdade passa a depender do cultivo ordenado da visão, inventando-se a lógica e abrindo-se caminho para a vinculação do olhar à interioridade, que, prenunciada na lírica arcaica, em Heráclito e em Plotino, só se realiza com o cristianismo e com o apelo agostiniano a entrar em si mesmo, lição que, após cerca de mil anos e mais pela mística que pela teologia, atinge sua expressão mais pura no século XIV com mestre Eckehart, para quem o olho humano e o olho de Deus são um só, e com a Imitação de Cristo, que dispensa toda intermediação.

6. Delineia-se aqui um processo dialético em que o ver grego, embora transmute o físico em metafísico, permanece conduzido pelo exterior, enquanto a Idade Média traslada o predomínio para a interioridade, cabendo à física moderna e à filosofia cartesiana iniciar a síntese.

7. A síntese moderna realiza-se na passagem da coisa ao objeto construído, síntese entre atividade subjetiva e realidade exterior que visa não apenas conhecer, mas manipular o real, e que inventa o engenheiro, homem híbrido e bicéfalo que une teoria científica e prática artesanal, fórmula cujo sucesso domina os horizontes de nosso tempo.

8. O êxito do olhar engenheiro não significa apaziguamento final, pois a filosofia contemporânea retoma toda a questão do olhar a partir da crítica hegeliana da verdade como adequação e da convulsão dos valores metafísicos, convertendo a síntese dialética num leque polissêmico de contraposições pelas quais o olhar busca libertar-se dos entraves metafísicos e alcançar seu estatuto mundano.

9. O diálogo entre Sartre e Merleau-Ponty revela-se extremamente significativo nesse contexto por envolver precisamente a problemática da metafísica e de sua superação.

10. O Sartre existencialista radicaliza a dicotomia cartesiana entre sujeito e objeto, identificando o ser ao objeto e a consciência ao nada, de modo que a única relação possível, e absurda, é a de sujeito e objeto, fazendo do olhar uma relação de conflito e dominação que transforma o outro em objeto e estendendo à intimidade intersubjetiva a manipulação técnica, no ápice dos caminhos metafísicos e na desautorização da síntese dialética clássica.

11. A intuição central de Merleau-Ponty consiste na crítica ao caráter excludente da dicotomia sujeito-objeto, mostrando, na esteira de uma tradição oriunda da crise da metafísica que remonta à práxis do trabalho em Marx, que ela não é o referencial último da experiência humana nem da intersubjetividade, e que sua aceitação passiva torna o existencialismo caudatário da metafísica, em contraposição a uma ontologia da encarnação enraizada no corpo próprio, no corpo dos outros e no corpo cultural.

12. Ao ler a prosa do mundo e pensar o ser selvagem como avesso da metafísica, Merleau-Ponty propõe a reeducação dos sentidos, sobretudo da visão encarnada, afastando-se do privilégio cartesiano do pensamento e da violência platônica do olhar para o alto, fundamento do humanismo tradicional, de modo que a visão encontra seu endereço natural no homem debruçado sobre o mundo e a história, e o ser se faz olhar.

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