Montaigne
Michel de Montaigne (1533-1592)
Fausta GARAVINI. UNIVERSALIS.
Os Ensaios de Montaigne — livro único e misterioso, retomado e modificado incessantemente durante toda uma vida — apresentam-se como uma mistura de substâncias díspares e temas desacordados, cuja natureza permanece objeto de debate crítico.
- Trata-se de um livro estilhaçado, de um novo modo de pensar que destrói os sistemas da Antiguidade para reutilizar suas ruínas, de um livro do eu que libera para o futuro a escrita da subjetividade, ou de um cruzamento inédito desses dois projetos?
- Não se pode ler os Ensaios sem retornar ao título: Montaigne “se ensaia” — se exercita, se examina.
- É indispensável que o mundo irrompa no livro e que o autor reaja a esse mundo: a política o estimula, a crítica dos costumes o intriga, a injustiça o indigna, as ideologias o provocam, as utopias o atraem.
A vida pública
Michel Eyquem nasceu no castelo de Montaigne, de família de nobreza recente, e foi criado segundo métodos pedagógicos liberais de que falará nos Ensaios — em especial no capítulo “Da instrução das crianças” (I, 26).
- Entrou aos seis anos no Colégio de Guyenne em Bordeaux e fez estudos de direito em Toulouse ou em Paris.
- Conselheiro na corte de auxílios de Périgueux e depois no parlamento de Bordeaux, ligou-se de profunda amizade a Étienne de La Boétie, que morreria em 1563.
- A pedido do pai, traduziu a Theologia naturalis de Raimundo Sebond — cuja enigmática Apologia se lê nos Ensaios (II, 12).
- Em 1565 casou-se com Françoise de La Chassaigne, filha de um parlamentar bordalês.
- Com a morte do pai em 1568, herdou nome e patrimônio; em 1571 demitiu-se de seu cargo, tratou de publicar os escritos de La Boétie e recolheu-se à sua “livraria.”
- A primeira edição dos Ensaios, em dois livros, saiu em Bordeaux em 1580.
- Em junho do mesmo ano, Montaigne empreendeu uma longa viagem à Itália pela Suíça e pela Alemanha — oficialmente para tratar a pedra que o atormentava há dois anos, mas provavelmente também para se afastar da França convulsionada pelas guerras civis, numa espécie de peregrinação humanista.
- O interesse em verificar as possibilidades de acordo entre reformados e católicos pode ter inspirado a investigação que realizou sobre a situação religiosa nos países protestantes ou de confissão mista.
- Em Roma, os Ensaios foram submetidos à censura pontifícia — Montaigne, porém, não se corrigiu na nova edição de 1582.
- O Diário de viagem que deixou, redigido inicialmente por um “secretário” de identidade desconhecida e depois por ele mesmo — em parte em italiano —, não era destinado à publicação; foi encontrado e editado em 1774.
- De volta a Bordeaux em novembro de 1581, Montaigne assumiu o cargo de prefeito que lhe havia sido conferido na sua ausência e foi reeleito dois anos depois; durante sua magistratura honesta e corajosa, exerceu o papel de mediador entre o partido do rei de França e o de Henrique de Navarra.
- Após 1586, trabalhou sobretudo na nova edição dos Ensaios (1588), acrescida de um terceiro livro e de mais de seiscentas adições aos dois primeiros.
- Numa viagem a Paris em 1588, encontrou Marie de Gournay, a quem chamou de sua “filha de aliança” e que se encarregaria da edição póstuma dos Ensaios.
- Montaigne continuou trabalhando na obra até a morte, sobre um exemplar da edição de 1588 cujas margens se cobriram de cerca de um milhar de adições.
- As edições publicadas por Marie de Gournay — da primeira (1595) à definitiva (1635), reproduzidas até o século XIX — não são fiéis ao manuscrito original, chamado exemplar de Bordeaux, que serve de base às edições modernas.
- A edição crítica que permitiria acompanhar o devir da obra em todas as suas mutações ainda está por fazer.
