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1 Ciências e Artes

STAROBINSKI, Jean. Jean-Jacques Rousseau: La transparence et l'obstacle. Paris: Plon, 1957 (Edição definitiva revista e ampliada, com sete ensaios adicionais: Paris: Gallimard, 1971, Coleção Bibliothèque des Idées).

DISCURSO SOBRE AS CIÊNCIAS E AS ARTES

1. O Discurso sobre as ciências e as artes inicia com um elogio da cultura que, por uma reviravolta retórica súbita, revela a discordância entre o ser e o parecer, mostrando que as ciências, as letras e as artes estendem guirlandas de flores sobre as cadeias de ferro que esmagam os homens.

2. A fenda que impede a atitude exterior de corresponder às disposições do coração faz o mal penetrar no mundo, de modo que os benefícios das luzes são compensados e quase anulados pelos inumeráveis vícios decorrentes da mentira da aparência, pois o espírito humano triunfa enquanto o homem se perde.

O TEMA DA MENTIRA DA APARÊNCIA

1. O tema da mentira da aparência não tem nada de original em 1748, pois no teatro, na igreja, nos romances e nos jornais cada um denuncia falsas aparências, convenções, hipocrisias e máscaras, e o vocabulário da polêmica e da sátira recorre frequentemente aos termos desvelar e desmascarar.

2. A antítese ser-parecer pertence ao léxico comum e a ideia tornou-se locução, mas quando Rousseau encontra o deslumbramento e a verdade na estrada de Vincennes, o tema ganha uma dimensão pessoal e dramática que ultrapassa o lugar-comum retórico.

3. A ilusão não é apenas o que turva o conhecimento e vela a verdade, mas falseia todos os atos e perverte as vidas, servindo de veículo a um pensamento amargo obsedado pela impossibilidade da comunicação humana.

4. No primeiro Discurso, Rousseau lamenta que as almas não sejam visíveis, que a amizade não seja possível e que nenhum sinal certo permita reconhecer a disposição dos corações, pois os homens já não ousam parecer o que são.

5. A incerteza sobre com quem se trata arrasta um cortejo de vícios, pois não há mais amizades sinceras, estima real ou confiança fundada, e as suspeitas, desconfianças, temores, frieza, reserva, ódio e traição ocultam-se sob o véu uniforme e pérfido da polidez.

6. Que ser e parecer sejam diversos e que um véu dissimule os verdadeiros sentimentos constitui o escândalo inicial com que Rousseau se choca, o dado inaceitável de que buscará a explicação e a causa e a infelicidade de que deseja ser libertado.

7. Esse tema é fecundo e abre a possibilidade de um desenvolvimento inesgotável, pois no próprio testemunho de Rousseau o escândalo da mentira deu impulso a toda a sua reflexão teórica, levando-o a procurar a razão da dessemelhança entre as ações e os discursos dos homens.

8. Rousseau se atribui o papel do observador naturalista que traduz suas observações em conceitos e remonta indutivamente às razões e causas primeiras, mas o próprio Rousseau autoriza a perguntar se ele não racionaliza emoções turvas e sentimentos interessados ao adotar o tom do saber abstrato.

9. O Rousseau das Confissões convida a buscar a origem de suas teorias na experiência emotiva, e o dos Devaneios chega a dizer que sua vida inteira quase não passou de um longo devaneio, o que leva a duvidar de que a discordância do ser e do parecer tenha sido apreendida por uma calma comparação crítica.

10. O tema do parecer não é apenas uma superestrutura intelectual, pois nas Confissões a existência de Jean-Jacques não parece constituída como uma cadeia de pensamentos, mas como uma cadeia de sentimentos e um encadeamento de afeições secretas.

11. A consciência de si data, para Jean-Jacques, de seu encontro com a literatura, e o encontro de si coincide com o encontro do imaginário, de modo que desde a origem a consciência de si está intimamente ligada à possibilidade de tornar-se um outro.

12. A ilusão romanesca, por mais perigosa que Rousseau a considere, forma Jean-Jacques como um ser diferente e dá à sua singularidade sua fonte nos fantasmas fascinantes suscitados pela leitura, de modo que ele deseja e deplora simultaneamente sua diferença.

13. A memória remonta a uma experiência original do malefício da aparência, na qual Jean-Jacques sofreu a acusação injustificada ao parecer mentir sendo sincero, e essa lembrança tem o valor de um arquétipo que revela a ruptura ontológica entre o ser-inocente e o parecer-culpado.

14. A criança punida descobre que a íntima certeza da inocência é impotente contra as provas aparentes da culpa e que as consciências são separadas, o que faz o paraíso ser perdido, pois o paraíso era a transparência recíproca das consciências e a comunicação total e confiante.

15. Os termos que Rousseau emprega para descrever as consequências do incidente do pente quebrado assemelham-se às palavras com que o primeiro Discurso pinta o cortejo de vícios que irrompe quando não se ousa mais parecer o que se é, falando nos dois textos de um desaparecimento da confiança e de um véu que se interpõe.

16. As almas não se encontram mais e têm prazer em ocultar-se, e a criança punida descobre a incerteza do conhecimento de outrem de que Rousseau se lamentará no primeiro Discurso.

O TEMPO DIVIDIDO E O MITO DA TRANSPARÊNCIA

1. O momento de crise em que o véu da separação desce sobre o mundo e a desconfiança torna para sempre a amizade impossível marca o começo de uma perturbação na felicidade infantil de Jean-Jacques e o início de uma nova época da consciência.

2. A nova era define-se por uma descoberta essencial: a primeira vez que a consciência tem um passado faz com que ela descubra também uma pobreza e uma falta essencial, e o afastamento temporal que se cava atrás do instante presente torna-se perceptível pelo próprio fato de que se esquiva e se recusa.

3. A consciência volta para um mundo anterior do qual parece simultaneamente pertencer e estar para sempre perdida, e no momento em que a felicidade infantil escapa ela reconhece o valor infinito dessa felicidade proibida.

4. Não resta mais do que construir poeticamente o mito da época finda, quando os deuses liam nos corações e nada alterava a transparência e a evidência das almas, tempo situado mais próximo do nascimento e da origem tanto na biografia pessoal quanto na história da humanidade.

5. O primeiro Discurso desenvolve imagens análogas às das Confissões ao evocar o tempo da transparência, falando da presença próxima dos deuses, de testemunhas divinas que permanecem entre os homens e de um mundo em que as consciências humanas se reconhecem por um único olhar.

6. Antes que a arte houvesse moldado as maneiras e ensinado as paixões a falar uma linguagem afetada, os costumes eram rústicos mas naturais, e a diferença dos procedimentos anunciava ao primeiro olhar a do caráter, pois os homens encontravam sua segurança na facilidade de se penetrar reciprocamente.

7. Previamente a toda teoria e hipótese sobre o estado de natureza, há a intuição ou a imaginação de uma época comparável à infância antes da experiência da acusação injustificada, em que um infalível equilíbrio ajusta o ser e o parecer e as aparências externas são espelhos fiéis em que as consciências se encontram e se harmonizam.

8. A nostalgia volta para uma vida anterior sem abandonar o mundo humano nem a paisagem terrestre, e a origem da decadência é explicável por razões humanas, pois o homem é perfectível e não cessou de acrescentar suas invenções aos dons da natureza.

9. A história universal, embaraçada pelo peso crescente dos artifícios e do orgulho, adquire o andamento de uma queda acelerada na corrupção, e os homens abrem os olhos com horror para um mundo de máscaras e ilusões mortais sem que nada assegure ao observador que ele próprio seja poupado da doença universal.

10. O drama da queda não antecede a existência terrestre, pois Rousseau transporta o mito religioso para a própria história e a divide em duas eras: uma de inocência e natureza pura, outra de atividade culpada e natureza degradada pelo homem.

11. Se a queda é nossa obra e um acidente da história humana, é preciso admitir que o homem não está naturalmente condenado a viver na desconfiança e nos vícios, e que nada aí nos impeça de refazer ou desfazer a história para redescobrir a transparência perdida.

12. A essência do homem não está comprometida, mas apenas sua situação histórica, e mesmo que uma fatalidade puramente humana tenha tornado o mal irreversível, o mínimo que se pode fazer é conservar aqueles em que a felicidade do ser-se-á ainda não foi destruída.

13. Rousseau não duvida de que uma ação seja possível, pois uma livre decisão pode consagrar-nos ao serviço da verdade velada, e seus vários apelos se exprimem sucessivamente na reforma moral pessoal, na educação do indivíduo, na formação política do cidadão e no contrato social.

