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Vigny e a tradição socrática

Les Cahiers d'Hermès. Dir. Rolland de Renéville. La Colombe, 1947

Após ter administrado a extrema-unção a Alfred de Vigny moribundo, o abade Vidal, velho amigo do poeta, confiou a seus familiares: “Creio que se outro padre se apresentasse, ele (Vigny) ficaria muito surpreso e provavelmente nem o admitiria”. Ele próprio, acrescentou, só obteve do poeta a última confissão utilizando um “pretexto” — uma suposta partida — “para apressar, por assim dizer, a coisa”. Tal confidência, mais ainda que certas reticências da família, deixa pairar uma dúvida sobre a sinceridade dessa conversão ou desse exercício piedoso. E não é temerário pensar que “isso não implica uma adesão ao dogma” 1).

Quando, graças aos cuidados dos senhores Fernand Gregh e Baldensperger, revelou-se o que resta do Diário íntimo do poeta, as abundantes declarações de princípio e as meditações secretas de Vigny não deixaram mais lugar para a dúvida. Alfred de Vigny atravessara uma crise religiosa profunda e adquirira muito cedo certezas novas, anticristãs, apesar de uma tolerância cúmplice, aliás menos espiritual que política e oportunista. Subitamente, toda a sua obra poética iluminou-se sob uma nova luz, seu vocabulário místico mudou de sentido, o ceticismo zombeteiro do Doutor Negro apareceu como a expressão mal velada do ceticismo de Vigny, muito mais do que os impulsos juvenis de Stello ou o desespero de Chatterton.

E, na verdade, a inquietude religiosa, as angústias da dúvida, as certezas pagãs ou gnósticas preenchem toda a obra desde 1819, quando, após La Dryade, Symetha e Le Bain d'une Dame romaine, versos marcados por uma sutil sensualidade, Alfred de Vigny descobre o mal — La Femme adultère, Le Somnambule — e subitamente a dúvida sobre a Providência. Em 1821, aos vinte e quatro anos, ele imagina La Prison, diálogo patético entre o Homem da Máscara de Ferro, morrendo em sua prisão, e um padre vindo para confessá-lo. O homem já lança à face do céu esta acusação que orientará futuramente o pensamento do poeta:

Existe um Deus? No entanto, sofri bastante.

O espetáculo do sofrimento humano, da morte do inocente, do martírio do justo já leva o adolescente a duvidar do céu. E surge, desde 1823, toda uma metafísica, todo um sistema, composto decerto e acomodando as piores contradições, mas, para além de influências diversas, original e amadurecido: Eloa.

Eloa ou a irmã dos Anjos, mistério em três cantos, parafraseando à sua maneira a Tentação do Gênesis, narra, como se recorda, em sua linguagem simbólica, como nasceu um anjo de uma lágrima que Jesus verteu sobre o Lázaro morto, como recebeu sua consagração no céu pelos Anjos e Serafins que o adotam e pelo Espírito Santo que o anima, como recebeu o nome de Eloa, como se apieda do destino de Lúcifer, como desce à terra onde é seduzido pelo charme da harmonia das esferas e depois pelas palavras de Satã tentador e consolador dos homens. Comovido pelo relato da miséria de Satã — e da condição humana — esperando socorrer e consolar esse consolador dos humanos, Eloa consente em unir-se a ele e cai no poder daquele que, no entanto, será “mais triste do que nunca”.

Vigny deveria conceber um desfecho para a tragédia da queda, um termo para as misérias de Satã e do homem, um retorno de Eloa à sua condição primitiva e do próprio Satã. Eis, de fato, o plano de um segundo poema que ele registrou em seu Diário:

Cada vez que chegavam condenados ao inferno, Eloa chorava. Um dia em que suas lágrimas corriam assim, o anjo maldito a olha; ele não tem mais felicidade em fazer o mal. Ela o vê, fala-lhe, ele chora. Eloa sourit e eleva seu dedo para o céu, gesto que nunca se ousa fazer nos infernos.

- Qu'as-tu ? dit Satan. Qu'arrive-t-il ? Tu souris?

- Entends-tu ? entends-tu le bruit des mondes qui éclatent et tombent en poussière ? Les temps sont finis. Tu es sauvé.

Elle le prend par la main, et les voûtes de l'enfer s'ouvrent pour les laisser passer… Ils voient en passant tous les mondes s'abîmer… Dieu avait tout jugé du regard quand ils arrivèrent. Les anges étaient assis. Une place était vacante parmi eux : c'était la première. Une voix ineffable prononça ces mots :

- Tu as été puni pendant le temps; tu as assez souffert puisque tu fus l'ange du mal. Tu as aimé une fois; entre dans mon éternité. Le mal n'existe plus.