Ensaiar-se pela dúvida
Toda ocasião é boa para Montaigne colocar seu julgamento à prova, independentemente do objeto de que trate ou do resultado a que chegue — afirmação, dúvida ou recusa —, pois nunca pretende propor uma verdade assegurada, mas apenas um testemunho subjetivo.
- Não se compreende o interesse desse livro vertiginoso — uma das mais surpreendentes invenções literárias da idade moderna — sem entender a abordagem intelectual específica que o anima: o “ensaio” denota precisamente essa abordagem.
- O ensaio está em ato em cada capítulo, mas cada capítulo não é sempre, necessariamente, um ensaio.
- Identificando as categorias implícitas em obra, descobre-se uma forma particular de pirronismo — compreendido como filosofia da pesquisa perpétua, exercício da razão liberta de suas ilusões.
- Esse pirronismo problemático opõe-se tanto ao ceticismo negativo e à sua contestação radical e estéril do saber quanto ao dogmatismo que pretende fundar-se em verdades irrecusáveis.
- Visa conquistas que sabe sempre provisórias e sempre a superar: “Nascemos para buscar a verdade; possuí-la pertence a um poder maior.”
Política e religião
Essa atitude recebe sua definição essencial no grande capítulo da Apologia de Raimundo Sebond — defesa pretensa do teólogo catalão cuja obra Montaigne havia traduzido —, que acaba por despedaçar o antropocentrismo do autor.
- Essa posição havia sido adotada por Montaigne desde o início e governa necessariamente suas respostas às grandes questões da época nos domínios político e religioso.
- Considerado conservador por uns e revolucionário por outros, Montaigne é levado pelo relativismo pirrônico a sublinhar o arbitrário e a contingência das leis e costumes — concluindo que só conta o consenso da comunidade em que são recebidos.
- Sob esse aparente “conservadorismo” poderia covar na realidade um desejo primordial de subversão em nome da justiça: nos Ensaios — notadamente no final do capítulo “Dos canibais”, onde são relatadas as reações dos “selvagens” confrontados com a civilização europeia — transparece às vezes o fantasma da tomada do poder pelos pobres.
- A história — passada e presente — ensina a Montaigne que a revolta não é remédio para a desigualdade e que as leis, mesmo irracionais ou aberrantes, têm função reguladora e estabilizante sem a qual as sociedades somem na violência.
- Da mesma forma, a crítica das razões de crer não pode chegar à invalidação da fé: uns fizeram de Montaigne um católico fervoroso, outros o pintaram como cético ou descrente.
- Sua aventura intelectual se inscreve no período crucial da idade moderna em que a religião e os fanatismos religiosos invadem todos os setores da vida pública.
- Diante do fenômeno maior que foi a dilaceração do cristianismo latino, Montaigne avalia a complexidade dos problemas e recusa ser vítima do jogo ambíguo dos partidos; circunscreve o espaço em que seu pensamento pode se permitir certas audácias e decide interrogar apenas o visível.
- O fideísmo da Apologia subtrai os dogmas às investigações críticas: revelação e transcendência estão além das faculdades humanas.
- “Somos cristãos do mesmo título que somos perigordinos ou alemães”: essa constatação — frequentemente censurada como declaração de indiferença — significa que Montaigne leva em conta apenas a realidade social da religião cristã.
- Os Ensaios situam-se exclusivamente no plano da vida terrena.
- Nenhum aspecto da vida terrena escapa a essa reflexão que quer conhecer apenas a imanência: ela destrói os contrafortes dos discursos dominantes, abala a ordem tranquilizadora dos valores estabelecidos e nos obriga a nos considerarmos fantoches ridiculamente agarrados às suas certezas.
- Montaigne apresenta ao leitor — constantemente interpelado por formas interrogativas, apóstrofes, exortações, súbitos silêncios — não opiniões preconcebidas, mas temas de reflexão: “É por modo de conversa que falo de tudo, e de nada por modo de conselho.”