14. A hesitação de Rousseau orienta seu desejo ora no sentido de uma regressão temporal, ora no de uma superação em direção ao futuro, alternadamente voltando ao devaneio arcádico de um retorno à floresta primitiva ou traçando a ideia da felicidade futura do gênero humano e da Cidade virtuosa.

15. De tantos desígnios semelhantes, difíceis de harmonizar de maneira inteiramente satisfatória, é preciso reter a unidade de intenção que visa à salvaguarda ou à restauração da transparência comprometida, convocando-nos Rousseau antes de tudo a querer o retorno da transparência para nós e em nossas vidas.

16. Do desejo de transparência à transparência possuída a passagem não é instantânea e o acesso não é imediato, e ao empreender libertar-se da mentira coloca-se cedo ou tarde a questão dos meios e da ação, que corre o risco de nos fazer recair no mundo da mentira e da opacidade.

SABER HISTÓRICO E VISÃO POÉTICA

1. No Discurso sobre a origem da desigualdade, Rousseau interpõe multidões de séculos entre a transparência perdida e o presente, e a luz da primeira felicidade parece quase apagar-se na distância das eras, o que levanta dúvidas sobre se o tempo da transparência realmente ocorreu ou é apenas uma ficção especulativa.

2. O estado de natureza é tão-somente o postulado especulativo que uma história hipotética se confere, princípio sobre o qual a dedução se apoia em busca de uma série de causas e efeitos bem encadeados para construir a explicação genética do mundo tal como ele se oferece aos nossos olhos.

3. A primeira versão do mito afirma que a alma humana degenerou, desfigurou-se e sofreu uma alteração quase total para jamais reencontrar sua beleza primeira, enquanto a segunda versão evoca um encobrimento em que a natureza primitiva persiste oculta sob véus superpostos e sempre intacta.

4. Rousseau sustenta alternada e por vezes simultaneamente as duas versões, dizendo que o homem destruiu de modo irremediável sua identidade natural e proclamando também que a alma original, sendo indestrutível, permanece para sempre idêntica a si mesma sob as manifestações externas que a mascaram.

5. Rousseau retoma o mito platônico da estátua de Glauco, desfigurada pelo tempo, pelo mar e pelas tempestades a ponto de parecer menos um deus do que um animal feroz, para descrever a alma humana alterada no seio da sociedade por mil causas continuamente renascentes.

6. O por assim dizer e o quase presentes nessa imagem devolvem todas as esperanças, pois fica em aberto se o rosto foi corroído para sempre, se foi recoberto por uma crosta sob a qual a face divina conserva seu modelo original, ou se a fisionomia original é apenas uma ficção destinada a servir de norma ideal.

7. Não é empresa leve deslindar o que há de originário e de artificial na natureza atual do homem e conhecer bem um estado que não existe mais, que provavelmente não existirá jamais e sobre o qual é necessário ter noções justas para avaliar nosso estado presente.

8. Permanecer o que se era e deixar-se alterar pela mudança são categorias que para Rousseau equivalem às categorias teológicas da perdição e da salvação, pois ele acredita que a perda da semelhança é uma infelicidade essencial e que permanecer semelhante a si mesmo é uma maneira de salvar a vida.

9. O tempo histórico, que não exclui a ideia do desenvolvimento orgânico, permanece carregado de culpabilidade, e o movimento da história é um obscurecimento mais responsável por uma deformação do que por um progresso qualitativo, pois Rousseau apreende a mudança como corrupção e o homem se desfigura e se deprava no curso do tempo.

10. Essa versão severa e por assim dizer calvinista do mito da origem é proposta em diversos momentos da obra de Rousseau, e descobre-se em sua origem uma angústia muito real avivada pelo sentimento do irreparável, pois ele muitas vezes afirmou que o mal era sem retorno e que um natural sufocado não volta jamais.

11. O próprio Rousseau sentiu-se atingido e ameaçado pela alteração, como mostra o episódio de Bossey e o texto do final de sua vida em que ele pergunta se talvez sem se dar conta não tenha mudado mais do que seria preciso.