Eis, portanto, o cumprimento desse voto que o poeta de Eloa mal ousa formular, no instante em que o próprio Tentador, movido pelo relato que faz de seus infortúnios e pela lembrança de seu estado celeste, está à beira das lágrimas:

Ah! se neste momento a Virgem pudesse ouvi-lo,
Se a celeste mão que ela ousasse estender-lhe
O tivesse agarrado, arrependido, dócil ao remontar…
Quem sabe? O mal talvez tivesse deixado de existir…

Em certos aspectos, o Anjo Eloa simboliza a alma humana, Satã em parte o mundo da matéria, a condição humana; sua união simboliza a encarnação da alma no corpo, o inferno sua catividade na carne, o que os gregos exprimiam pela fórmula soma-sema: corpo-túmulo. Desde então, Eloa apresenta-se como uma estranha conciliação do pensamento cristão gnóstico e agnóstico e do pensamento antigo. Satã é o orgulho do Arcanjo castigado como no Gênesis: responsabilidade de Satã e do homem; irresponsabilidade do céu. E paralelamente, a crueldade do céu castigando — em um desígnio sobre o qual o poeta não se explica — Eloa por sua própria piedade: responsabilidade ao menos parcial do céu pela miséria da condição humana: tema que subsistirá sozinho na sequência da obra poética de Alfred de Vigny.

Segunda confusão: a intercessão da Virgem, em outros termos, a reversibilidade da falta e a eficácia do arrependimento ou do amor desinteressado (no projeto de desfecho), de um lado, e de outro, a condenação de Eloa e de Satã por terem sentido um sentimento generoso, distinção entre a piedade humana e a piedade celeste. Lá também o tema cristão cederá logo o passo ao tema pagão no pensamento de Vigny; o Deus-amor cederá ao “Deus zeloso” que já anuncia este aviso que Eloa recebe do Tentador: “Cuidado com o Deus zeloso, teu mestre”. Jeová — aquele de Moisés (1822) também — contra o Deus cristão.

Terceira contradição, mas esta, ao que parece, plenamente consciente e desejada, e muito significativa: a essência divina de Eloa relatada por estes versos:

E o Espírito Santo sobre ela derramando sua potência,
Deu alma e vida à sua divina essência.

E, por outro lado, seu nascimento de uma lágrima de Jesus e sua união ao homem no pecado. Assiste-se ao mesmo tempo a uma tentativa ainda tímida de humanização de Jesus — onde se vê despontar o tema ulterior da negação da encarnação de Deus — e de divinização da alma humana; divinização relativa, aliás, pois Eloa nunca será mais que uma irmã dos Anjos, partindo, ao que parece, de uma essência à parte. Esta divinização um pouco particular da alma humana é outro tema que, evidentemente sob a influência platônica confessada mais tarde por Vigny, preparará sua ruptura com o cristianismo. Esta visão, muito comovente por sinal, de um Jesus sofrendo não apenas a Paixão, mas até a mancha do homem e esperando com ele a redenção, aproxima o pensamento de Vigny de certos Evangelhos gnósticos ou apócrifos de inspiração hellenística que atribuem à Virgem e ao Cristo o pecado original. Prefiguração do Cristo-homem do Monte das Oliveiras.

Pois, pensemos por contraste no Fim de Satã de Victor Hugo, do qual alguns quiseram aproximar o desfecho projetado de Eloa. Segundo o poeta de A Legenda dos Séculos, uma pluma da asa do Arcanjo caído desprende-se durante a queda e dará nascimento ao Anjo Liberdade que salvará o homem. Abstraindo todas as fraquezas filosóficas do símbolo, percebe-se que Hugo não abandona a ideia cristã de um Mediador sobre-humano, nem a da essência não divina da alma.

Ora, esta humanização de Jesus que Vigny propõe tem como contrapartida — e sem dúvida como corolário — a inumanidade de Deus assinalada de passagem. Eloa é excluída do céu e prometida à queda porque tem piedade de Satã (a condição humana) e desejaria consolar: nenhum Arcanjo, nenhum Serafim, diz Eloa, “necessita daquela que consola. Dizem que há um…”. Paralelamente, o homem mergulhado no infortúnio de sua condição e Satã, seu Consolador, são implicitamente, mas irremediavelmente, condenados pelo céu, crueldade que amanhã preparará a revolta de Vigny e sua hostilidade crescente em relação ao céu e ao Deus Criador. Esta atitude já se lê nitidamente em Moïse, onde o profeta judeu serve de elo entre o céu e a terra, mas assegura, em seus sofrimentos e isolamento, que nenhuma troca é possível entre os dois mundos, que é preciso separar-se dos humanos se se quer ser o eleito de Deus, do “Deus zeloso” a quem falta esse amor que tornaria possível um vínculo entre o céu e a terra. Quando o poeta atribui ao povo esta frase: “Ele nos é estranho”, não visa apenas Moisés; visa, através do profeta, o próprio Deus. Ambos carecem desse dom supremo que Vigny exaltará em breve: a Fraternidade. Ambos carecem dos sentimentos do coração. Já se desenha a ruptura entre o céu e a terra.