- Concebidos sob o signo do possível e do múltiplo, os Ensaios afirmam sua coerência escapando ao espartilho do pensamento sistemático e propondo a novidade radical de uma insatisfação constantemente mantida sobre as relações do indivíduo com a cultura e a atualidade de seu tempo.
Da jurisprudência ao ensaio
A abordagem dubitativa e não resolutiva dos Ensaios — avatar da epoché pirrônica — deve sua estranheza radical, como mostra André Tournon, à cultura jurídica do autor e à sua experiência de magistrado.
- Os meandros do discurso de Montaigne, suas bifurcações que fragmentam a unidade factícia ordenada pelas regras retóricas, as tomadas de distância pelas quais o pensamento se afasta de seu objeto para sondar o sentido de suas próprias operações — tudo isso encontra sua fonte primária nos procedimentos das glosas jurídicas, lugar crucial da crise do pensamento no Renascimento.
- No esforço para renovar o estudo do direito romano e adaptar o Digesto e as Pandectas às novas necessidades, os jurisconsultos deviam infirmar prudentemente a glosa tradicional apoiando-se no princípio de que toda autoridade é suspeita e pode ser reduzida a uma opinião.
- É esse exercício probabilístico, essa recusa da afirmação categórica, que Montaigne provavelmente extraiu das obras de Alciat ou de Cujas.
- Longe de refletir a vagabundagem de uma devaneio sem projeto, a “desordem” dos Ensaios acompanha o movimento de um pensamento que obedece a coerções enquanto busca e encontra meios de contorná-las: trata-se de negociar a composição entre a estrutura ideológica dominante e um discurso crítico que poderia revelar-se devastador.
- Os modos de investigação e reflexão dos Ensaios, as perturbações que atravessam a escrita de Montaigne até abalar sua armadura sintática, devem provavelmente também à mímese dos procedimentos de elaboração e exame de testemunhos que ele praticou como conselheiro na Câmara dos inquéritos do parlamento de Bordeaux.
- Examinar dossiês, analisar atas, reinterpretá-las num relatório que resume os argumentos de cada parte — tudo isso significa colocar à prova o caráter aleatório das sentenças e experimentar a confusão das controvérsias.
- Daí que Montaigne, longe de erigir um sistema ou se apresentar como porta-voz de um saber universal, só possa se apresentar como simples testemunha e propor suas ideias ao leitor como opiniões pessoais sujeitas a cautela.
O sujeito em questão
Moldado por sua atividade de magistrado, o homem que em 1571 se demite de seu cargo para se tornar escritor só pode se escrever de maneira problemática — antecipando as pesquisas atuais sobre a escrita.
- Os Ensaios dizem o mal-estar de um eu colocado entre a exigência de se fixar no livro e a impossibilidade — sancionada como recusa — de se constituir em ser estável.
- O que Montaigne se propõe não é representar o “ser”, mas descrever “a passagem… de dia em dia, de minuto em minuto”, persuadido de que “somos todos retalhos, e de uma contextura tão informe e diversa, que cada peça, a cada momento, faz o seu jogo.”
- O texto se constrói ao mesmo tempo que faz voar em estilhaços a ilusão de um eu inteiramente apreensível: a subjetividade é apenas a unidade imaginária do múltiplo, o indivíduo é apenas uma diversidade incompreensível de sujeitos instantâneos.
- “Eu agora e eu daqui a pouco somos bem dois” — eis um dos fragmentos dispersos nos Ensaios de uma espécie de “teoria do sujeito.”
- É a falta de confiança em uma identidade pessoal fixa que justifica e torna possível a “anomalia” da escrita de Montaigne: uma escrita da subjetividade que não tende a coagular o eu, mas a dissociá-lo e dispersá-lo.
- Os Ensaios não são autobiografia — não há encadeamento linear ou cronológico das ações, e Montaigne declara: “Pinto principalmente minhas cogitações, sujeito informe, que não pode cair em produção elaborada.”
