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schelling:filosofia-positiva-brown

EM DIREÇÃO À FILOSOFIA POSITIVA (BROWN)

BROWN, Robert F. The later philosophy of Schelling: the influence of Boehme on the works of 1809-1815. Lewisburg [Pa] London: Bucknell university press Associated university presses, 1977.

Resumos:


  • A elaboração das conferências tardias estabelece distinção decisiva entre filosofia negativa e filosofia positiva, e essa distinção permite reler o ensaio Die Weltalter como culminação de uma fase e como passagem para a investigação ulterior da história da religião.
    • A distinção, aplicada retroativamente ao ensaio, mostra simultaneamente o fechamento de um ciclo de problemas e a função preparatória do texto para uma orientação posterior.
    • A distinção também esclarece por que certos materiais associados ao ensaio não foram incluídos na versão de 1815, na medida em que convergem com preocupações desenvolvidas mais tarde por via diversa.
    • A tarefa proposta consiste em definir de modo conciso a distinção entre filosofia negativa e filosofia positiva, em examinar fragmentos adicionais ligados ao ensaio, em considerar um escrito que inaugura a exploração da história da religião, e em caracterizar o objetivo da filosofia da mitologia e da revelação.
  • A formulação explícita da distinção entre filosofia negativa e filosofia positiva vincula-se provavelmente a reação adversa diante da lógica hegeliana, mas a distinção não é apenas instrumento polêmico e exprime a autocompreensão do conjunto do trabalho tardio.
    • A ideia central é que a existência efetiva, o ser real, não pode ser simplesmente inferida das estruturas do pensamento.
    • Conceitos podem representar estruturas possíveis do ser real ou podem articular análise a posteriori do ser real, mas não podem explicar a existência atual do ser.
    • O pensamento, considerado por si só, não fornece razão suficiente para a transição do pensar ao ser.
    • A análise dialética do pensamento pode expor o movimento das ideias no entendimento do divino e pode descrever o desenvolvimento do ser no mundo, mas não pode mostrar como ou por que ocorre a criação do mundo.
    • O fato da existência, isto é, o motivo pelo qual a possibilidade se torna atualidade e pelo qual as ideias se tornam mundo, é fundado na vontade divina, e não no intelecto divino nem no ser divino.
    • O pensamento não é abstrato, pois é sempre pensamento de um pensador individual e vivente, e a realização do pensamento no ser mediante criação deve-se ao querer livre desse indivíduo, que é Deus.
    • A posição permanece coerente com voluntarismo metafísico assumido anteriormente, pois a criação é atribuída a decisão livre e não a exigência intrínseca do conceito.
  • O ser inteiro, tanto a natureza própria de Deus quanto o ser criado do mundo, está radicalmente subordinado à vontade livre transcendente de Deus, e o reconhecimento desse fato impõe duas formas correlatas de filosofia.
    • A filosofia negativa tem por tarefa analisar as estruturas dialéticas do pensamento.
      • O esforço de pensar adequadamente o ser conduz a três conceitos interligados, entendidos como três momentos dialeticamente relacionados no processo do ser.
        • O primeiro conceito é o de subjetividade pura, ponto ou identidade sem extensão e sem expressão objetiva.
        • O segundo conceito é o de objetividade pura plenamente atual, conteúdo ilimitado sem foco nem definição.
        • O terceiro conceito é o de unidade e interdependência dos dois primeiros, de modo que se possa compreender a estrutura do ser real como sujeito e objeto.
      • Esses três momentos são apresentados como potências do ser real descobertas pela dialética racional da filosofia negativa.
      • A correspondência é estabelecida com as três potências conflitantes situadas no polo da necessidade no ensaio, de modo que a filosofia negativa reencontra, no plano conceitual, a mesma articulação triádica.
      • Assim como no ensaio o polo da necessidade precisa ser subordinado à liberdade para que haja ser, a filosofia negativa conduz ao reconhecimento de que as potências conceituais são insuficientes para produzir por si mesmas o ser real.
      • A insuficiência das potências racionais exige outra potência além da razão, que conceda atualidade ao que a razão apenas estrutura, e essa potência superior é a vontade pura, isto é, a liberdade.
      • O procedimento da filosofia negativa avança por via indutiva na dialética dos conceitos até mostrar que a razão, insuficiente em si, é derrubada quanto à pretensão de fundamentar a existência.