Se, contudo, Vigny não tomou o partido de Satã, mesmo sob a influência manifesta de Byron, ele está, no entanto, muito próximo por instantes de confundir a obra do Criador com a do Tentador e de cair no maniqueísmo. O texto definitivo:

Tomei do Criador sua fraca criatura;
Partilhamos a Natureza apesar dele.

contém já a confissão perturbadora de um reino conjunto do homem e de Satã contra Deus, de um equilíbrio de forças que recusa a Deus não apenas a Providência, mas até uma parte da Criação. O esboço do poema é ainda mais claro:

… É o eterno teatro onde lutamos ambos…
Da grande unidade desmenti o Oráculo,
Separei minha fronte — daquelas — das frontes que estão curvadas,
E a metade dos céus, ao mestre roubados,
E meus céus insurgentes…
(rolando) (alinhados) rolados em ondas em torno de minha grande rival,
Seguiram na noite minha voz doce e real.

Não se trata, como pensa Georges Bonnefoy, de um “vulgar combate entre potência reinante e potência insurgente”, é quase o combate maniqueísta — “eterno” — do Príncipe da Luz e do Príncipe do Mundo ou Matéria, do qual o “segundo homem” — a humanidade atual — seria a obra.

É em todo caso certo que Vigny sente uma afinidade muito profunda entre “Satã” e o ser humano:

É por ter amado, é por ter salvado
Que sou infeliz, que sou reprovado.

E eis a grande afirmação: “Eu sou aquele a quem se ama”. Com Satã, o homem pode aliar-se; há entre eles uma certa identidade de essência; em todo caso, possuem em comum uma qualidade primordial. E Vigny escreverá no mesmo ano, em Le Déluge, que “Deus não faz o pacto com a raça humana”. Bonnefoy acreditou poder distinguir duas concepções de Satã em Eloa: uma falando pelo corpo, outra pelo espírito contra a encarnação que sofre no corpo. As duas qualidades parecem inseparáveis. A encarnação é o “castigo” do espírito consolador de Satã — como será o castigo da piedade de Eloa — e esse espírito consolador manifesta-se nas volúpias da carne. Toda a obra posterior de Vigny garante que estes versos não são uma simples astúcia do Tentador:

… Esse mau de quem se acusa é um consolador
Que chora sobre o escravo e o subtrai ao mestre,
Salva-o pelo amor das mágoas de seu ser;
E, no mal comum ele próprio sepultado,
Dá-lhe um pouco de charme, e às vezes o esquecimento.

mas que contêm uma verdadeira profissão de fé. Pois a aventura de Eloa em si não é, em última análise, senão uma reedição do drama que o Anjo do mal nos narra.

Assim, Satã também tende a humanizar-se totalmente e a permanecer face à divindade na mesma situação do homem: ele assume muito mais o aspecto prometéico de Lúcifer portador do fogo, o Prometeu shelleyano, do que o do Satã byroniano. Ele identifica-se ao destino do homem que, segundo a excelente expressão de Bonnefoy, se organiza em sua desgraça diante e apesar do céu. Assim, Vigny não está longe de proclamar a responsabilidade única do céu no infortúnio comum de Satã e da criação — de um céu que ele acusa já à meia-voz de carecer dessa piedade que exalta acima de tudo e de ter abandonado o mundo em seu desamparo após tê-lo criado imperfeito; a ideia essencial de decadência da raça humana sofre já um eclipse que se tornará total. Em Le Déluge, poema do mesmo ano, essas ideias aparecem com ainda mais nitidez, pois não apenas o Arcanjo assegura que “a piedade do mortal não é a dos Céus”, mas formula sobretudo esta acusação terrível em relação ao céu:

Quem criou sem amor fará perecer sem ódio.

Accusação que está exatamente no oposto do projeto de desfecho de Eloa: “Amaste uma vez; entra em minha eternidade. O mal não existe mais”. Aqui Deus toma quase a figura da Fatalidade, do Destino cego ou impiedoso — o que fora entre os gregos antes de Ésquilo, o que será em Giraudoux, cuja metafísica se assemelha em vários pontos à de Vigny. E, de fato, na sequência da obra do poeta, os Destinos e sua expressão manifesta, a Natureza, governarão impiedosamente a Criação.

