nietzsche:gc:start

Gaia ciência

NIETZSCHE, Friedrich. Die fröhliche Wissenschaft (la gaya scienza). Chemnitz: Ernst Schmeitzner, 1882 (Segunda edição ampliada com o Quinto Livro e Canções do Príncipe Vorvogel, Leipzig, 1887). / A gaia ciência. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

Prólogo

1. A Gaia ciência, escrita na linguagem do vento que derrete a neve, com petulância, inquietude e atmosfera de abril, constitui as saturnais de um espírito que resistiu longa e friamente a uma terrível pressão e é subitamente tomado pela esperança e pela embriaguez da convalescença, júbilo da força que retorna após o deserto, a exaustão, a tirania da dor e o isolamento impostos pela náusea do Romantismo, razão pela qual merece perdão por sua tolice e desenvoltura, inclusive pelas canções em que um poeta zomba dos poetas, embora o incipit tragoedia final anuncie, na verdade, uma paródia maldosa.

2. A relação entre filosofia e saúde é das questões mais atraentes para o psicólogo, pois cada pessoa tem a filosofia de sua pessoa, que nos fracos nasce das deficiências como remédio e redenção e nos fortes é luxo de triunfante gratidão, e a experiência da doença revela que toda filosofia que põe a paz acima da guerra, concebe negativamente a felicidade, postula um estado final ou anseia por um Além é sintoma de corpos doentes que disfarçam necessidades fisiológicas sob o manto da objetividade, de modo que a filosofia até hoje talvez tenha sido apenas interpretação e má compreensão do corpo, cabendo a um futuro médico filosófico afirmar que nela nunca se tratou de verdade, mas de saúde, futuro, poder, crescimento e vida.

3. O filósofo que atravessou muitas saúdes atravessou igualmente muitas filosofias, pois filosofar é a arte de transfigurar cada estado na forma mais espiritual, sem separar corpo, alma e espírito e parindo os pensamentos com todo o sangue e paixão próprios, e a grande dor, lenta e prolongada, é a extrema libertadora do espírito e mestra da grande suspeita, que não aperfeiçoa mas aprofunda, fazendo retornar dos exercícios de autodomínio alguém que questiona mais severa e profundamente e para quem a própria vida se tornou problema, sem que isso o torne sombrio, já que ainda se ama a vida, porém de outro modo, como a uma mulher de quem se duvida, numa nova felicidade nascida do fascínio pelo problemático.

4. Dos abismos da enfermidade e da suspeita retorna-se renascido, mais maldoso e ao mesmo tempo mais infantil e refinado, com repugnância pela fruição grosseira dos homens cultos e pelo tumulto romântico, desejando uma arte ligeira, zombeteira e divinamente artificial, somente para artistas, e com o decoro de não querer ver tudo desnudado, renunciando à juvenil vontade de verdade a todo custo, pois a verdade talvez seja uma mulher que tem razões para ocultar suas razões, de modo que, como os gregos, superficiais por profundidade, é preciso adorar a aparência, as formas, os tons e as palavras e, precisamente por isso, ser artista.

nietzsche/gc/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki