berdiaeff:berdiaeff-cristianismo-e-atividade-i
This is an old revision of the document!
Cristianismo e Atividade I
Refutação da Crítica Marxista
- Crítica soviética antirreligiosa ao cristianismo: acusação de passividade e resignação.
- Argumento central apresentado como verossímil: a religião cristã rejeita a atividade humana, prega submissão, resignação ante a injustiça e justifica a opressão.
- Ilustração simplista: oposição entre oração (passividade) e técnica (atividade), exemplificada pela contraposição “trator versus oração”.
- Reconhecimento parcial: interpretações teológicas (ortodoxas, católicas, protestantes) frequentemente humilharam o homem, negando sua capacidade criadora e santificando a conservação social, com abuso da doutrina do pecado original.
- Resposta teológica: a verdadeira essência do cristianismo afirma a dignidade e vocação ativa do homem.
- Coexistência de princípio divino e princípio humano na vida religiosa: a revelação é recebida e muitas vezes deformada pela limitação e interesses humanos.
- A humilhação do homem é uma deformação humana do cristianismo, não sua doutrina genuína.
- Essência do Evangelio: “Buscai primeiro o Reino de Deus” (Mateus 6:33).
- Busca ativa, que exige força (Mateus 11:12), realização de uma vida perfeita e plena de justiça.
- O pecado se vence pela busca ativa do Reino, não pela resignação.
- O cristão é um “eterno revolucionário”, insatisfeito com qualquer regime, que busca a transformação radical do homem, da sociedade e do mundo.
- Diferença em relação aos revolucionários “exteriores”: rejeição do ódio e da violência como meios, exigência de harmonia entre meios e fins.
- Rejeição da passividade e da expectativa milagrosa passiva.
- Condenação da passividade como tentação. Vladimir Soloviev: “É ímpio esperar de Deus o que o homem pode realizar por si mesmo”.
- A técnica, a ciência e a civilização são instrumentos desejados por Deus para uma vida mais perfeita.
- A transformação espiritual interior, contudo, não pode ser alcançada apenas por ciência ou técnica; requer atitude espiritual do homem para com Deus.
- Evidência histórica: o cristianismo como força dinâmica e criadora.
- Os períodos e povos de maior atividade histórica coincidem com a influência cristã (povos ocidentais).
- Civilizações não cristãs (China, Índia, Pérsia antigas) tendem ao anquilosamento e à vida do passado.
- Explicação: o caráter mesiânico e escatológico do cristianismo, que orienta o olhar para o futuro.
- Conceito de história como processo dinâmico com sentido e direção surge com o cristianismo.
- A antiguidade pagã (grega) tinha visão cíclica e contemplativa, não dinâmica e orientada para o futuro.
- Dignificação do trabalho e da atividade criadora no cristianismo.
- Santificação do trabalho, em contraste com o desprezo greco-romano (associado ao escravo).
- Cristo como trabalhador; palavras de Cristo e de Paulo que dignificam o trabalhador e o trabalho.
- Parábolas dos talentos e da vinha (Mateus 25:15-20; 21:28-31; Lucas 13:6-9) enfatizam a responsabilidade ativa, a multiplicação dos dons e a produtividade.
- O homem é chamado a ser co-criador, a cultivar a terra e devolver multiplicado o que recebeu.
- Fundamentos antropológicos: o homem como imagem de Deus (imago Dei) e ser espiritual ativo.
- O espírito é ativo por definição; o ser espiritual aspira à infinitude, perfeição e plenitude da vida, o que implica movimento e dinâmica.
- O cristianismo libertou o homem do panteísmo demoníaco e do temor das forças caóticas da natureza.
- Submissão do destino a Deus (princípio interno), não a demônios (forças externas).
- Essa libertação espiritual foi condição de possibilidade para o desenvolvimento científico e técnico moderno, ao desencantar a natureza.
- Síntese final: a verdadeira atividade humana se funda na transcendência.
- Só vence e transforma o mundo quem se eleva acima dele, possuindo uma fonte interior de energia (o espírito).
- O mundo visível é parte de um mundo invisível, do qual o homem extrai força criadora e transfiguradora.
- Esta é a profundidade do ensinamento cristão, ignorada por uma crítica que permanece na superfície.
berdiaeff/berdiaeff-cristianismo-e-atividade-i.1768004226.txt.gz · Last modified: by mccastro