Eloa foi, a bem dizer, o único encontro de Vigny com as filosofias herméticas ou pseudomísticas que, na época em que este poema foi escrito, acabavam de ser postas na moda por Joseph de Maistre e Fabre d'Olivet, Madame de Krüdener e Ballanche. Ele lhes deve — deve também à sua juventude, à sua falta de maturidade e a um resto de apego às tradições familiares, ao seu “instinto católico” — o gosto hellenístico das conciliações ou melhor, das confusões um tanto desconcertantes entre o hermetismo platônico e os dogmas cristãos, entre os símbolos bíblicos e o ideal pagão, entre as virtudes teologais e o espírito de gozo. A ideia de uma reintegração de Satã e do Espírito (Eloa) em seu estado primitivo, vislumbrada no desfecho projetado por Vigny, trai uma influência martinista que o poeta deveu sem dúvida a Joseph de Maistre; viu-se quão pouco essa concepção se concilia com o resto do poema e do projeto, quão adventícia e insincera ela parece, e quão pungentes e autênticas, ao contrário, soam as reflexões do poeta onde se exalam seu ceticismo e seu amor pela única humanidade sofredora diante do céu impiedoso. Antes que nos escritos e sistemas dos iluministas e místicos contemporâneos, Vigny encontrou esses acentos no fundo de seu coração, em meio a meditações pessoais. E sem dúvida deve-se ver também nessas tentativas ingênuas de conciliar o inconciliável — como no gnosticismo alexandrino e talvez pelas mesmas razões — a trágica aventura de uma alma que perdeu a fé e busca desesperadamente pôr em acordo as razões da inteligência e o fervor do crente. Este grito dilacerante do Tentador de Eloa:

Simplicidade do coração a quem disse adeus!
não é o grito de Vigny que não pode mais rezar?

Logo virá a hora em que, vencido o arrependimento desse fervor, começarão as longas meditações de Stello e as Consultas do Doutor Negro, das quais Vigny publicará em 1832 a primeira série e cuja segunda, obra de toda uma vida, nunca deverá ser concluída.

Vigny nunca mais será tentado pela elaboração de grandes mitos da Criação, dessas sínteses frágeis, artificiais e laboriosas, cuja vaidade terá compreendido muito cedo. Certamente, ele se perguntará sempre se uma religião estabelecida não é necessária para as multidões e se a ruína de toda religião dogmática não acarreta inelutavelmente a da moral. Ele que, em L'Almeh, medirá a impureza de todos os sistemas religiosos, suas contaminações pela fusão dos povos e civilizações, ele que não duvida mais de sua vaidade, olhando Paris do alto da Torre, em 16 de janeiro de 1831 — após o saque do arcebispado — dirá em Paris: “Quando uma mó enorme… aparecer sobre a cidade… cujos filhos terão apagado Jesus Cristo do coração como da fronte, quando a cidade embriagada de si mesma ao prazer do sangue for entregue, então o Anjo a riscará do mundo, e o Rocheiro do céu a esmagará”. Ideia que explicitará mais tarde esta nota de Daphné: “As pures maximes, as instituições virtuosas, as leis prudentes não se conservam se não estão ao abrigo de um dogma religioso”. Mas esse oportunismo não deve nos fazer duvidar da orientação anticonfessional do pensamento de Vigny.

Seus escritos testemunham que, através de flutuações numerosas e fórmulas hesitantes, o poeta romperia com os temas cristãos e desenvolveria todos os temas gnósticos e pagãos cujo traço relevamos em Eloa.

Em primeiro lugar, ele corta esse vínculo tênue que, em 1823, ainda mantinha entre céu e terra por intermédio de alguns “eleitos”. Do lado do céu, há o silêncio, o mistério impenetrável e cruel e a impiedosa fatalidade: “O Destino”, diz o prefácio de Stello, “conduz-nos aos seus fins misteriosos e frequentemente à expiação, por vias impossíveis de prever”. Se a palavra “expiação”, sob a pena de Vigny, deve surpreender, se parece ser apenas uma precaução de autor muito mais que uma influência dos iluministas — pois jamais esse tema bem conhecido dos martinistas encontrará o menor desenvolvimento na obra de Alfred de Vigny — o termo “Destino” descreverá constantemente, de novo, com o de Fatalidade, o novo céu, a nova divindade do poeta. Ele o dirá claramente em 1844 no longo poema Les Destinées. Recorda-se que esta obra descreve primeiro o antigo estado de coisas onde a Fatalidade — “os Destinos”, espécies de Erínias — reina sem partilha; onde o céu assume sozinho a “responsabilidade” das ações humanas; depois a emoção dessas Erínias no dia da vinda do Cristo, quando “todas as Nações ao mesmo tempo exclamaram: 'Ó Senhor! é verdade? o Destino morreu?'”. Os Destinos vão queixar-se ao céu:

Quem vai carregar o peso de que se apavorou
Tudo o que foi criado? esse peso sobre o pensamento,
Cujo nome embaixo é: Responsabilidade?

Qu'advient-il alors? Uma voz lhes responde:

Retornai em meu nome, Rainhas, eu sou a Graça.

O “LIVRO DE DEUS” onde “ESTAVA ESCRITO” torna-se “O LIVRO DO CRISTO”.

Vós alargastes o Colar que nos liga,
Mas quem então segura a corrente?

A corrente é a Voz misteriosa que a segura, e, se a partir de então o homem “será mais feliz, acreditando-se mestre e livre”, no entanto:

De mim nascerá seu sopro e sua força para sempre.
Seu mérito é o meu, sua lei perpétua:
Fazer o que eu quero para vir onde EU SEI.

