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rosenzweig:estrela:1.0.1

1.0.1 Morte

ROSENZWEIG, Franz. L’Étoile de la Rédemption. Tr. Alexandre Derczanski et Jean-Louis Schlegel. Paris: Seuil, 1982

  • A filosofia nasce do medo da morte, mas recusa-se a enfrentá-lo: pretende retirar da morte o seu veneno e abandonar o corpo ao abismo enquanto a alma escapa para longe, sem dar ouvidos ao grito do Eu que se recusa a ser reduzido a um “isso” diante do aniquilamento. Todo mortal vive nessa angústia, que se multiplica a cada nascimento, pois a terra gera sem cessar o novo, e tudo o que nasce aguarda com temor o dia da passagem à escuridão.
    • A filosofia contesta as angústias da terra e foge por cima da sepultura que se abre sob cada passo, indiferente a que a angústia da morte grite Eu, Eu, Eu e rejeite a divisão entre alma e corpo. Mesmo quando o homem se encolhe como um verme nas dobras da terra nua, diante da morte cega e impiedosa, e sente que seu Eu seria um mero “isso” se morresse, a filosofia sorri seu sorriso vazio e remete a criatura trêmula para um além do qual nada quer saber.
    • O homem, porém, não quer libertar-se de vínculo algum: quer subsistir, quer viver. Exaltar a morte como oportunidade grandiosa de escapar à estreiteza da vida soa-lhe como escárnio, pois ele se sabe condenado à morte, não ao suicídio, e apenas este poderia ser coerentemente recomendado por tal exortação filosófica. O suicídio não é morte natural, mas contranatural, e a capacidade de cometê-lo distingue o homem de todos os seres conhecidos e desconhecidos, por designar uma saída de todo o natural.
    • É necessário que o homem, uma vez na vida, experimente sua terrível pobreza, solidão e desligamento de tudo o que há no mundo, encarando o nada olhos nos olhos durante uma noite inteira. Mas a terra o reclama de volta: ele não deve esvaziar o breve marrom da fiola, pois lhe está reservada outra saída para o beco do nada que não a queda no abismo. Não lhe cabe rejeitar a angústia do terrestre; deve subsistir na angústia da morte.
  • O homem deve subsistir, isto é, nada querer além do que já quer, e a angústia do terrestre só lhe pode ser retirada junto com o próprio terrestre; enquanto viver na terra, permanece nela. A filosofia o ludibria quanto a esse dever ao tecer em torno do terrestre a névoa azul da ideia do Todo, pois é evidente que um Todo não poderia morrer e que nele nada morreria, enquanto apenas o individual morre e tudo o que é mortal é solitário.
    • A exclusão do individual, do “algo”, é a razão pela qual a filosofia só pode ser idealista: o idealismo, ao negar tudo o que distingue o individual do Todo, é o instrumento com que ela molda a matéria rebelde até que deixe de resistir à névoa do conceito do Uno e do Todo. Envolvidas todas as coisas nessa bruma, a morte seria engolida, se não numa vitória eterna, ao menos na noite una e universal do nada, e a conclusão dessa sabedoria seria que a morte é nada.
    • Essa conclusão, porém, é apenas um começo: a morte não é o que aparenta, não é nada, mas um “algo” impiedoso e impossível de excluir. Mesmo de dentro da névoa filosófica ressoa ininterrupto o seu grito duro; a filosofia queria engoli-la na noite do nada, mas não lhe arrancou o ferrão, e a angústia do homem que treme diante da picada desse ferrão desmente em todo tempo a mentira compassiva que são as cruéis mentiras da filosofia.
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