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1 Problema

BORNHEIM, Gerd A. Introdução Ao Filosofar: O Pensamento Filosófico Em Bases Existenciais. Porto Alegre: Editora Globo, 1996.

I. Posição do Problema

1. O comportamento originante do filosofar e a problemática que ele coloca constituem questão de primeira importância, pois a coloração fundamental de uma filosofia já se determina, em certo sentido, pela atitude inicial assumida por todo filósofo em seu ponto de partida.

2. A atitude inicial que determina o caráter último de uma filosofia não se confunde com o primeiro princípio filosófico, afirmação lógica, ontológica ou gnosiológica a partir da qual se sistematiza um pensamento, pois esse princípio emerge de uma problemática antecedente e condicionante que coincide com certas exigências existenciais de todo filosofar.

3. O cogito, ponto de partida metafísico com primazia absoluta na ordem dedutiva cartesiana, radica num itinerário prévio parcialmente conhecido, marcado pelo descontentamento com a ciência da época, pelas viagens ao grande livro do mundo e pela resolução de estudar em si mesmo, isto é, por um profundo sentimento de insatisfação que se traduz nas etapas da dúvida metódica.

4. O problema em causa não é o do cogito ou de qualquer princípio análogo, nem o de sua legitimidade, mas o da atitude inicial do filosofar, o comportamento específico que leva o homem a ocupar-se de filosofia e até a sentir-se condenado a essa tarefa, como Sócrates.

5. Entre a vivência da insatisfação e a resolução de estudar estende-se um caminho coincidente com a biografia do filósofo, o que suscita a dificuldade de que, sendo cada biografia estritamente individual, o problema parece reduzir-se à história da vida dos filósofos ilustres, fragmentado em capítulos exemplares de uma História da Filosofia sempre inacabada.

6. Quem se resolve ou se sente condenado a filosofar assume, contudo, um compromisso que coincide com o que há de arbitrário e irredutível numa existência individual e ao mesmo tempo o transcende, pois o caminho do filósofo é um compromisso inelutável com a natureza da filosofia e com o sentido do real e de sua verdade, de cuja fidelidade dependem a autenticidade de uma filosofia e de uma vida filosófica.

7. O objeto específico da investigação é o estudo da consciência filosófica desde sua etapa ingênua e pré-filosófica até o despertar para o problema do sentido da realidade, acompanhando as etapas básicas e necessárias de seu desenvolvimento.

8. A história da filosofia oferece rico material para esse estudo, e nada parece mais correto do que interrogar os próprios filósofos sobre a atitude inicial do filosofar, mas esse otimismo inicial logo se frustra.

9. Poucos filósofos trataram do tema ou revelaram sua biografia espiritual, pois a obra filosófica costuma apresentar-se pronta em suas conclusões, deixando de lado a pré-história do sistema, ou aborda o problema em poucas linhas como já resolvido, ou o deixa entrever apenas em páginas secundárias, ensaios de juventude ou correspondência.

10. Os pensadores de tipo existencial, cuja obra se aproxima de um diário íntimo, e a atmosfera geral de certas filosofias, que permite distinguir, por exemplo, a postura de Schopenhauer da de Nietzsche diante do real, apenas advertem da importância e da dificuldade do problema, e o maior perigo que surge da investigação histórica é dissolvê-lo em alguma forma de relativismo nas brumas da história.

11. Falsifica-se o problema ao dissolvê-lo na diversidade das concepções de mundo, entendendo a filosofia como espelho da unidade cultural de uma época, pois essa filosofia das concepções de mundo só relativiza a problemática filosófica em nome de uma filosofia que, como qualquer outra, deve justificar sua validade e não escapa ao problema da atitude inicial do filosofar.

12. A legitimidade da filosofia não pode fundar-se numa pesquisa estritamente histórica, já que a questão de fato é insuficiente e deve ser transcendida, de modo que ou o historicismo está certo e o problema se reduz a uma culturologia ou morfologia filosófico-cultural sempre fragmentária, ou se deve reconhecer seu erro e julgá-lo como qualquer outra filosofia.

13. Para manter de pé o problema, é preciso dar razão a Husserl ao distinguir filosofia e concepção de mundo, pois a história, ciência empírica do espírito, não pode decidir com seus próprios meios entre a filosofia no sentido histórico e a filosofia válida, embora o rigorismo cientificista dessa distinção não possa ser aceito integralmente e o próprio Husserl reconheça o imenso valor da história para o filósofo.

