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bornheim:1974:2.3

2.3 Karl Valentin

BORNHEIM, Gerd. Brecht: A Estética do Teatro. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1974.

O jovem Brecht (1918-1933)

1. O elogio de Brecht no programa do espetáculo coloca Valentin ao nível de Charles Chaplin e lamenta que não se o reconheça por se emprestar demasiado peso ao fato de ele ser alemão, situação que parece perdurar entre os próprios alemães, dada a ausência de uma edição completa de sua vasta obra.

2. Brecht fez apenas escassas referências à pessoa e aos desempenhos do popular cômico, mas o suficiente para entrever a importância do artista bávaro, a ponto de afirmar que com Valentin se pode aprender como se constrói um drama e que Christbambrettl é um produto dramatúrgico de nível.

3. A introdução prática de Brecht nas lides teatrais fez-se na condição de ator em espetáculos de variedades, incentivo inicial que cabe a Wedekind, mas que com Karl Valentin se torna um dado concreto, levando Brecht a elaborar uma ideia por meio da qual começa a reformular as próprias condições do trabalho de ator.

4. Enquanto dramaturgo, Brecht adota na época uma atitude experimentalista, com o mundo das formas aberto e sem caminho definitivo, e é na questão do ator que suas preocupações assumem outro contorno, indicando que é nesse particular que começa a elaborar a sua concepção do teatro épico.

5. O primeiro indício incisivo é o breve texto sobre Valentin que integra o programa de Tambores na noite, em que o apresenta não apenas como contador de anedotas, mas como a personificação da anedota e, sobretudo, como ator.

6. Na conferência de Estocolmo de 1939, cujo tema é o teatro experimental, Valentin desempenha o papel de ponto de partida dentro da evolução do que viria a ser o teatro épico, e no ensaio Der Messingkauf Brecht põe as coisas no devido lugar ao afirmar que de quem mais aprendeu foi do clown Valentin.

7. O mundo dos espetáculos de Valentin é habitado por pequeno-burgueses, artesãos, músicos profissionais, pequenos empregados e fotógrafos que odeiam o empresário, num horizonte imediato da vizinhança em que a concretude do imediato não reduz tudo a uma epiderme inconsequente, restando a sensação de um certo desenraizamento.

8. A história do homem-orquestra, que amplia sempre a orquestra por premência econômica até quebrar tudo com um martelo, é significativa do estilo do artista, pois a orquestra se transforma no próprio símbolo da destruição do homem pela máquina.

9. Valentin pertence à rica tradição dos cantores populares bávaros, e a mistura do dialeto com o alemão culto tira do espetáculo o gosto excessivamente local e possibilita seu acesso a um público mais amplo, desenvolvendo um certo desenraizamento que instala no espectador uma boa dose de espírito crítico.

10. Impressiona Brecht a comicidade seca e interior que renunciava quase totalmente ao recurso à mímica e ao psicologismo barato, num espetáculo em que o público bebia e fumava ao mesmo tempo que era sacudido por um riso interior não especialmente de boa índole, combinando a inércia da matéria e os mais finos prazeres.

11. A arte de Valentin se move entre o ser e o nada, sem aderir simplesmente à ordem do real nem incidir no vazio insosso, e sua linguagem não chega à dissolução encontradiça no teatro do absurdo.

12. O canto de Valentin fazia-se destituído de lances melodiosos, explorando uma certa secura alheia a qualquer entusiasmo, inclinando-se a endossar a voz falada e a comentar, a criticar o conteúdo da canção cantada.

13. O tom da voz conjugava-se com a utilização do corpo, que adquire um peso e uma economia expressiva coincidente com um certo jogo inibitório próprio do cômico, sendo essa frieza, quase apatia, justamente o elemento que desencadeia a comicidade.

14. Brecht sentia simpatia por esse comportamento distanciado do artista e de seus músicos, gente que trabalha por dinheiro e cuida em receber os seus salários com o mínimo de esforço possível.

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