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Bacon

Francis Bacon (1561-1626)

A filosofia de Francis Bacon representa uma das grandes rupturas com a escolástica — após Thomas More e Montaigne, que admira, e antes de Descartes, que o lerá e retomará várias de suas ideias, Bacon busca libertar o conhecimento humano da autoridade concedida a Aristóteles pelas universidades.

  • “O saber derivado de Aristóteles, se subtraído ao livre exame, não subirá mais alto do que o saber que Aristóteles tinha.”
  • Reprocha aos homens da Escola de se terem encerrado em celas de mosteiros e no estudo de pouquíssimos autores — num saber livresco — em vez de explorar e estudar a natureza.
  • Nascido em Londres numa família que já havia fornecido à Coroa inglesa alguns grandes servidores, foi aluno do Trinity College (Cambridge) e estudou direito em Gray's Inn; permaneceu na França de 1576 a 1578 junto ao embaixador da rainha Elizabeth em Paris.
  • Combinando carreira política e vida de filósofo, membro do Parlamento a partir de 1584, publicou em 1597 um primeiro pequeno volume contendo “Ensaios morais e políticos”; tornou-se guarda dos Selos em 1617 e lord Chanceler em 1618, antes de publicar em 1620 o Novum Organum.
  • Uma acusação de corrupção em contexto político difícil pôs em 1621 um término brutal à sua carreira pública — consagrou os cinco últimos anos a compor diversos trabalhos, entre eles uma História do reinado de Henrique VII, A Nova Atlântida e uma Sylva Sylvarum.
  • Morreu em abril de 1626 ao contrair bronquite durante uma experiência destinada a estabelecer se o frio retarda o processo de putrefação — ditando em seu leito de morte: “a experiência em si foi excelentemente bem-sucedida.”

Bacon se afasta ao mesmo tempo do ceticismo — que podia ser uma maneira de rejeitar Aristóteles — e rompe com o entusiasmo renascentista pela imitação da retórica ciceroniana.

  • A filosofia de Bacon é um realismo experimentalista: as coisas da natureza existem e são definidas pelo fato de serem elas mesmas, mas não são conhecidas diretamente — ao contrário.
  • O espírito humano é um espelho desigual e infiel; sua relação com a natureza é da ordem do desconhecimento.
  • Bacon retoma e desenvolve uma teoria de seu homônimo Roger Bacon — os obstáculos (offendicula) tornam-se fallacies e, em latim, idola.
  • As “ídolas da tribo” são comuns ao gênero humano inteiro — por exemplo, o espírito humano supõe sempre mais ordem nas coisas do que realmente existe.
  • As “ídolas da caverna” são ao contrário individuais — as particularidades intelectuais de cada um.
  • As “ídolas da praça pública” estão ligadas à linguagem, ela mesma tributária das representações populares.
  • As “ídolas do teatro” são ilusões constituídas pelos artifícios de apresentação — a sistematicidade é sempre falaciosa; é melhor apresentar os resultados dos trabalhos em aforismos ou fragmentos.

Não basta pôr o espírito em guarda contra si mesmo — é preciso também construir uma técnica de exploração da natureza que seja ao espírito o que a régua e o compasso são à mão.

  • Bacon propõe protocolos de exploração rigorosa: uma indução que procede por exclusão e rejeições para extrair pela negativa a “forma” exata da coisa; e a “experiência instruída” (experientia literata) — arte de bater metodicamente os arbustos, variando uma experiência, prolongando-a, e sobretudo anotando por escrito as etapas da experimentação.
  • A experiência científica é indissociável do relato de experiência — experimenta-se com a pena na mão, sob pena de se perder no labirinto da natureza; a experiência deve ser comunicada à comunidade sábia com uma descrição honesta de seu dispositivo, não apenas sob a forma de resultado.
  • Um dos grandes aportes de Bacon à constituição do espírito científico moderno está aí: a experiência é destinada a ser executada por outra pessoa, e a pesquisa de cada um se insere numa repartição coletiva do trabalho — é essencial que seja transmitida com sinceridade e meticulosidade.

