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6 Não presentável
LACOUE-LABARTHE, Philippe; LACOUE-LABARTHE, Philippe. Le Sujet de la philosophie. Paris: Aubier : Flammarion, 1979.
1. Programa
- Trata-se de literatura e filosofia.
- O programa que se seguirá aqui foi de fato esboçado por Maurice Blanchot, e esse reconhecimento não deveria surpreender ninguém, a não ser pela tendência geral contemporânea de negar compulsivamente esse tipo de dívida.
- Em um texto intitulado O Ateneu, que trata do romantismo alemão, do romantismo de Jena e da ambiguidade elusiva de sua posição e significação históricas, Blanchot cita este fragmento de um fragmento de F. Schlegel: o tipo romântico de poesia ainda está em estado de devir, e nisso consiste propriamente sua essência, que deve eternamente devir e nunca se aperfeiçoar, não podendo ser esgotada por nenhuma teoria, sendo ela só infinita e só ela livre.
- Blanchot propõe então este breve comentário: isso parece dotá-la de uma eternidade feliz e temporal, e de fato o faz, mas sob a ameaça de um desaparecimento imediato, como veremos com Hegel, que tira conclusões desastrosas dessa tendência da arte romântica a se universalizar historicamente quando decide chamar de romântica toda a arte da era cristã e, por outro lado, reconhece no romantismo propriamente dito apenas a dissolução do movimento, seu triunfo fatal, o momento de declínio em que a arte, voltando contra si mesma o princípio de destruição que está em seu centro, coincide com seu fim interminável e lastimável.
- Reconheça-se que, desde o início e bem antes das Lições sobre Estética de Hegel, o romantismo, e nisso está seu maior mérito, não ignorava que tal era sua essência.
- Este será o ponto de partida, não que se vá então dizer algo mais ou expressar algo mais por essas poucas linhas.
- Começa-se aqui porque é provavelmente aqui, nesse momento designado por Blanchot, que o que é essencial na relação entre literatura e filosofia ocorreu e foi determinado, mas talvez o tenha feito, estritamente falando, sem ocorrer e sem ser determinado.
- Porque é aqui que a questão dessa relação foi, no mesmo movimento, aberta e fechada, imediatamente levada a seu ponto de ruptura, exposta, excedida, ultrapassada, ainda que de certo modo esteja ainda por vir.
- Isso é, como sabemos, o que Blanchot repetiu incansavelmente, mas talvez seja urgente fazê-lo ouvir de novo.
- Eis então, muito esquematicamente, o programa: quando, para além de Valéry por exemplo, mas seguindo Heidegger, fazemos a questão da relação entre literatura e filosofia, quando ao menos se trata de fazer a questão da literatura para, tratando a literatura como filósofa, descartar, evadir ou desviar a suspeita sempre obscura ou paradoxalmente emergente de uma possível filiação literária da filosofia, provavelmente nada fazemos senão fazer no modo hegeliano, mas não em termos hegelianos, uma questão que Hegel mesmo nunca fez como tal.
- Uma questão que, com toda probabilidade, ele mesmo recusou fazer, ou que ele fez de tal modo que ela não equivaleria realmente a uma questão e seria resolvida de fato antes mesmo de ser propriamente estabelecida como questão.
- Esta será ao menos a hipótese, previsível embora também desconcertante: nossa questão é o eco, après coup, de uma questão nunca feita ou de uma resposta dada à ausência de uma questão, em suma, de uma questão que nunca ocorreu originariamente em lugar algum, embora esteja marcada, inscrita, legível no discurso filosófico que assim a cegou, e que é precisamente o discurso que pretende ser a soma e a verdade de todo discurso filosófico em geral.
- Esta é uma situação impossível, o que talvez não surpreenda, dado que o tópico em discussão é a literatura.
- Mais precisamente, haveria aqui uma impossibilidade incompreensível se a recusa hegeliana não fosse por sua vez a repercussão de uma espécie de questão, ou resposta, ou afirmação em todo caso, tendo como que emergido com e como o próprio nascimento da literatura.