14. O mérito fundamental do historicismo, além da riqueza de material que oferece, está em ter recolocado o problema da natureza da filosofia e, com ele, o da atitude inicial do filosofar, cuja motivação, embora mergulhada em condições socioculturais, se determina sobretudo pelo telos que lhe é próprio, a busca da verdade.

15. A recusa da tese historicista não visa, como em Husserl, a validade da filosofia, mas liberta para acentuar a densidade existencial que acompanha necessariamente o filosofar, inseparável da profunda historicidade do homem, diante da qual o próprio historicismo se revela insuficiente.

16. A análise do surgimento histórico do pensamento filosófico padece de uma objetividade alienadora que confunde o comportamento filosófico com o do historiador da filosofia, e, embora imprescindível para alcançar o condicionamento de certa etapa da filosofia, mostra-se radicalmente insuficiente, porque explicar o fato do nascimento da filosofia num momento da cultura ocidental não coincide com o problema da atitude inicial do filosofar.

17. Por mais ricas que sejam as causas históricas encontradas para a gênese do pensamento filosófico, sempre resta um resíduo irredutível à explicação causal, que obriga a aludir a um milagre grego.

18. A investigação histórica dispõe de dois caminhos básicos diante dessa questão.

19. O inventário das influências egípcias, babilônicas, fenícias, persas e outras na formação do mundo grego, na medida em que é bem-sucedido, dissolve a originalidade grega em elementos pré-gregos e deixa inexplicada a especificidade de uma cultura diferente das demais de sua época.

20. A explicação interna, a partir da própria Grécia e por múltiplos pontos de vista filológicos, literários, religiosos, artísticos, econômicos e políticos, enriquece a análise sem eliminar o resíduo inexplicado, pois a ciência do individual e do histórico não tem fundo e nenhuma ciência, intuição ou amor permite compreender absolutamente outro indivíduo, como atesta Heráclito ao dizer que não se encontram os limites da alma, tão profundo é seu Logos.

21. O que a história não pode fornecer pode-o uma análise antropológico-existencial radicada no comportamento do ser que faz a filosofia e por ela responde, a qual, pagando o preço de todo conhecimento científico de permanecer no plano do geral, permite revelar a extensão universal da atitude originante do filosofar e vinculá-la a todos os que nela penetram, gregos ou não, respeitadas as peculiaridades individuais e as circunstâncias históricas.

22. Alguns exemplos da História da Filosofia permitem perceber mais concretamente a complexidade do problema da atitude inicial do comportamento filosófico.

23. O passado da filosofia revela atitudes básicas que predominam diversamente em cada filósofo, das quais Karl Jaspers destaca três, talvez não as únicas, mas frequentes, ressalvadas diferenças por vezes fundamentais.

24. A primeira atitude, vinda da Grécia clássica com Platão e Aristóteles, vê na admiração o impulso inicial do filosofar, no qual o homem toma consciência de sua ignorância e a interroga até suprimi-la no conhecimento.

25. A segunda atitude, representada classicamente por Descartes, encontra-se na dúvida, que atinge a verdade pela supressão provisória de todo conhecimento ou de certas modalidades consideradas meramente opinativas, com a mesma raiz da distinção grega entre doxa e episteme, e cuja eficácia está em aguçar o espírito crítico.

26. A terceira atitude nasce da insatisfação moral, quando o homem cotidiano, absorvido no mundo, cai em si, pergunta pelo sentido de sua existência e toma consciência de sua miséria, como em Epicteto, para quem o princípio da filosofia é a consciência da própria fraqueza e impotência nas coisas necessárias.

27. As três atitudes encerram muito de verdade e se encontram em todo filósofo em maior ou menor grau, pois a admiração é a abertura mais espontânea e original do homem diante do real, a dúvida desenvolve o indispensável espírito crítico e a inquietação moral fundamenta os aspectos éticos do filosofar.

28. A síntese equilibrada das três atitudes, primeira e tentadora solução diante da pluralidade de comportamentos, dificilmente se verifica, porque cada atitude, ao predominar, reclama certa exclusividade e repele as demais, de modo que a síntese seria antes fruto da reflexão, um dever-ser abstrato, ou mera descrição de múltiplas experiências constitutivas do filosofar.

29. Essa diversidade não pode ser descartada, mas constitui o material a explicitar, pois o impulso inicial do filosofar é um todo complexo cujos aspectos fundamentais devem corresponder às características básicas da natureza da filosofia.

30. A possibilidade de falar no predomínio de uma atitude decorre de uma diferenciação valorativa que constitui o cerne do problema, exigindo saber qual delas é mais fundamental em função da natureza da filosofia e como compreender essa fundamentalidade na diversidade, e a tese sustentada é que o elemento originante e precípuo do filosofar, apesar da complexidade do fenômeno, reside na atitude admirativa.