Bacon concebeu a divisão do trabalho de pesquisa como uma distribuição de domínios — “partição das ciências” — e como diferenciação e coordenação de modos de trabalho (particularmente em A Nova Atlântida).

  • Introduziu e desenvolveu a ideia de que as ciências não se constituem num único século, mas ao longo dos séculos — considera-se hoje que foi ele quem inventou o conceito de “progresso das ciências”.
  • Mostrou que é responsabilidade do Estado criar as instituições correspondentes, reformar as universidades, assalariar pesquisadores, criar cátedras, dotar os centros de pesquisa com instrumentos e velar para que honras caibam aos que se dedicam às ciências.
  • O mais pesado reproche que formula contra as práticas filosóficas correntes é que são estéreis e vãs — a pesquisa deve sempre ter em vista o bem do gênero humano.
  • No plano mítico-religioso, o progresso é uma restauração de um tempo arcaico, o de Salomão, ou um reencontro com um tempo adâmico — Bacon reporta aliás a vocação de sábio a um impulso de caridade e esperança.

Essa caracterização do esforço científico permite a Bacon distingui-lo cuidadosamente da problemática da fé, das controvérsias religiosas e da autoridade das Escrituras.

  • Segundo Bacon, Deus escreveu dois livros — a natureza e a Bíblia; iguais em dignidade e importância, são também distintos, e é catastrófico misturá-los.
  • É muito possível que Galileu tenha tido conhecimento dessa grande ideia e a tenha retomado — há certamente contatos simpáticos entre os dois homens e trocas sobre um fundo de desacordo quanto à teoria das marés.
  • Ao pronunciar a separação das ciências e da religião, Bacon contribuiu para constituir o espaço das ciências, dotando-as de uma jurisdição autônoma; fundou ainda a pesquisa científica na ideia de que a natureza é regida por leis, existentes anteriormente e independentemente das ficções que o espírito pode inventar a seu respeito.
  • Bacon deve ser visto como o primeiro dos Modernos — a fundação das companhias sábias nacionais (Royal Society, Académie des sciences de Paris) se recomenda de sua filosofia; o caso Galileu já está compreendido em Du progrès; Descartes e Spinoza se inspiram nele sem sempre o dizer; Leibniz se identifica por muito tempo ao projeto baconiano.

O pensamento político de Bacon conheceu muito cedo uma renome internacional — desde 1619 há na França uma voga baconiana, que toca a marquesa de Rambouillet, Richelieu, Sully e Châteauneuf.

  • Jovem, Bacon havia chegado a Paris pouco após a Noite de São Bartolomeu; em 1605, foi testemunha direta da Conspiração da Pólvora — sua obra contém referências horrorizadas a essas querelas religiosas sangrentas.
  • A uniformidade religiosa não é coisa necessária; os poderes temporais devem observar a maior circunspeção antes de intervir nos assuntos espirituais, e os soberanos não devem exigir de seus súditos demasiada conformidade.
  • “Forçar as consciências por perseguições sangrentas” equivale a quebrar uma contra a outra as duas Tábuas da Lei — a que enuncia os deveres em relação a Deus e a que enuncia os deveres em relação às pessoas humanas.
  • Os excessos de zelo religioso (“superstição”) são mais desastrosos do que o ateísmo — essa ideia, retomada por Bayle, desempenha papel estratégico em Bacon: o ateísmo ao menos nunca perturba os Estados; as épocas inclinadas ao ateísmo foram boas épocas para a vida civil.
  • A Nova Atlântida pleiteia o retorno da comunidade judaica à Inglaterra — Bacon considera que a Bíblia e o Evangelho, o judaísmo e o cristianismo estão em continuidade, e se mostrará muito tolerante também com os católicos romanos, desde que não atentem contra a segurança do Estado.
  • O progresso das ciências permitindo esperar um aumento das riquezas úteis à vida, a reforma intelectual preconizada por Bacon é também um meio de uma política visando a paz social — a ausência de distúrbios e de sedições é um dos objetivos do político, que deve velar pelo aumento do bem-estar, sendo a penúria a causa ordinária dos conflitos.
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