      • A filosofia negativa funciona como prolegômeno de uma filosofia do ser efetivo, pois preserva as estruturas do pensamento e do ser, mas as qualifica como dependentes de algo superior, a vontade incondicionada.
      • A filosofia negativa não invalida a razão, mas delimita seu alcance, mostrando que a inteligibilidade estrutural não explica o fato da existência.
  • A filosofia positiva segue-se como reinstauração da razão enquanto derivada e dependente, e visa explicar a existência do ser efetivo como resultado de decisão livre.
    • A filosofia positiva possui duas fases distintas.
      • A primeira fase consiste em construção ou dedução racional da estrutura do ser em sua subordinação à liberdade.
        • No ensaio, essa fase corresponde à descrição do ser realizado de Deus, em que a subordinação da necessidade à liberdade separa as potências, e corresponde também à visão do mundo possível.
        • A apreensão dessas estruturas é atribuída ao modo extático de conhecimento, pelo qual a mente finita transcende limites e reconduz à consciência uma consciência implícita da estrutura e origem do real.
      • A segunda fase consiste em verificação empírica da dedução, pois é necessário mostrar que a ontologia voluntarista não é especulação vazia.
        • A verificação requer análise das estruturas e do desenvolvimento do ser efetivo tal como se manifesta na natureza e na história, de modo que o exame empírico sustente e não contradiga a análise metafísica a priori.
        • A fase empírica corresponde ao projeto de investigar períodos do tempo real que o programa inicial do ensaio pretendia desenvolver.
        • A reorientação ocorre quando o plano inicial do ensaio é abandonado e a fase empírica da filosofia positiva passa a ser desenvolvida sobretudo por outro projeto, a filosofia da mitologia e da revelação.
        • Essa reorientação é indicada como exterior ao escopo imediato, com exceção de materiais preliminares do período em questão que apontam para preocupações posteriores.
  • A existência de uma segunda metade do Livro Um, preservada apenas na versão de 1811, mostra tentativa de tratar motivos teológicos que depois são deslocados para a filosofia da revelação e amplamente excluídos das versões de 1813 e 1815.
    • O conjunto é dividido em seis partes, e as três primeiras recebem destaque como mais relevantes.
    • O texto é caracterizado como tentativa de lidar com motivos teológicos que, mais tarde, são desenvolvidos em outro quadro e por outra estratégia.
  • A primeira parte dessa segunda metade trata da relação do presente com o passado, exemplificada pela relação do Filho com o Pai em Deus, e coloca o problema de como o ser primordial supera eternamente a contradição interna das potências.
    • A superação é atribuída a uma divisão que não nega a unidade, de modo que a unidade se redobra sem se dissolver.
    • A reduplicação da unidade é identificada com a geração do Filho pelo Pai.
    • O Filho nasce da unidade contraente do Pai e é descrito como amor que suspende a oposição das potências no Pai, relegando essa oposição ao passado.
    • O passado é caracterizado como não sendo em relação ao Filho, na medida em que a oposição é posta como não dominante frente ao presente do amor.
    • O Filho é descrito como reconciliador, libertador e salvador do Pai, e a paternidade do Pai é afirmada como sendo Pai apenas no Filho e por meio do Filho.
    • A segunda época começa com o Filho e é descrita como tempo do presente, de prevalência do amor.
    • Uma transição breve introduz discussão dialética, em lugar de narrativa teológica, sobre o mesmo processo, caracterizando o presente como revelação da oposição viva entre unidade e antítese.
    • A visão do futuro como unidade final reconduz o desenvolvimento de volta a caracterização teológica do processo total.
  • A segunda parte prossegue na discussão de Deus como desdobramento em múltiplas pessoas e enfatiza o valor específico da revelação.
    • A revelação é apresentada como o que torna patentes as operações internas de Deus, permitindo falar diretamente de Deus em conceitos humanos.
    • Sem revelação, haveria tendência a acentuar a remoticidade de Deus e a empregar categorias afastadas da experiência e da vida humanas, o que tornaria o discurso inadequado à compreensão do divino enquanto vivente e comunicável ao entendimento humano.
  • A terceira parte retoma a estrutura tripla do tempo e correlaciona essa estrutura com a doutrina trinitária anteriormente mobilizada.