- Não são diário íntimo — embora a escrita no presente se aproxime da intenção de dar conta de si “de dia em dia, de minuto em minuto”, a fidelidade ao calendário permanece excluída do texto.
- Não são autorretrato — a etiqueta não convém à obra de um escritor que repetiu obstinadamente sua incapacidade de se definir.
- A abordagem de Montaigne se aproxima mais do antiprojeto formulado por Michel Foucault em A Arqueologia do saber: “Não me perguntem quem sou e não me digam para continuar sendo o mesmo.”
- Quando Montaigne declara “Não são meus gestos que escrevo, sou eu, é minha essência”, esse “eu” tem estatuto inteiramente provisório: “Só viso aqui a descobrir a mim mesmo, que talvez serei outro amanhã, se novo aprendizado me mudar.”
- Daí também a estrutura maleável e instável da obra: Montaigne deve retomar continuamente seu livro para registrar suas mudanças, sem jamais desavovar o que foi escrito antes — testemunho insubstituível de outros momentos de sua vida com os quais se confrontar.
- Os “acréscimos” se acumulam para obedecer ao movimento reflexivo que leva o sujeito a se medir com seu ser de ontem, tentando preencher o atraso do livro sobre o ser vivo — para cercar mais uma vez a figura móvel de um eu que não poderia se dizer idêntico a si mesmo ao longo de toda uma vida.
O livro do luto
A fórmula “Não são meus gestos que escrevo, sou eu, é minha essência” não deve induzir em erro: o termo “essência” não funda de modo algum um eu transcendente.
- Ao se desfazer de seus “gestos” — isto é, da cronologia —, Montaigne se situa na acronia do inconsciente, varrendo as sombras do seu tempo biográfico e eliminando a lanterna mágica da experiência revivida e reinventada.
- Para a emergência dessa necessidade de escrever e para a formação do sujeito escritor, é preciso levar em conta o sentido dos dois lutos sucessivos que ao mesmo tempo afligem e libertam o indivíduo: a morte de La Boétie, o amigo único, três anos mais velho, que deve ter desempenhado o papel de guia espiritual; e a morte de Pierre Eyquem, o “tão bom pai” cuja apologia os Ensaios parecem celebrar.
- Montaigne reconhece ter sido empurrado a escrever por “um humor melancólico… produzido pelo pesar da solidão”; e o primeiro texto de sua lavra que se conhece é a carta ao pai sobre a morte de La Boétie.
- A morte do amigo constitui o dado essencial a partir do qual Montaigne se afirma escritor: os Ensaios são, de certa forma, o meio de continuar o diálogo com o desaparecido, a quem o livro está implicitamente dedicado.
- O primeiro livro é inteiramente construído em torno do texto que proporcionou a Montaigne o “primeiro conhecimento” de La Boétie: o Discurso da servidão voluntária, que deveria figurar em seu centro mas foi retirado porque havia sido publicado pelos protestantes de maneira tendenciosa — permanecendo, contudo, como foco virtual ao redor do qual se delineia nos Ensaios a relação fundamental com a amizade, a posse e a despossessão de si.
- A morte do pai, cinco anos depois, que certamente desempenha um papel de libertação, dá a Montaigne independência material e moral e lhe permite tomar distância de uma figura provavelmente opressora.
- Pierre Eyquem — homem prático, dotado de bom senso e qualidades administrativas, mas mediocremente culto segundo o próprio filho — encarna os papéis que Montaigne, magistrado relutante e demissionário, vai recusar, afirmando-se pelo livro no domínio da meditação e das letras.
Os monstros na biblioteca
Esse eu problemático e “melancólico” entra na escrita declarando-se “inteiramente desprovido e vazio de qualquer outra matéria” — apresentando-se a si mesmo como argumento e sujeito para “pôr em rol” as “quimeras e monstros fantásticos” que seu espírito engendra deixado “em plena ociosidade.”
- Trata-se de canalizar o fluxo caprichoso de seus devaneios para evitar a dispersão do pensamento — ou esses monstros e quimeras poderiam designar fantasmas emergindo das profundezas do inconsciente?
