agrippa:behar
Agrippa (Béhar)
BÉHAR, Pierre. Les langues occultes de la Renaissance: essai sur la crise intellectuelle de l’Europe au XVIe siècle. Paris: Desjonquères, 1996.
- A figura de Heinrich Cornelius Agrippa de Nettesheim situa-se num ponto decisivo da Renascença, no qual a Cabala prática, o hermetismo e a magia árabe convergem numa tentativa sistemática de reformulação do saber oculto.
- A Renascença não se limita à especulação teórica sobre a magia, mas assume um caráter eminentemente prático, do qual o De Occulta Philosophia constitui a expressão mais ambiciosa.
- Agrippa surge nesse contexto como herdeiro direto de Reuchlin, mas também como pensador que desloca o centro de gravidade da Cabala cristã para uma aplicação operativa e enciclopédica da magia.
- A posição biográfica e intelectual de Agrippa contribui para a ambiguidade de sua obra.
- Inserido no mundo do Sacro Império Romano-Germânico, participa das redes humanistas, jurídicas e médicas de seu tempo.
- Proveniente de uma pequena nobreza recentemente reconhecida, transita entre a erudição universitária e a prática política e militar.
- Sua formação jurídica e filosófica, aliada à curiosidade pelas artes ocultas, orienta uma abordagem que visa menos a ortodoxia teológica do que a eficácia do saber.
- A herança de Reuchlin manifesta-se de modo decisivo, mas problemático.
- Após a leitura do De Arte Cabalistica, Agrippa enfrenta uma dificuldade fundamental: a de integrar a Cabala cristã num sistema mágico coerente.
- O De Occulta Philosophia retoma conceitos centrais do De Verbo Mirifico, como o papel dos nomes divinos e do Tetragrama, mas desloca seu sentido.
- O nome de Jesus, central em Reuchlin como síntese cristológica da Cabala, não ocupa em Agrippa a mesma função estruturante.
- O De Occulta Philosophia de 1510 apresenta-se como uma síntese inicial marcada por tensões internas.
- O texto permanece profundamente enraizado no neoplatonismo, no hermetismo e na magia árabe.
- A Cabala aparece de forma marginal, sem desenvolvimento sistemático.
- O tratado evita referências explícitas às sefirot, às técnicas exegéticas cabalísticas e à derivação dos nomes angélicos a partir do nome revelado de Deus.
- A originalidade da versão de 1533 do De Occulta Philosophia reside na introdução explícita da Cabala.
- Essa introdução não corresponde a uma reelaboração orgânica do sistema, mas a uma incorporação tardia.
- Agrippa acrescenta passagens que retomam temas cabalísticos, como os nomes divinos, os caracteres sagrados e a hierarquia angélica.
- A Cabala surge como complemento destinado a reforçar a legitimidade e o alcance da magia, mais do que como princípio organizador do tratado.
- A estrutura global da obra permanece marcada por uma divisão tripartite da magia.
- A magia natural ocupa-se das virtudes ocultas da natureza.
- A magia celeste fundamenta-se nas influências astrais e planetárias.
- A magia cerimonial ou religiosa recorre a ritos, palavras e imagens para operar sobre os espíritos.
- Essa divisão não coincide plenamente com a lógica interna da Cabala, o que acentua a heterogeneidade do sistema.
- A introdução da Cabala não elimina as ambiguidades doutrinais da obra.
- A doutrina do Verbo Mirífico é evocada sem ser plenamente assumida.
- A Cabala cristã permanece subordinada a uma concepção mágica mais ampla, na qual elementos pagãos, árabes e neoplatônicos coexistem sem hierarquia clara.
- A tentativa de legitimar a magia por meio da revelação bíblica resulta numa integração parcial e frequentemente superficial.
- O De Occulta Philosophia revela, assim, um projeto enciclopédico mais acumulativo do que sintético.
- Agrippa reúne tradições diversas sem resolver plenamente suas incompatibilidades internas.
- A magia aparece como saber total, capaz de englobar natureza, cosmos e religião.
- A ausência de um princípio unificador rigoroso prepara as dificuldades conceituais que emergirão nas seções posteriores da obra.
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