    • A geração do Filho mediante a potência paterna é afirmada como primeira relação real, e com ela é posto o primeiro começo real.
    • A unidade entre o ser do Filho e o começo é afirmada de modo recíproco, estabelecendo equivalência entre início real e presença do Filho.
    • A introdução de uma segunda personalidade, distinta da primeira, é apresentada como condição para suspender decisivamente a simultaneidade de princípios e para pôr uma tripartição temporal.
      • O ser é posto como primeiro período ou potência.
      • O existente é posto como presente.
      • A unidade essencial e livre de ambos, encerrada no primeiro, é posta como futuro.
    • A expressão e a revelação do tempo escondido na eternidade dependem de que princípios antes coexistentes como potências do ser passem a aparecer como períodos.
    • As implicações da concepção orgânica do tempo real e a constituição do espaço são retomadas em termos próximos aos da versão de 1815.
  • A quarta parte tenta correlacionar tipos de sistemas filosóficos com fases do desenvolvimento da vida divina.
    • Sistemas como dualismo e panteísmo são alinhados a momentos ou etapas do processo divino, de modo que doutrinas filosóficas sejam lidas como expressões parciais de posições estruturais no desdobramento da vida divina.
  • A quinta parte reiteraria aspectos do tema recorrente da relação entre liberdade e necessidade.
    • A ênfase recai na articulação entre decisão livre e condicionamentos necessários, mantendo o esquema segundo o qual a necessidade exige subordinação para que a liberdade se manifeste como efetiva.
  • A sexta parte tenta articular provas da existência de Deus com momentos da vida divina, atribuindo-lhes significação conjunta apesar de insuficiências individuais.
    • Cada prova, tomada isoladamente, é considerada inadequada.
    • A correlação de várias provas com diferentes momentos do processo divino poderia conferir sentido relativo ao conjunto, quando as provas são consideradas em totalidade articulada.
  • Fragmentos de um segundo livro esboçam uma filosofia do presente como histórias paralelas da natureza e do mundo do espírito, ambas decorrentes da mesma decisão divina de criar.
    • A natureza funciona como fundamento do mundo do espírito, embora os dois processos se desenvolvam simultaneamente.
    • Uma dimensão do mundo do espírito surge no interior da natureza em ponto específico do desenvolvimento, a aparição da humanidade.
    • A participação humana no mundo do espírito torna-se completa apenas com a morte.
    • O mundo do espírito, na história do presente, ocupa posição de futuro para a humanidade.
    • A filosofia do presente deve enfatizar que o mundo do espírito é o futuro humano, e por isso a história da natureza deve preceder a análise paralela do mundo do espírito para esclarecer como o humano participa de ambos.
  • Outros fragmentos do segundo livro concentram-se em problemas de ciência física, com ataque extenso à teoria newtoniana da gravitação universal, e incluem observações sobre o problema da matéria.
    • A natureza, enquanto potência regida pela força de contração, é passada em relação ao presente, no sentido de que o tempo em que sua potência é dominante já se encerrou.
    • No presente, o poder da natureza é subordinado ao da segunda potência e torna-se relativamente passivo, funcionando como fundamento do mundo do espírito.
    • A forma presente e passiva da potência de contração é identificada com matéria ou corporeidade.
    • O ser corpóreo surge quando a força de contração recua e se torna passado, isto é, potencialidade e fundamento para formas estáveis da natureza presente que buscam expressar essência espiritual.
    • As notas não se expandem em nova versão de filosofia da natureza e oferecem menos sobre o estado presente da natureza do que a versão de 1815.
  • O discurso acadêmico sobre as divindades de Samotrácia, apresentado em 1815, é designado como suplemento ao ensaio, mas funciona como primeira aplicação da ontologia do ensaio ao estudo da história da religião, podendo ser entendido como primeira verificação empírica.
    • A investigação reúne evidência histórica e filológica sobre nomes de divindades centrais em ritos de mistério da ilha em tempos antigos.
    • A conclusão identifica derivação fenícia ou hebraica para os nomes de quatro divindades principais.
    • A relevância principal é atribuída ao significado religioso e metafísico dessas divindades, mais do que ao resultado estritamente etimológico.
    • As quatro divindades são tomadas como equivalentes de divindades familiares, e sua ordem invariável é interpretada não como série descendente de teologia emanativa, mas como série ascendente.