- O livro teria por função elaborar um discurso racional que mantenha os “monstros” à distância e vise a domesticá-los: Montaigne, esse campeão da lucidez, escreveria para descobrir o estranho que há nele — para neutralizá-lo talvez.
- A escrita dos Ensaios seria uma terapia sem fim que, reivindicando a ordem e a lógica, resiste ao estranho encanto da loucura e mobiliza contra ela o poder redentor da palavra razoável.
- Como toda escrita, a dos Ensaios é uma luta a golpes de pena contra uma inquietação essencial: Montaigne escreve para se escrever, para liquidar um mal-estar íntimo.
- Esse livro do exílio interior e do destinatário abolido encontra seu protótipo em certas práticas escriturais da Antiguidade: a epístola — como as Cartas a Lucílio de Sêneca, às quais os Ensaios poderiam ser aparentados como carta interminável endereçada a La Boétie —, as Obras morais de Plutarco, cuja liberdade de porte Montaigne tanto admira, e sobretudo os hypomnemata — cadernos em que se transcreviam citações, exemplos e reflexões pessoais ou alheias para constituir um reservatório de materiais utilizáveis para a meditação ulterior.
- Michel Foucault, em O Cuidado de si, sublinhou que se tratava de captar o já-dito, de “reunir o que se pôde ouvir ou ler, com um fim que não é nada menos que a constituição de si.”
- Na base da prática constitutiva dos Ensaios existe um processo similar de leitura-escrita-releitura do já-escrito, cuja função é formar não um corpo de doutrina, mas — seguindo a metáfora da digestão tão frequentemente usada por Montaigne — o corpo mesmo daquele que, transcrevendo leituras, as incorporou: “Não fiz mais meu livro do que meu livro me fez.”
- Albert Thibaudet chamou os Ensaios de “um livro nascido dos livros, escrito às margens de outros livros”, cheio de detritos vindos de alhures.
- Todo livro vive da tensão entre a presença invasiva do discurso alheio e a intenção de uma escrita própria e pessoal: o já-dito é o lugar de emergência do sujeito.
- “Os outros formam o homem; eu o recito” — eis o fragmento mais citado dentre todos aqueles em que esse debate está explicitamente inscrito nos Ensaios.
- A prática da citação em Montaigne constitui o indispensável estímulo externo que lhe permite atualizar seu potencial de invenção: a citação é um núcleo de energia verbal que dinamiza o texto em que se aloja para nele se modificar.
- Por esse trabalho de uma escrita que se constitui reorganizando a dos outros, os Ensaios se separam do discurso humanista e da tautologia enciclopédica do Renascimento, situando-se no versante da invenção e do imaginário.
- Montaigne declara: “Como alguém poderia dizer de mim que fiz aqui apenas um ajuntamento de flores alheias, não tendo fornecido do meu senão o fio para ligá-las. Certamente dei à opinião pública que esses ornamentos emprestados me acompanham. Mas não entendo que me cubram e me escondam: é o contrário do meu desígnio, que só quer mostrar o meu, e o que é meu por natureza; e se me houvesse acreditado, por qualquer risco, teria falado completamente sozinho.”
- Ninguém, porém — e Montaigne o sabe —, pode falar “completamente sozinho.”
O exemplum…
O grande número de citações e de exempla nos Ensaios levou muitos pesquisadores a aproximar a obra das coletâneas de “lições” que estavam na moda no Renascimento.
- Pierre Villey evocou os Adágios e Apotegmas de Erasmo, as Lectiones antiquae de Célio Rodigino, o De honesta disciplina de Pietro Crinito, a Officina de Ravisius Textor e as Epístolas douradas de Guevara — coleções de anedotas e sentenças onde se identifica a origem das numerosas histórias que pontuam os Ensaios.