Negação de toda revelação. L'homem nada sabe de seus fins últimos. Todos os ensinamentos das Igrejas estabelecidas são um engodo. “Nada sei de seguro”, diz o poeta de Paris, “no caos da sorte, senão dois pontos apenas, O SOFRIMENTO E A MORTE”. Nada sabemos, nada podemos saber das coisas celestes: “Por muito tempo, o mundo está na noite”. Entre o céu e a terra a ruptura está consumada; há entre os dois uma Herse, poema cujo projeto Vigny comenta assim em seu Diário de 1843, sequência prevista para Le Mont des Oliviers:

L'homem vê a inércia de Deus recusar-se a dar-lhe a conhecer a palavra do Enigma da criação e a defendê-lo da cólera desconhecida do alto que sente pairar sobre sua cabeça… Que saiba fechar as rotas insensatas à sua imaginação, e que diante dos passos dessa louca sua forte vontade faça cair a Grade.

Eis que surge uma das ideias capitais do novo Vigny: a temeridade de toda explicação do além, a inanidade de todas as supostas revelações: “Nesta violenta paixão de tudo ligar a uma causa”, diz ele ainda em Stello, “a uma síntese da qual se desce a tudo e pela qual tudo se explica, vejo ainda a extrema fraqueza dos homens”. (Ele sustentará, aliás, sempre que é o nosso desejo de um Deus pessoal que nos sugere explicações.) Nenhuma resposta virá do céu, por mais premente e fervente que possa ser nossa pergunta, inclusive a dos seres de exceção, do próprio Cristo, suplicando a Deus no Monte das Oliveiras:

Mal e dúvida! Em uma palavra, posso reduzi-los a pó:
Vós os tínheis previsto, deixai-me vos absolver
Por tê-los permitido.

A esta primeira pergunta que formula a responsabilidade de Deus, segue-se uma segunda que propõe uma solução para a miséria humana:

Tudo será revelado assim que o homem souber
De que lugares chega e para quais irá…
Por que a alma está ligada em sua frágil prisão.

Nenhuma resposta veio; apenas veio Judas. E diante desse recusa do céu, Vigny traça esta estrofe que, sob o nome Le Silence, foi pelos editores sucessivos adicionada a Le Mont des Oliviers:

Se é verdade que no Jardim sagrado das Escrituras,
O Filho do homem disse o que se vê relatado,
Mudo, cego e surdo ao grito das criaturas,
Se o Céu nos deixou como um mundo abortado,
O justo oporá o desdém à ausência
E não responderá mais senão por um frio silêncio
Ao silêncio eterno da Divindade.

É esse “desdém” que vai fundamentar toda a filosofia de Alfred de Vigny. Ele extrai as conclusões que se impõem no plano humano, neste projeto de sequência ao Monte das Oliveiras que registra em 1843 em seu Diário sob o título L'Age d'or de l'Avenir, Réponse à Eva:

Jesus nosso Senhor, filho do homem, assumiu, mas em vão, pedir a luz e a certeza a Deus. Se Deus a recusou àquele que nos representa por seus sofrimentos e sua cruz — notem estas palavras que repelem a ideia de Deus encarnado —, nosso dever é nos resignarmos à dúvida, mas nos entreajudarmos, estendermos a mão mutuamente em nossa prisão e nosso exílio. Que os homens se aproximem, portanto: que deixem para sempre o cuidado inútil dos filósofos e renunciem a penetrar um céu sempre velado.

Ao cortar assim os laços que ligavam o céu à terra, Vigny rejeita a ideia de redenção e de salvação por um Mediador, partindo da ideia de reversibilidade da falta. E não é o ponto de contato menos importante com o pensamento de Baudelaire que esta irreversibilidade; Vigny nunca perdoará Joseph de Maistre por ter combatido “esta fatale teoria de sangue teândrico, a reversibilidade” dos sofrimentos humanos, escreve em seu Diário. O próprio Cristo, cujo papel de divino mediador não tem mais sentido para ele, acaba aqui de se humanizar, testemunhando a incredulidade de Vigny quanto ao mistério da Encarnação do Filho. E todas as revelações que lhe atribuem, todas as supostas esperanças que nos trouxe ao desvelar os fins últimos e o Reino de Deus, não passam de “decepcionantes fábulas”; ilusões criadas por “nossos corações”:

Ó superstições dos amores inefáveis,
Murmúrios de nossos corações que nos parecem vozes,
Cálculos da ciência, ó decepcionantes fábulas!…
Por que para o horizonte estender-nos assim armadilhas?
Esperanças rolando como rolam as neves;
Globos sempre moldados e fundidos sob nossos dedos!

compromissos e contaminações das religiões de que nos fala L'Almeh. Nada há a esperar do lado do céu. É preciso impor silêncio às ilusões, rejeitar como simples engodos as esperanças de uma vida futura, especialmente, para o cristianismo, as esperanças de uma ressurreição na carne, isto é, de uma sobrevivência da parte mais desprezível do ser, esperanças marcadas por um mercantilismo irritante, a promessa de uma recompensa para o Justo, de um castigo para o injusto: “Diz-se sem cessar: o que é belo é a resignação corajosa e a esperança indestrutível. Não, pois a resignação tem pouco mérito em ser corajosa se crê ter, segundo sua esperança, uma recompensa eterna. O que é belo (bravo) é a resignação, a serenidade na dor, sem nenhuma esperança e apesar deste aniquilamento de toda esperança”; eis o que ele inscreve em seu Diário no Dia dos Mortos de 1861.

