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ortega:1933:12

12 Tecnicismo

XII — O TECNICISMO MODERNO. — OS RELÓGIOS DE CARLOS V. — CIÊNCIA E OFICINA. — O PRODÍGIO DO PRESENTE

1. O tecnicismo da técnica moderna difere radicalmente do que inspirou todas as anteriores e surge na mesma época que a ciência física, filho da mesma matriz histórica, ao passo que o técnico anterior, obcecado pelo resultado final desejado, não se sentia livre diante dele e buscava meios que o produzissem de uma só vez e em sua totalidade, imitando o meio a finalidade.

2. No século XVI amadurece uma nova maneira de funcionar das cabeças, que se manifesta ao mesmo tempo na técnica e na teoria mais pura, sem que se possa dizer onde começa, se na solução de problemas práticos ou na construção de ideias, e Leonardo da Vinci foi seu precursor em ambas as ordens, homem de oficina, sobretudo mecânica, que passou a vida inventando artifícios.

3. Na carta em que pede emprego a Ludovico Sforza, o Mouro, Leonardo apresenta uma longa lista de invenções bélicas e hidráulicas, pois, assim como na época helenística os grandes poliorcetas propiciaram os avanços da mecânica que culminam em Arquimedes, as guerras do fim do século XV e começo do XVI preparam o crescimento decisivo do novo tecnicismo, guerras falsas e frias, não de povos e sentimentos, mas de militares contra militares, de cabeça e punho, e por isso mesmo técnicas.

4. Por volta de 1540 estão em moda as mecânicas, palavra que então designava não a ciência, mas as máquinas e sua arte, sentido que ainda tem em 1600 para Galileu, e todos querem possuir aparelhos, úteis ou divertidos, a tal ponto que Carlos V, ao retirar-se para Yuste, leva consigo do mundo que abandona apenas relógios e Juanelo Turriano, mago dos inventos mecânicos que construiu tanto o artifício para elevar as águas a Toledo, do qual restam vestígios, quanto um pássaro automático que voava com asas de metal pelo aposento onde o imperador repousava ausente da vida.

5. Importa sublinhar o fato de primeira ordem de que a maravilha máxima da mente humana, a ciência física, nasce na técnica, pois o jovem Galileu se forma não na universidade, mas nos arsenais de Veneza, entre guindastes e cabrestantes.

6. O novo tecnicismo procede exatamente como a nuova scienza, pois, em vez de ir diretamente da imagem do resultado à busca dos meios, detém-se diante do propósito e o analisa, decompondo o resultado total nos resultados parciais de que surge em sua gênese, isto é, em suas causas ou fenômenos componentes.

7. É isso que faz em sua ciência Galileu, ele mesmo um gigantesco inventor, pois, enquanto o aristotélico buscava para o fenômeno natural em bloco uma causa também em bloco, como a virtus dormitiva para o torpor produzido pela papoula, Galileu pergunta de que movimentos elementares e gerais se compõe um movimento concreto, e nisso consiste o novo modo de operar do intelecto, a análise da natureza.

8. A união inicial e radical entre o novo tecnicismo e a ciência não é externa, mas de idêntico método intelectual, o que dá à técnica moderna independência e plena segurança em si mesma, já que não é inspiração mágica nem puro acaso, mas método, caminho preestabelecido e consciente de seus fundamentos.

9. Disso se extrai a grande lição de que o intelectual deve manejar as coisas e estar perto delas, das materiais se é físico, das humanas se é historiador, pois se os historiadores alemães do século XIX tivessem sido mais homens políticos ou homens do mundo, talvez a história já fosse uma ciência acompanhada de uma técnica eficaz para atuar sobre os grandes fenômenos coletivos, diante dos quais o homem atual se encontra, vergonhosamente, como o paleolítico diante do raio.

10. O chamado espírito é uma potência etérea demais, que se perde no labirinto de suas infinitas possibilidades e mal encontra resistência em seu voo, porque pensar é fácil demais, e por isso importa ao intelectual tocar objetos materiais e aprender no trato com eles uma disciplina de contenção, já que os corpos foram os mestres do espírito, como o centauro Quíron o foi dos gregos, e sem as coisas visíveis e tangíveis o presunçoso espírito seria demência, sendo o corpo seu gendarme e pedagogo.