- Tendo assim emergido, deve-se acrescentar imediatamente, no espaço inteiramente constituído, segundo a mesma lógica rigorosa do après-coup, pela repercussão da filosofia, e neste caso principalmente da poética platônico-aristotélica, já que tal afirmação surgiu no próprio centro do discurso crítico e ou estético.
- Uma afirmação no sentido de que o fim, em todos os sentidos, da filosofia é, sob qualquer nome, a literatura, um cumprimento, uma realização na qual, sem dúvida, a literatura também deve desaparecer como tal.
- Essa afirmação sem a menor autonomia, e portanto sem o menor privilégio, em relação à filosofia, é, em todos os aspectos possíveis, a do romantismo.
- Ao destruí-la, isto é, de fato, ao não mencioná-la e ao mesmo tempo opor-lhe astuta e massivamente a ideia de um cumprimento filosófico da filosofia, Hegel obviamente não estava simplesmente tentando, através de algum movimento de recuo ou medo, afastar o perigo que ela representa para salvar a filosofia.
- Ao fazê-lo, ele também recolocou claramente em seu lugar o advento da literatura, cuja lógica, que era de fato, como Blanchot indica, uma lógica de dissolução, ele basicamente levou ao limite.
- Com a ligeira diferença, no entanto, de que ele nunca deu esse passo abertamente, que nada disse nem mostrou sobre isso, e que, até certo ponto ao menos, talvez nem mesmo soubesse realmente que o estava dando.
- É certo que ele nunca deixou de exibir seu ódio ou seu desprezo pelo romantismo, que ele em larga medida dominou.
- Mas sobre a estética ou a poética do romantismo, sobre sua prática literária, parece que, a cada vez, ele evitou confrontar sua ambição maior, que, no entanto, para além dos projetos de poesia absoluta ou de nova mitologia, se dava o título do conceito de literatura, título sobre o qual se verifica que Hegel nunca soprou palavra.
- Esse assassinato furtivo, meio voluntário e quase imediato do recém-nascido pretendente, que bem poderia ter sido encenado como um obscuro caso de sucessão real, deixou, como sempre acontece, traços.
- Ou, se a metáfora do assassinato parece ao mesmo tempo demasiado ativa e demasiado brutal, e sem mencionar que seria preciso averiguar se a literatura de fato algum dia nasceu, digamos que, entre Hegel e a alquimia, a dissolução silenciosa e secreta, Auflösung, da literatura deixou um resto, um resíduo, um aborto.
- Sabe-se bem que o aborto da Obra-Prima é o fracasso dessa dissolução total que, aliás, fascinou os românticos, que nunca se fartaram de química e de menstruum universale, e que marca a transição para o orgânico, para a obra e para o vivente, para um como para o outro, para o Organon como tal.
- Poderia assim ser nessa incompletude do processo de dissolução, nessa ausência de obra, désœuvrement, se pudermos tomar emprestada a palavra de Blanchot, que devemos procurar a essência obviamente indescobrível daquilo que, estritamente falando, não podemos mais chamar de literatura, nem, com mais justificativa, de filosofia.
- Deve ter havido um aborto da literatura, e provavelmente no sentido mais literal, pois a alquimia e a química nunca foram nada além de reservas metafóricas secundárias.
- Consequentemente, para parodiar ou desviar um título famoso, que no entanto não é de modo algum alheio ao après-coup com que lidamos, o título menos errôneo que se poderia talvez dar a tudo isso seria algo como, numa tradução, O Aborto da Literatura, Filha Espiritual da Filosofia.
- Para tentar verificar e em parte cumprir esse programa, usar-se-á um exemplo, que será Lucinde, de F. Schlegel, de 1799.
- Começar-se-á perguntando, e é o mínimo que se pode fazer, o que Hegel deve ter pensado dela.
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