12. No momento em que tudo muda para ele e em que acredita viver em um sonho, Rousseau se opõe com todas as suas forças à angústia da alteração interior e luta pela salvaguarda de sua identidade, repelindo para o exterior a responsabilidade da alteração e afirmando que foram os outros que sofreram a metamorfose mais surpreendente.

13. Rousseau repele para o exterior a responsabilidade da alteração, pois foram os outros que, tornando-se irreconhecíveis, desfiguram sua imagem e suas obras, enquanto ele mesmo permaneceu o que era, tendo seus sentimentos mudado apenas porque as realidades externas não são mais as mesmas.

14. Sob a máscara que os outros impõem de fora à sua fisionomia, Jean-Jacques não deixou de ser Jean-Jacques, e no momento em que está mais obsedado pela perseguição ele repete a si mesmo a versão otimista do mito da origem, segundo a qual nada foi perdido e o tempo não alterou o essencial.

15. O rosto de Glauco permaneceu intacto sob a espuma que o desfigura, e Jean-Jacques aplica então a si mesmo a ideia de que a natureza perdida e a natureza oculta são uma só e mesma natureza, que se pode mascarar mas jamais será destruída.

16. Demasiadamente poderosa e talvez demasiadamente divina para que possamos transformá-la ou suprimi-la, a natureza original elude todos os empreendimentos profanadores e se refugia nas profundezas, onde apenas dissimulada sob involucros exteriores se encontra a transparência perdida e presente em nós mesmos.

17. Então Rousseau invoca com confiança uma natureza que nada destrói e torna-se o poeta da permanência desvelada, descobrindo em si mesmo a proximidade da transparência original e reencontrando os traços originários na profundeza do eu, de modo que aquele que sabe recolher-se em si mesmo pode reencontrar a fisionomia do deus submerso e libertar da ferrugem a máscara.

18. O pintor e apologista da natureza hoje desfigurada e caluniada pode tirar do seu próprio coração o modelo, descrevendo o que sente ele próprio, pois os preconceitos e as paixões factícias não ofuscaram de modo nenhum seus olhos e esses traços tão novos para nós são verdadeiros e traçados, encontrando ainda no fundo dos corações a atestação de sua justeza.

19. O conhecimento de si equivale a uma reminiscência, mas não é por um esforço de memória que Rousseau reencontra os primeiros traços pertencentes a um mundo anterior, pois para descobrir o homem da natureza bastou-lhe pintar a si mesmo e reportar-se à sua própria intimidade em um movimento a uma só vez passivo e ativo.

20. O recurso à interioridade atinge a mesma realidade e decifra as mesmas normas absolutas que a exploração do passado mais remoto, de modo que o que era primeiro na ordem dos tempos históricos se redescobre como o que é mais profundo na experiência atual de Jean-Jacques, e a distância histórica não é mais que distância interior.

21. A natureza, deixando de ser o que há de mais longínquo atrás de nós, oferece-se como o que é mais central em nós, e a norma já não é transcendente mas imanente ao eu, pois basta ser sincero e ser eu mesmo para que o homem da natureza coincida com a própria presença e existência.

22. A transparência antiga resultava da presença ingênua dos homens sob o olhar dos deuses, enquanto a nova transparência é uma relação interior ao eu e realiza-se na limpidez do olhar sobre si mesmo, que permite a Jean-Jacques pintar-se tal como é.

23. Uma imagem pode então surgir, equivalendo à história autêntica da espécie inteira e ressuscitando o passado perdido para revelá-lo como presente eterno da natureza, e os homens aí redescobrem a certeza de uma semelhança comum, pois cada homem carrega a forma inteira da humana condição.

24. Porque Jean-Jacques soube abandonar-se a si mesmo, os homens se reconhecerão por sua vez e, atrás de suas falsas verdades, reencontrarão uma presença esquecida e uma forma que permanecia intacta sob os véus, libertando-se do esquecimento.

25. Pode-se então recobrar a natureza primeira do homem sem remontar às origens reais e sem se aventurar nas reconstruções históricas, e Rousseau explica isso claramente no segundo Discurso, renunciando a toda asserção sobre as verdadeiras origens para se reservar o direito de esclarecer por via de hipótese a natureza das coisas.

26. As investigações sobre esse assunto não devem ser tomadas por verdades históricas, mas apenas por raciocínios hipotéticos e condicionais, mais aptos a esclarecer a natureza das coisas do que a mostrar a verdadeira origem.

