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A CONSCIÊNCIA É UM DIÁLOGO COM O SER (1934)

VIII A consciência é um diálogo com o ser.

O ser deve ser definido como a presença absoluta.

  • Negar a presença absoluta implicaria inserir no tempo tanto o ser total quanto o ser finito, o que seria um passo ilegítimo, pelo menos se o tempo for uma determinação do ser e se for admitido que o tempo é interior ao ser e não o ser interior ao tempo.
  • O tempo é apenas a condição sem a qual o ser finito não poderia desprender sua independência, fixar seus limites e tornar-se ele mesmo o artífice de sua natureza.

Além disso, a presença total do ser já está implicada na simples experiência que o eu faz de sua própria existência.

  • Apesar da sucessão de seus estados no tempo, o eu está sempre presente a si mesmo, ou seja, ele só adquire a existência inscrevendo-se a cada instante em uma presença idêntica.

Objeção de que toda presença é mútua e supõe uma distinção entre duas formas de existência já dadas que ela depois reúne por uma relação.

  • Tentar conceber cada uma dessas formas de existência isoladamente e anteriormente à ideia de uma presença absoluta revela-se impossível.
  • A presença absoluta consiste justamente no fundamento universal de todas essas existências separadas, as quais se tornarão nela presenças mútuas, atuais e possíveis.
  • Porque o ser finito só pode representar as coisas sob a forma da diversidade, a presença absoluta deve tornar-se necessariamente para ele a onipresença, ou a presença unânime — expressão pela qual se exprime a colaboração espiritual de todos os seres particulares na manutenção do ser total, embora a atividade que eles empregam para isso, longe de emanar de cada um deles, limite-se a remontar à fonte que lhe deu origem.
  • Como a dualidade é a forma sob a qual a presença se manifesta, pode-se dizer do eu que ele é presente a si mesmo, isto é, que seus estados devem ser-lhe presentes, de modo que a vida do eu não cessa de opô-lo e reuni-lo a si mesmo.
  • Pode-se estabelecer entre o ser e suas diferentes formas a mesma relação que entre o eu e seus diferentes estados, podendo-se dizer também, em certo sentido, que o ser todo é presente a si mesmo, ou seja, considerando esse ser como formado de partes, que as partes estão sempre presentes ao todo e que o todo, embora sempre presente às partes, só pode sê-lo em potência à consciência de cada uma delas.
  • Quem meditar o sentido dessas fórmulas verá conciliarem-se nelas as exigências da lógica com os dados da experiência psicológica.

Inquietação: a presença pura, sem determinar a natureza do ser que está presente, só pode ser uma simples relação.

  • O sujeito finito constitui-se graças à relação que deve colocar ao seu alcance a natureza de um ser que ele não pode conhecer de outra maneira, mas é a presença deste que dá à relação seu verdadeiro fundamento.

Insistência: a ideia da presença absoluta não pode diferir da ideia da relação universal.

  • Concede-se que o ser se confunde com a soma de todas as relações que poderão jamais se estabelecer nele.
  • Porém, postular sua presença absoluta é sustentar que os atos vivos pelos quais todas essas relações são criadas devem pedir a ele, por um lado, o princípio de sua eficácia e de seu acordo e, por outro lado, a condição que os torna possíveis e que exige que eles nunca permaneçam em estado de simples possíveis.

Portanto, em vez de definir a consciência pela oposição do objeto e do sujeito — o que pode levar ora, com o realismo, a fazer do objeto uma realidade contraditoriamente exterior à consciência, ora, com o idealismo, a fazer dele paradoxalmente um simples estado do eu —, deve-se defini-la como um debate, um diálogo constante e infinitamente variado entre a parte individual e a parte universal da natureza humana.

  • É por esse diálogo que o ser revela ao eu sua presença, e é o próprio diálogo que faz nascer, ao opô-los e ao uni-los simultaneamente, os dois interlocutores; eles não existem antes dele, mas apenas nele e por ele.
  • Embora haja desigualdade entre eles, sendo um como mestre e o outro como discípulo, a ciência do discípulo não é diferente da do mestre: ela é ao mesmo tempo emprestada e pessoal, opondo-se à do mestre apenas por sua menor extensão.
  • É o discípulo que, em certo sentido, cria o mestre, e é a infinidade dos discípulos reais e possíveis que faz dessa ciência uma ciência universal: esta só se realiza na totalidade dos espíritos, embora cada espírito lhe seja de certo modo interior.
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