Assim, Vigny percebe em toda esperança metafísica um perigo grave, uma causa de enfraquecimento para o homem, um pretexto para a covardia, para a abdicação: “A esperança (de uma recompensa post mortem) torna covarde. A certeza de um destino irrevogável torna corajoso”. Que ele visa prioritariamente o cristianismo, não o esconde: “Tudo o que fortalece o homem é bom. Tudo o que o enfraquece é mau… O Cristianismo enfraquece o homem. Logo, é mau”.

Não se trata, aliás, de uma simples atitude de expectativa. O futuro do mundo e a moralidade do mundo dependem disso. “A fraqueza produz todo o mal; a força, todo o bem”. Testemunha é Juliano, o Apóstata, que, desde 1833, será o exemplo favorito de Vigny. O imperador Juliano levara o cristianismo “até o depauperamento da espécie e o aniquilamento da vitalidade do Império”. Ele “detém-se apavorado” pelas consequências da cristianização “e empreende restituir o vigor ao homem romano e ao Império”, sem, contudo, consegui-lo. É que toda religião e toda filosofia que subestima as belezas da vida terrestre mata a ação, desencoraja o homem de ação, impelindo a uma resignação passiva eminentemente nociva para a vida e a saúde dos povos. Tal é a censura maior que Vigny dirige simultaneamente ao cristianismo e ao budismo. Sem dúvida, “Buda sozinho não falou de recompensas celestes. A caridade é a alma de sua religião, a mais profunda abnegação de si mesmo, e ele nem sequer pronuncia o nome incerto de Deus”. Mas como “a absorção (nirvânica) é o sistema inteiro da natureza para os indianos”, como o mola de toda ação é assim arruinada, o budismo é mau.

Diante do céu mudo, o homem deve recusar toda religião, nada esperar de uma vida futura, ser “forte”. Sente-se quanto Vigny se aproxima do estoicismo antigo. De fato, a partir de 1834, o poeta professa uma admiração inicialmente sem reservas por Epicteto e pelos Estoicos, cujas sentenças recopia cuidadosamente. É através deles que encontra aquele que seria seu verdadeiro iniciador: Sócrates, tal como apresentado por seu discípulo Platão, cujo “Conhece-te a ti mesmo e realiza tuas ações” pontuará doravante o Diário e as meditações do Doutor Negro. Doravante, ele encerrou com toda mística; encontrará toda sabedoria na análise de si. É ao menos o que crê; pois esse desejo de uma visão interior clara — diante de um iluminismo que lhe parece ilusório — predispõe-no a receber e adotar o ensino esotérico do próprio platonismo que logo encontraremos em seus poemas.

Assim afirma-se um desenvolvimento harmonioso entre Eloa que, já, busca a ideia, o espírito desencarnado, independente, transcendendo as encarnações, e L'Esprit pur, testamento espiritual do poeta onde escreve em 10 de março de 1863: “O ESCRITO UNIVERSAL… VISÍVEL ESPÍRITO SANTO… Posso neste espelho conhecer-me a mim mesmo”. O pensamento (o escrito) transcendente no qual crê como espiritualista é a única manifestação apreensível do espírito universal: “Consolemo-nos de tudo pelo pensamento de que gozamos de nosso próprio pensamento e de que esse gozo nada pode nos arrebatar”.

Eloa-Cristo simbolizava ontem o espírito em sua “essência divina”; Vigny nunca abandonará essa concepção do espírito “puro”. Ele a inscreve em La Maison du Berger (1844), onde Deus quis criar Eva “para que se olhe no espelho de outra alma”. Eva, a mulher, é o símbolo visível do Espírito de essência divina; tal é o sentido evidente deste hemistíquio que se julgou enigmático:

O Invisível é real.

Tal é o sentido transcendente desta confissão do Diário: “Desde então, o menor buquê, a menor folha alegra a vista e o coração. Agradece-se à potência que permitiu que ela se encontrasse sob nossos passos”.

Se Vigny recusa o mistério da encarnação de Deus, se censura o Criador por ter acorrentado o espírito ou a alma ao ser de carne, ele não tem menos a clara visão do estado inviolável dessa essência, visível sob a máscara leve das formas criadas, dessa essência celeste:

O Invisível é real. As almas têm seu mundo
Onde estão acumulados impalpáveis tesouros.
O Senhor contém tudo em seus dois braços imensos,
Seu Verbo é a morada de nossas inteligências,
Como aqui embaixo o espaço é a de nossos corpos.