- É preciso acrescentar os Apophthegmata de Conrad Lycosthenes — do qual Étienne Ithurria encontrou um exemplar coberto de anotações que poderiam ser de mão do futuro autor dos Ensaios — e o Theatrum vitae humanae, obra enciclopédica do médico e filósofo basilense Theodor Zwinger.
- Os materiais de Montaigne nem sempre são de primeira mão: “Tomei de lugares bastante outros além de suas fontes.”
- Isso não implica, porém, filiação direta dos Ensaios com essas compilações: algo muda sob a pena de Montaigne — há o trabalho do julgamento, que opera a incorporação dos materiais e a enxertia da análise crítica sobre o tecido da compilação.
- A extraordinária novidade da obra reside sobretudo nas metamorfoses pelas quais esse texto transmuta os modelos culturais do humanismo em uma escrita da subjetividade.
- Os exempla representam as ocasiões em que se verifica e diversifica a experiência, sobre a qual somente pode se fundar o raciocínio — e a experiência do que não se pode viver diretamente é feita precisamente por meio das leituras.
- Montaigne não escolhe os exemplos ao acaso: “Noto de bom grado os exemplos que me tocam.”
- A questão que perpassa cada exemplo é: que faria eu, Michel de Montaigne, em circunstâncias análogas? — interrogação que resume, no limite, toda a empresa dos Ensaios.
- “Ensaiar-se” é também colocar-se no lugar dos outros (“Introduzo-me por imaginação muito bem em seu lugar”), viver por intermédio de outrem todas as experiências que não se pode viver no cotidiano, ampliar a vida real pelas direções infinitas de suas vidas possíveis.
- Para esse probabilista pirrônico, as experiências fictícias valem tanto quanto as reais: “Acontecido ou não acontecido, em Paris ou em Roma, a João ou a Pedro, é sempre um traço da capacidade humana de que sou utilmente avisado por esse relato.”
- Pascal considerava os dois principais defeitos de Montaigne “que fazia muitas histórias” e “que falava demais de si” — mas esses dois defeitos são na verdade um só: a tendência de Montaigne a multiplicar anédotas é ainda uma forma de falar de si.
…e o fantasma
O sentido latente da escolha das anédotas não é sempre claramente entregue no texto — ao contrário, a maioria dos exemplos pode parecer perfeitamente opaca, e é justamente aí que eles revelam o sentido profundo que trabalha o sujeito.
- Quando, por exemplo, Montaigne disserta “Do falar pronto ou tardio”, por trás da argumentação sobre a eloquência aparece o problema do sujeito escritor: a obsessão de permanecer mudo, revelada pelo exemplo de um advogado incapaz de pronunciar a arenga de que havia sido encarregado.
- O rei egípcio Psamênito, o cardeal de Lorena e os outros personagens entorpecidos pela dor e incapazes de exprimi-la no capítulo “Da tristeza” representam outro medo do escritor: o pesadelo da palavra inibida.
- A obsessão pela sobrevivência do cadáver é dada a ler em “Nossos afetos se transportam além de nós”, onde Montaigne reconhece seu próprio problema no pudor obsessivo do imperador Maximiliano.
- No capítulo “Da constância”, o marquês Del Guasto e Lourenço de Médici — que se salvaram de canoneios abaixando-se — são intérpretes do diálogo que o eu prudente e temeroso de Montaigne trava com seu supereu heroico.
- Máscara ou espelho do sujeito, a anédota é o lugar onde se inscreve o fantasma do escritor: Montaigne pede emprestados os traçados das coletâneas de lições para se fazer perguntas sobre si mesmo.
- Pascal não sabia que os dois “defeitos” que apontava não eram senão um: a tendência de Montaigne a multiplicar anédotas é ainda uma forma de falar de si.
- O exemplum forma precisamente a dobradiça entre o gênero das lições e a escrita da subjetividade: nele, o sujeito se encontra e a escrita se torna engendramento de si.
- Os lugares de ancoragem mais profundos da subjetividade situam-se assim nas partes ditas “impessoais”: Montaigne não fala diretamente dos “monstros” que o obcecam, e o texto primitivo dos dois primeiros livros é frequentemente contraído, secreto, enigmático.