11. Daí a exemplaridade do pensamento físico diante de todos os outros usos intelectuais, pois a física, como notou Nicolai Hartmann, deve sua virtude sem par a ser até agora a única ciência em que a verdade se estabelece pelo acordo de duas instâncias independentes que não se deixam subornar uma pela outra, o pensar puro a priori da mecânica racional e o puro olhar das coisas, isto é, análise e experimento.

12. Todos os criadores da nova ciência, Bacon e Galileu, Gilbert e Descartes, Huygens, Hooke e Newton, perceberam sua consubstancialidade com a técnica.

13. Desde então, em apenas três séculos, o desenvolvimento da teoria e da técnica foi fabuloso, como mostram os dados reunidos no livrinho de Allen Raymond, O que é a tecnocracia?, traduzido nas edições da Revista de Occidente, sobre o que pode hoje fazer o técnico.

14. O motor humano rende numa jornada de oito horas cerca de um décimo de cavalo, ao passo que hoje há máquinas de 300.000 cavalos de potência capazes de funcionar vinte e quatro horas por dia durante muito tempo.

15. A primeira máquina de conversão de energia distinta do mecanismo humano, a tosca máquina a vapor atmosférico de Newcomen, de 1712, desenvolvia 5,5 cavalos e chegou por volta de 1780 a 50 cavalos, quinhentas vezes a potência humana, mas sua eficiência era um onze avos da máquina humana, consumia 15,8 libras de carvão por cavalo e tinha outros defeitos energéticos e mecânicos que impediram sua adoção geral.

16. A turbina trouxe um novo tipo de conversão de energia, passando de menos de 700 cavalos nas primeiras e 5.000 na primeira instalada numa central para 300.000 nas modernas, três milhões de vezes o rendimento humano numa jornada de oito horas e nove milhões de vezes se calculado sobre vinte e quatro horas de funcionamento.

17. A primeira turbina montada numa central elétrica consumia em 1903 6,88 libras de carvão por quilowatt-hora.

18. O consumo de carvão caiu de 6,88 para 0,84 libras num período de trinta anos, o que indica a variação de rendimento ao realizar o trabalho humano por meio das máquinas.

19. O rendimento máximo da civilização do antigo Egito, supondo-lhe três milhões de habitantes, nunca excedeu 150.000 cavalos em jornada de oito horas, índice que Grécia, Roma, os Estados medievais e as nações modernas mantiveram até a época de James Watt, a partir da qual as mudanças se aceleraram até a velocidade de um foguete, varrendo a cada década desde 1800 os processos industriais e reduzindo-os a métodos antiquados.

20. A máquina de Newcomen não sobreviveu a seu século, a de Watt foi substituída antes de completar um século por outra de maior rendimento, e dos nove milhões de vezes em que se multiplicou a energia do corpo humano, um aumento de 8.766.000 vezes ocorreu nos últimos vinte e cinco anos.

21. A redução das horas de trabalho humano desde 1840 foi, no aço, o inverso da quarta potência do tempo, ainda maior nos automóveis, e enquanto na produção de lingotes de ferro uma hora de trabalho equivale hoje a seiscentas de cem anos atrás, na agricultura basta 1/3000 das horas por unidade de produto necessárias em 1840 e na fabricação de lâmpadas incandescentes uma hora equivale a nove mil horas de 1914.

22. O grau de diminuição das horas de trabalho humano por unidade de produção, tomadas em conjunto, é portanto de aproximadamente 1/3000.

23. Os fabricantes de tijolos, durante mais de cinco mil anos, nunca conseguiram em média mais de 450 tijolos por dia e por indivíduo, em jornadas de mais de dez horas.

24. Uma fábrica moderna de produção contínua de tijolos produz 400.000 tijolos por dia e por homem.

25. A exatidão desses números não é garantida, pois os tecnocratas de que procedem são demagogos e, portanto, pouco escrupulosos e precipitados, mas o que o quadro tem de caricatura e exagero apenas evidencia um fundo verdadeiro e incontestável, a quase ilimitação das possibilidades da técnica material contemporânea.

26. A vida humana, porém, não é só luta com a matéria, mas também luta do homem com sua alma, e nesse campo a Euramérica pouco tem a opor como repertório de técnicas da alma à Ásia profunda, muito superior nessa ordem, o que justificaria um curso que confrontasse as técnicas do Ocidente e as técnicas da Ásia.

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