Que não se equivoque sobre o sentido deste vocabulário tradicional que deve ser recolocado no quadro do pensamento de Vigny. Esta identificação do Logos e da Inteligência humana ou Espírito puro, de aspecto evidentemente platônico, separa definitivamente Vigny do cristianismo. O “Senhor” — que veremos logo não ser o Deus Criador que Vigny designa geralmente pelo nome de “a Natureza” — o “Senhor” é uma espécie de fonte viva, de foco de energia espiritual de onde emanam as Ideias, em todo caso as almas humanas, e sua expressão cognoscível: o espírito. O espírito nunca perde totalmente o vínculo que o liga a esta divina Mãe durante sua passagem pela terra; ele também não se mancha ao contato do corpo, razão pela qual Vigny não concebe castigo nem recompensa após a morte do corpo, nem a necessidade de uma redenção. É o que cantam os admiráveis versos de La Flûte, cujo título e tema talvez não sejam estranhos a A Flauta Mágica:

Quanto a mim que nada sei e vou da dúvida ao sonho,
Creio que após a morte, quando a união se encerra,
A alma reencontra então a visão e a clareza,
E que, julgando sua obra com serenidade,
Compreendendo sem obstáculo e exprimindo-se sem esforço,
Como suas irmãs do céu ela é potente e rainha,
Mede-se pelo verdadeiro peso, conhece visivelmente
Que seu sopro era falso pelo falso instrumento,
Não era nem glorioso nem vil, não sendo livre:
Que o corpo apenas impedia o equilíbrio;
E, calma, ela retoma, na felicidade ideal,
A santa igualdade dos espíritos do Senhor.

Como, a partir daí, negar como se tentou a crença de Vigny em uma sobrevivência da alma? Certamente, esta sobrevivência não parece assumir para o poeta o aspecto de uma existência individual — como ocorre na concepção cristã — mas um aspecto cósmico; e é precisamente porque prega, pensa Vigny, o aniquilamento da alma que ele rejeita o budismo. Mas se esta visão cósmica da alma o aproxima singularmente de Platão, ele dele se separa novamente ao recusar toda ideia de metensomatose.

Eu disse que não devemos nos enganar sobre o sentido do vocabulário místico de Vigny em La Maison du Berger. Diante deste “Senhor” inteligível, ele coloca a cruel “Natureza”: “impassível teatro… (da) Comédia humana que busca em vão no céu seus mudos espectadores”. Ele não lhe poupa seu ódio:

Vivei, Natureza…
Mais do que todo o vosso reino e que seus esplendores vãos
Amo a majestade dos sofrimentos humanos.
Não recebereis um grito de amor de mim.

Reconheceram-se há muito tempo nesta acusação os acentos dos desafios que o poeta de La Herse e de Le Silence outrora lançara ao Deus Criador. Ele, que proclamou a inumanidade de Deus, sua crueldade, sua indiferença ao homem, aos seus sofrimentos, à sua piedade, definiu sua posição de homem perante o Criador como define aqui sua situação face à “Natureza”, reservando todo o seu amor à humanidade sofredora, todo o seu ódio a Deus e à sua imagem sensível: a Natureza. Há, no entanto, nesta identificação algo de insólito que não se pôs, creio, em evidência. Não apenas La Mort du Loup — tema dos animais que sabem sofrer sua condição e morrer sem se queixar e que têm o senso do destino impiedoso — coloca os bichos em situação análoga à do homem; mas na própria Maison du Berger, Vigny escreve imediatamente antes dos versos citados sobre a Natureza:

Eva, amarei tudo nas coisas criadas,
Contemplá-las-ei em teu olhar sonhador
Que por toda parte espalhará suas chamas coloridas,
Seu repouso gracioso, seu mágico sabor.

Assim, é muito menos a face manifesta da natureza — natura naturata, diria Espinosa — que é visada aqui pelo poeta do que as leis da criação — natura naturans — essas leis que não são outras senão o Destino perante o qual o homem se instala em sua condição miserável, mas exaltante, buscando salvar um “amor taciturno e sempre ameaçado”. Assim se esclarece a distinção entre “Senhor” e “Natureza”: “A Natureza” símbolo do Criador sobre cuja qualidade Vigny não se explica e do qual é difícil, como sublinhou judiciosamente o senhor Jean Pommier, afirmar que não é pessoal (o verso “Vivei e desdenhai, se sois deusa” testemunha em sentido contrário); por outro lado, “o Senhor”, essência eterna, fonte do Espírito, de uma absoluta pureza e inviolável. Esta celeste pureza, o poeta em suas metáforas assimila não a um Ente providencial ou demiúrgico, mas a um Corpo perfeitamente puro e translúcido, diamante ou cristal:

Diamante sem rival, que teus fogos iluminem
Os passos lentos e tardios da humana razão!

a qual é cativa do corpo de carne; ou no Post-Scriptum de Les Oracles:

O DIAMANTE? é a arte das coisas ideais,
E seus raios de prata, ouro, púrpura e azul
Não cessam de lançar os dois clarões iguais
Dos pensamentos mais belos, do amor mais puro.

