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bornheim:1980:1.3

1.3 Biografia

BORNHEIM, Gerd. O Idiota e o Espírito Objetivo: Ensaio sobre o Teatro de Nelson Rodrigues. Porto Alegre: Editoras Globo, 1980.

O Idiota e o Espírito Objetivo

3. A Obsessão Biográfica

1. O fascínio constante de Sartre pela biografia, sobretudo a do artista, evidente nos estudos sobre Baudelaire, Genet, Mallarmé, Tintoretto e Flaubert, faz de O Imaginário, O Ser e o Nada e a Crítica da Razão Dialética momentos de instauração de uma metodologia progressivamente alargada pelo social, cujo telos se realiza no estudo biográfico, de modo que O Idiota da Família constitui a súmula final e a condensação definitiva de toda a doutrina sartriana.

2. Analisar a vida de um homem significa conhecer sempre o mesmo homem que é sempre outro que não ele mesmo, pois, não havendo natureza humana nem essência definível, o ser-no-mundo só se delimita a partir de suas raízes e do compromisso com uma situação determinada, fazendo-se na medida em que é feito, como mescla instável de passividade e atividade que deve reinventar-se e desalienar-se continuamente.

3. A biografia, como destino do homem, permanece imbricada com a autobiografia, porque escrever sobre o outro é escrever-se, de modo que a relação dialética com o biografado se desdobra numa segunda relação com o intérprete e se torna crítica e necessária, sem incongruência com a ação política, já que revela toda uma época que constitui nossa raiz mais próxima, ainda que o mal-estar tardio de Sartre com essa pesquisa pura se explique pela reformulação do estatuto do intelectual e pela descrença na função social da literatura.

4. Inserida na evolução maior da própria ideia de biografia, a análise sartriana dispensa qualquer a priori mistificador, como o Deus de Santo Agostinho, a Natureza de Rousseau ou o culto do grande homem, mas não questiona o a priori da própria biografia, que apenas realiza e leva às consequências mais extremas.

5. Das vidas hagiográficas de Vasari, que idealizavam o gênio numa moldura estática de admiração, até Sartre percorre-se um itinerário fiel ao caminho da burguesia, cujo surto biográfico renascentista acompanha a ascensão de uma classe que, ao se proclamar centro do mundo e classe universal, carrega a sombra de uma desconfiança quanto ao seu caráter intermediário, provisório e carente de estilo maior.

6. A burguesia representa, de um lado, a instalação definitiva do homem na Terra sob o signo do conforto, para o qual convergem ciência, técnica, economia, arte e política, e, de outro, a descoberta surda de sua própria inferioridade, que a obriga a ter para ser e a compensar um complexo de menos-valia na proclamação do eu, na moldura do retrato e na imitação da aristocracia.

7. Sendo a biografia um fenômeno moderno e burguês fundado no individualismo historicamente desenvolvido, o radical individualismo do primeiro existencialismo já predispunha Sartre à exploração do fato biográfico, obsessão que encontra sua inteligibilidade nesse processo histórico e que, ao levar coerentemente ao extremo as contradições do século, acaba por converter-se em seu oposto, a conversão ao social.

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