27. Rousseau hesita quanto a saber se a natureza do homem pode ser apreendida independentemente da história humana, pois se não pode dispensar a noção de uma natureza humana essencial, também não pode renunciar à ideia de um devir histórico que lhe permita explicar a alteração sofrida pela humanidade ao afastar-se de suas bem-aventuradas origens.

28. Rousseau desejaria reservar-se conjuntamente a possibilidade de acusar a perversão pela qual a sociedade é responsável e conservar o direito de proclamar a permanência da bondade original, e essa dupla afirmação pode passar por contraditória, pois na medida em que a sociedade é obra humana deve-se admitir que o homem é culpado, mas na medida em que o homem é filho da natureza ele conserva uma inocência indestrutível.

UMA TEODICEIA QUE INOCENTA O HOMEM E DEUS

1. Cassirer mostrou bem que os postulados de Rousseau permitem resolver o problema da teodiceia sem imputar a origem do mal nem a Deus nem ao homem pecador, pois não é necessário supor o homem mau por sua natureza quando se pode assinalar a origem e o progresso de sua maldade.

2. O desenvolvimento das luzes e dos vícios faz-se sempre na mesma proporção, não nos indivíduos mas nos povos, distinção que Rousseau sempre fez cuidadosamente e que nenhum daqueles que o atacaram jamais pôde conceber.

3. O mal se produz pela história e pela sociedade sem alterar a essência do indivíduo, e a culpa da sociedade não é a culpa do homem essencial mas a do homem em relação, de modo que, dissociando o homem essencial e o homem em relação e separando sociabilidade e natureza humana, pode-se atribuir ao mal e à alteração histórica uma situação periférica em relação à permanência central da natureza original.

4. O mal pode confundir-se com a paixão do homem por aquilo que lhe é exterior, pelo prestígio, pelo parecer e pela posse dos bens materiais, e o mal é exterior e é a paixão pelo exterior, de modo que se o homem se entrega inteiro à sedução dos bens externos será inteiramente submetido ao império do mal, mas recolher-se em si será sempre o recurso da salvação.

5. Rousseau não se contenta em reprovar a exterioridade como quase todos os moralistas antes dele, mas incrimina-a na própria definição do mal, e essa condenação é a contrapartida de uma justificação que pretende salvar de uma vez por todas a essência interna do homem.

6. Repelido para a periferia do ser e rechaçado para o mundo da relação, o mal não tem o mesmo estatuto ontológico que a bondade natural do homem, pois é véu e velamento, é máscara, tem acordo com o factício e não existiria se o homem não tivesse a perigosa liberdade de negar pelo artifício o dado natural.

7. É entre as mãos do homem e não em seu coração que tudo degenera, pois suas mãos trabalham, mudam a natureza, fazem a história, ordenam o mundo exterior e produzem com o tempo a diferença entre as épocas, a luta entre os povos e a desigualdade entre os particulares.

8. Em uma mesma página do prefácio de Narciso, Rousseau protesta contra a falsa filosofia que sustenta que os homens são por toda parte os mesmos, mas que os vícios do mundo contemporâneo não pertencem tanto ao homem quanto ao homem malgovernado, e essa contradição significativa afirma ao mesmo tempo a permanência de uma inocência essencial e o movimento da história como alteração, corrupção moral, degenerescência política e promoção do conflito e da injustiça entre os homens.

9. Nas teorias do progresso propostas mais tarde intervém uma hipótese análoga que visa conciliar o postulado da permanência da natureza humana com a ideia de uma mudança coletiva, como mostra Goethe ao dizer que o homem permanece o mesmo e a humanidade progride sempre, e tanto em um como no outro caso é preciso conciliar a estabilidade da natureza humana e a mobilidade do desenvolvimento real da história.

10. Rousseau não tem necessidade da história a não ser para lhe pedir a explicação do mal, e é a ideia do mal que dá ao sistema sua dimensão histórica, pois o devir é o movimento pelo qual a humanidade se torna culpada e o homem não é naturalmente vicioso, mas tornou-se vicioso.

11. O retorno ao bem coincide com a revolta contra a história e em particular contra a situação histórica atual, pois se é verdade que o mal é obra da história humana, também é verdade que o homem não está naturalmente condenado a ele.

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