      • Em série ascendente, as divindades são degraus rumo ao mais alto.
      • O objetivo é uma personalidade suprema que transfigura as potências das demais.
    • A função das divindades é apresentada segundo uma ordenação em que a primeira é fome e impulso, começo do ser manifesto, a segunda é fundamento da natureza visível, a terceira é senhor do mundo do espírito, e a quarta é vínculo entre natureza e espírito e vínculo de ambos com o sobrenatural.
    • O conjunto é interpretado como anúncio ou revelação da deidade transcendente, que seria identificada com Zeus.
    • A ontologia do ensaio é tida como confirmada por estudo histórico, e esse gesto é apresentado como primeiro exemplar de um programa que se tornará vasto na filosofia da mitologia e da revelação.
  • A sequência biográfica posterior é caracterizada por longo período com poucos textos de peso, com inversão do padrão inicial de carreira, e por deslocamentos institucionais e controvérsias públicas.
    • Na juventude, o ensino é descrito como irregular e a publicação como frequente e abundante, com reconhecimento amplo.
    • Na maturidade tardia, a publicação quase desaparece e a atividade docente regular não se converte em visibilidade pública, produzindo condição de isolamento em relação a centros de debate.
    • A transição institucional passa por Erlangen, retorno a Munique com funções acadêmicas e administrativas, e reaparição pública com ataque ao hegelianismo e curso sobre história da filosofia moderna.
    • A ida a Berlim reintroduz controvérsia, com expectativa de continuação do ataque a Hegel, mas com oferta de alternativa positiva por meio de aulas sobre mitologia e revelação.
    • A cessação de aulas regulares, o recolhimento e conflitos finais incluem disputas polêmicas e processo judicial relativo a publicação não autorizada de transcrições.
    • A morte é situada em estância de saúde na Suíça, em data determinada.
  • A filosofia da mitologia e da revelação aparece como culminação da tarefa iniciada no ensaio e como segunda fase empírica da filosofia positiva, isto é, tentativa de análise abrangente da história da religião.
    • A tarefa consiste em aplicar categorias ontológicas desenvolvidas na parte dedutiva do ensaio à interpretação de fenômenos históricos concretos.
    • No plano filosófico, o projeto é apresentado como demonstração a posteriori prometida pela ontologia voluntarista.
    • No plano religioso, o projeto é apresentado como narrativa da vida de Deus revelada no e por meio do processo do mundo.
  • A exposição assume forma de história da consciência religiosa e é regida por convicção teológica específica sobre queda e restauração.
    • A raça humana é apresentada como tendo caído livremente de Deus.
    • A vida divina na história é descrita como processo de revelação e redenção orientado à restauração da humanidade à relação e consciência adequadas de Deus.
    • A orientação visa também a unidade futura de toda a criação com Deus.
    • A atividade divina na história é descrita como processo teogônico que reproduz traços do processo cosmogônico, fazendo nascer no ser temporal a reflexão viva da ordem eterna divina.
  • A mitologia constitui primeiro estágio, tempo de preparação, entendido como restauração à consciência dos constituintes do passado, e a recordação é indicada como modo de consciência apropriado.
    • Sistemas mitológicos de religiões do mundo recuperam consciência arquetípica humana das três potências da natureza divina, representando-as simbolicamente como divindades individuais.
    • A transição é identificada no judaísmo, que passa da mitologia à revelação ao realizar primeiro cumprimento da antecipação mitológica.
    • O judaísmo é caracterizado como revelação da pessoa do Pai e, por isso, como já pertencendo ao âmbito da revelação.
  • A idade da revelação é identificada com o cristianismo, entendido como aparição pessoal de Deus na história como o Filho, e o modo de consciência correlato é denominado revelação por depender de iniciativa divina.
    • O futuro é descrito como idade do Espírito, em que a atualização da vida divina na história se completa.
    • Essa conclusão é descrita como fim da história, restauração definitiva da consciência decaída e de todo o ser à comunhão com Deus.
    • A doutrina das potências como períodos é integrada à teologia trinitária, de modo que a história é tratada fundamentalmente como história da religião.
    • A história é descrita como narrativa da queda e da redenção da humanidade e, simultaneamente, como vida revelada de Deus culminando em vitória decisiva da liberdade sobre o mal.
    • A história é apresentada como expressão temporal, ou como um momento, da vida eterna de Deus.
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