O livro em devir
As adições ulteriores mudam o aspecto do livro: uma força obscura faz sangrar de novo as feridas não cicatrizadas, e algo empurra Montaigne a retornar incessantemente ao texto, a intervir em certos pontos mais do que em outros.
- Os novos exemplos que o escritor acrescenta — e que às vezes não trazem nenhum elemento novo — significam que, ao se reler, se encontra às voltas com um problema não resolvido: retorna ao ponto nevrálgico não para enriquecer um repertório de anédotas, mas para continuar a inventariar — inconscientemente — seus fantasmas.
- As informações de ordem confidencial introduzidas progressivamente, os fragmentos de autodescriação física e moral, parecem muitas vezes tantas confissões que explicitam a primeira pessoa implícita na versão precedente.
- Essas inserções tendem ora a negar a sujeição do eu a uma “paixão” alienante, ora a sublinhar o esforço para dominá-la, ora a reconhecer-se vítima das mesmas coerções que os personagens da primeira versão.
- Quando Montaigne retorna ao já-escrito, deixa às vezes deslizar o que havia tentado primeiro recalcar: no diálogo do texto, do exemplum à confidência, o enigma do sujeito se dá a ler.
- As reflexões filosóficas que se desenvolvem no texto podem também ter o papel de diluir a angústia — de afogar os “monstros” do sujeito no mar da condição humana.
- Quanto ao terceiro livro, inteiramente novo, com seus treze grandes capítulos, os nós parecem se desfazer: o escritor domesticou de alguma forma seus monstros, aprendeu a viver com eles, salvou-se — e continua a se salvar — pela escrita.
- Os Ensaios tornaram-se um livro diferente: mais fluente, mais discursivo e inventivo, esplêndido, onde Montaigne se afirma como um agrimensor lúcido do caminho que conduz ao mais profundo de si.
- Esse livro inesperado — tão estranho e perturbador — é ao mesmo tempo o discurso de um eu que tenta dominar as forças obscuras: não para impor um indivíduo sem falha, mas para assegurar o domínio da razão sobre as trevas.
- Os “acréscimos” — adições aos dois primeiros livros, totalidade do terceiro e intervenções dos últimos anos — permitem ao sujeito, ao se exprimir na primeira pessoa, se distanciar das atitudes de que falou de forma “impessoal.”
- Onde o eu não intervém, o buraco negro permanece intacto: não é permitido cruzar a fronteira do desconhecido, é proibido levantar certas máscaras.
- Tudo o que está no buraco negro pertence ao “ele” — esse “ele” que recobre o “isso” dos psicanalistas —, enquanto o papel do eu é a observação, o julgamento, o olhar frio, às vezes a distância irônica ou o humor complacente.
- A escrita dos Ensaios vive desse balanço entre o “ele” e o eu, e sua aposta está nessa estratégia protetora pela qual o eu negocia o lugar de sua enunciação.
- A “pessoa” é na escrita o que nos protege de nós mesmos — a barreira que nos salva da vertigem do abandono —, enquanto a não-pessoa — o personagem de romance, na terminologia de Benveniste — é o que dá possibilidade de se dizer fora da censura social e da autocensura do sujeito.
- É uma certa maneira de ficção que permite ao Montaigne desconhecido se introduzir apesar de si nos Ensaios: o exemplum é a passagem pela qual o “outro” se introduz.
- Os Ensaios são talvez caso único: um livro assim construído em que se assiste ao desfile dos fantasmas e à emergência do eu, à sua afirmação progressiva sobre o irracional — graças à intuição e à decisão fundamental de Montaigne de fazer com que seu livro fosse “sempre um”, sem desavovar nada das redações primitivas: “Acrescento, mas não corrijo.”
- Entre a colocação em ficção e a colocação em eu, entre o impessoal libertador e a pessoa mascarada, joga-se a vida do “livro do sujeito.”