Essência contudo condenada a encarnar-se em um corpo precisamente, ao que parece por um decreto das Potências de que a Destinação e a impassível Natureza são as figuras conhecidas pelo homem.

É por isso — esquecendo que condenara as religiões estabelecidas que enfraquecem a ação — que Vigny, em L'Esprit pur, seu testamento espiritual, em um ideal muito próximo ao do Platão de A República, colocará acima de todas as atividades nobres a contemplação do penseur e a busca do conhecimento de si: é o que o próprio Vigny chama de seu “aticismo”, sua morale dos fortes, suprema sabedoria socrática que descreve nesta outra estrofe de Les Oracles:

O Cristal, é a visão e a clareza do JUSTO,
Do princípio eterno de toda verdade,
L'exame de si mesmo ao tribunal augusto
Onde a Razão, l'Honra, a Bondade, l'Equidade,
A Previdência ao olho rápido e a Ciência
Deliberam em paz diante da Consciência
Que, julgando a ação, rege a Liberdade.

A Liberdade! triunfo do Espírito sobre as sujeições da carne, mas também desafio à “Natureza”, ao “Destino” que recusam audiência ao coração, à piedade, aos movimentos generosos que provocaram a queda de Eloa. Face ao “Deus zeloso” de Moïse, Vigny coloca agora

O verdadeiro Deus, o Deus forte e o Deus das ideias!
como ele diz em La Bouteille à la Mer.

Mas tomemos cuidado! Este Platonismo de Vigny não é intolerante. O Gnoti seauton socrático, única porta pela qual o espírito acede à consciência de sua condição secreta, nem todos podem atingi-lo pela via direta, pelo grande veículo reservado apenas aos “fortes”. “Adorar os santos e as santas, os anjos, os querubins, é encaminhar-se tanto quanto se tem força em direção ao ideal de Sócrates; um vai até um ponto, outro a um ponto mais elevado, cada um concebe o que pode e o melhor que pode um ideal sempre vago.” Assim, Vigny pode, sem se desmentir, reconhecer ao cristianismo uma real grandeza, uma real utilidade, nele praticando uma interpretação heterodoxa retirando o Cristo doloroso e fraternal do céu impiedoso e surdo do Monte das Oliveiras.

Mais do que isso, se ele bebeu no Banquete e no Fedro de Platão, que conheceu sobretudo por Victor Cousin, toda a teoria das Ideias e dos Espíritos encarnados, não foi em Sócrates nem mesmo na Grécia que encontrou a imagem de uma luta tão violenta entre o ser humano e a Fatalidade. Bonnefoy detectou muito finamente, de passagem, as hesitações do poeta entre o que chama de um Platonismo absoluto e um Platonismo de Satã. Há nisso, penso, uma sobrevivência dessa tendência ao maniqueísmo que eu assinalava em Eloa e que, na época, certos iluministas inscreviam mais ou menos conscientemente em seus escritos. Penso sobretudo neste fragmento do Orfeu de Ballanche (1827), cuja obra Vigny conheceu, pois Joseph Buche notou concordâncias de textos:

Que sabemos nós, enfim, se não houve sempre dois centros de direção, um da mente divina e outro da mente humana?… Acontece agora o que sempre acontece: é que se enganam sobre o centro religioso. O pensamento divino não está mais onde se acredita, e não está ainda no centro oposto. Finalmente, para completar meu pensamento, por que não acreditar em duas vontades produzindo, cada uma, um destino diferente?

Mas a originalidade do pensamento de Vigny foi ter de algum modo reabsorvido todo o aspecto mítico de tais concepções, ter concebido um satanismo sem Satã, uma fatalidade sem Deus nitidamente definido, uma liberdade visível do homem mantida em suspenso pelo Destino, que lhe recusa o conhecimento de seus fins últimos. Vigny nunca superou a acusação do sangue dos Inocentes, ainda que repita a si mesmo que a piedade humana não é a dos céus. Ele não pode evitar julgar Deus — ele pensará em escrever um poema sobre o Julgamento de Deus. E esta atitude, fruto de uma profunda e real comiseração pelo homem e seus sofrimentos, desvia-o muito cedo de um misticismo vago e o põe em guarda contra os inspirados de sua época, cuja influência ele sofre antes por a contrario. Com uma acuidade quase única em seu tempo, ele percebe as contradições e as contaminações estranhas de que se acomodam os mestres e pequenos mestres do iluminismo e pede à única razão claridades ideais que gosta de dizer áticas, mas que, de fato, são menos socráticas que platônicas.

1)
Georges Bonnefoy, La pensée religieuse e morale d'Alfred de Vigny, p. 424. Convém, no início deste trabalho, prestar uma homenagem comovida a este jovem estudioso que nos foi tirado cedo demais pela guerra e cuja admirável tese sobre Vigny marcará uma data na exegese desta obra poética.
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