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Schopenhauer

SAFRANSKI, Rüdiger. Schopenhauer und die wilden Jahre der Philosophie: Eine Biographie. München: Carl Hanser Verlag, 1987.

Prólogo

1. Pensar com coração caloroso a filosofia dos “anos selvagens”, de Kant ao jovem Marx, significa revisitar um mundo desaparecido em que a descoberta do eu despertou euforia e esperança, mas cuja revelação de que o homem é o autor das coisas acabou despojando a metafísica de sua magia, convertendo o conhecimento em mera utilidade, inaugurando a religião secularizada do crescimento e do progresso e desembocando na alienação e no temor diante de uma história construída pelo próprio homem, razão pela qual essa declaração de amor tardia vem acompanhada de certo rancor crítico, amparado em Schopenhauer.

2. Embora proveniente dos “anos selvagens da filosofia”, Schopenhauer foi seu inimigo declarado, pois concebeu a razão como mera serviçal da vontade, fonte da vida e substrato de toda desventura, e, nadando contra a corrente de seu tempo, propôs não o prazer da ação, mas a arte do abandono e um sonho de reconciliação no espelho desinteressado da música, introduzindo o pesadelo da realidade no próprio coração de uma filosofia que deve fazer ouvir o pranto, o ranger de dentes e o alarido do crime universal.

3. Kant, impulsionador dos “anos selvagens da filosofia”, via na Revolução Francesa um acontecimento inesquecível por revelar na natureza humana uma disposição para o melhor que nenhuma astúcia política poderia ter deduzido da história anterior.

4. Os acontecimentos inesquecíveis do presente chamam-se Auschwitz, arquipélago Gulag e Hiroshima, e a filosofia atual, para estar à altura de seu tempo, precisa responder a eles recorrendo a Schopenhauer, cujo pessimismo e cuja filosofia da força interior e do convite ao silêncio estimulam o pensamento.

5. Schopenhauer é um filósofo do início do século XIX, fato facilmente esquecido em razão da implantação tardia de sua influência.

6. Nascido em Danzig em 1788, criado em Hamburgo e destinado pelo pai ao comércio, Schopenhauer tornou-se filósofo graças à morte precoce do pai e ao apoio da mãe, movido pelo antigo assombro diante do mundo e, dispondo de fortuna herdada, pôde viver para a filosofia e não dela, o que, somado à falta de oportunidades acadêmicas, preservou o aguilhão existencial de seu pensamento e a agudeza de seu olhar sobre a nudez, o carreirismo e os interesses dos que dominavam as cátedras alemãs.

7. Gestada entre 1814 e 1818, O mundo como vontade e representação deu a Schopenhauer a consciência de ter cumprido a tarefa de sua existência, mas a ausência de público levou-o a retirar-se de cena sem ter atuado, recusando as mascaradas filosóficas e contemplando de longe o carnaval da vida, embora esperasse secretamente ser procurado pelo público, de modo que, ao ser enfim descoberto no fim da vida, interpretou seu longo anonimato como o caminho da verdade.

8. Schopenhauer precisou de uma paciência que durou toda a vida, enquanto a história se acelerava ao seu redor e os “anos selvagens da filosofia” culminavam nos acontecimentos revolucionários de 1848.

9. Os “anos selvagens da filosofia” ignoraram esse filósofo do pranto e da vida contemplativa que, com grande antecipação, pensara de forma conjunta e radical as três grandes humilhações da megalomania humana: a cosmológica, que reduz o mundo a uma esfera entre inúmeras no espaço infinito; a biológica, que faz do homem um animal cuja inteligência apenas compensa a falta de instintos; e a psicológica, segundo a qual o eu consciente não é senhor em sua própria casa.

10. O percurso de Arthur até sua filosofia e aquilo que essa filosofia fez do filósofo constituem o fio condutor da narrativa.

11. Narrar a filosofia significa ao mesmo tempo refletir sobre ela, entrelaçando a vida de Schopenhauer com seu contexto histórico-cultural, pois, embora os homens que pensaram essas coisas tenham morrido, seus pensamentos sobrevivem e merecem aparecer como se fossem seres vivos.

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