31. Tomadas em si mesmas, as três atitudes são insuficientes e parciais, e a dúvida cartesiana, em particular, supõe um estágio avançado da filosofia, uma saturação de conhecimentos e uma pluralidade de filosofias contraditórias, mostrando-se sempre secundária, dependente de fundamentação anterior e facilmente ligada ao excesso de espírito crítico.

32. A insatisfação moral padece da mesma secundariedade, agravada pelo risco de, ao aguçar o espírito para o problema do homem, restringir a ele a filosofia e sacrificar seu sentido de totalidade num moralismo, ao passo que a admiração, embora também insuficiente para explicar a complexidade do impulso inicial, atende à exigência precípua de abertura e primeiro despertar diante da realidade a ser pensada.

33. Embora a dúvida e a insatisfação moral não estejam isentas de parcialidade e de certo desvio em relação às exigências da filosofia, não podem ser excluídas do todo do comportamento filosófico, o que desaconselha decidir sem mais pela prioridade da admiração.

34. As indicações de Aristóteles, um dos primeiros a ver na admiração a fonte do filosofar, revelam a complexidade do problema, pois o início da Metafísica refere-se a diversos aspectos da origem da filosofia sem preocupação de unificá-los organicamente, como se o tema não tivesse maiores dimensões.

35. A primeira indicação liga todo conhecimento, e portanto a filosofia, ao desejo natural de saber, confirmado pelo prazer das sensações, sobretudo visuais, em consonância com a íntima ligação grega entre ver e conhecer atestada pela etimologia.

36. A segunda indicação exclui do filosofar todo comportamento prático, utilitário e interesseiro, pois as sensações agradam por si mesmas e os inventores das artes não utilitárias foram tidos por mais sábios, tendo as ciências nascido onde reinava o ócio, que Aristóteles define apenas negativamente como o não-prático, revelando sua preocupação constante em afastar da atitude filosófica qualquer dimensão utilitarista.

37. A terceira indicação encarece a admiração como elemento fundamental da gênese do filosofar, que levou os primeiros homens das dificuldades imediatas aos fenômenos celestes e à gênese do Universo, pois perceber uma dificuldade e admirar-se é reconhecer a própria ignorância, razão pela qual o amante dos mitos é, em certo sentido, amante da sabedoria.

38. A quarta indicação liga a admiração à consciência da ignorância nascida da percepção de uma dificuldade intelectual, o que a torna condicionada e destituída de ingenuidade, sem que Aristóteles analise sua natureza, parecendo seguir uma longa tradição enraizada no amor ao mito, relação entre mitologia e filosofia já sugerida por Platão ao fazer da admiração a marca do filósofo e de Íris a filha de Thaumas.

39. Ao lado da relativa facilidade de unir desejo de saber, desinteresse, ignorância, admiração e mito, os Problemas do corpus aristotélico trazem uma indicação inquietante, alheia à serenidade clássica da Metafísica, ao perguntar por que a melancolia pertence ao ser do filósofo, incluindo entre os melancólicos poetas, artistas, guardiães da comunidade e sobretudo filósofos como Empédocles, Platão e Sócrates, distinguindo a melancolia natural da doentia e compreendendo a vida filosófica a partir desse ethos.

40. O problema em Aristóteles está longe de ser simples e talvez seja insolúvel, pois não se diz como relacionar a admiração com a melancolia, que torna o homem solitário mas aberto à compreensão do real e adquire dimensão filosófica pelo esforço, voltada para o interior, enquanto a admiração é predominantemente passiva, receptiva e voltada para o exterior.

41. Impõe-se saber se esses aspectos são conciliáveis ou correspondem a posições distintas assumidas em etapas diversas da vida de Aristóteles, como a melancolia, que desliga o homem do mundo, pode levá-lo à tarefa filosófica, enquanto a admiração se caracteriza pela abertura ao mundo, qual das duas atitudes é mais fundamental e corresponde melhor à índole da filosofia, ou se ambas são momentos integrantes do filosofar e de que modo se integram.

42. Explicitado o problema e sua complexidade, a análise deve começar pela admiração em sua modalidade mais simples, a ingênua, acompanhando não a classificação manualesca entre admiração passiva e ativa, mas seu processo interno e seus elementos constitutivos, para verificar se essa experiência responde à atitude inicial do filosofar, se deve ceder lugar à dúvida ou à melancolia ou se estas se integram no processo total da consciência filosófica diante do real.

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