Godwin
Joscelyn Godwin (1945)
O que é o cosmo? Talvez a palavra evoque diante do olho interior uma visão de espaços sombrios e terríveis, de dimensões e tempos que ultrapassam a compreensão, aparições de uma beleza sobrenatural: galáxias brancas e frias, planetas de cores quentes, sóis inumeráveis. É um lugar de supremo mistério, onde a segurança relativa da terra é deixada para trás, o clima é hostil a toda forma de vida como a conhecemos e até a matéria deixa de se comportar de maneira previsível. Em suas margens espreitam as imaginações bizarras da ficção científica, aparentemente destinadas a serem gradualmente realizadas como um pesadelo que se torna real.
Este quadro do cosmo, compartilhado por tantas pessoas hoje, reflete as aspirações e os temores da humanidade moderna ao final de um ciclo mundial; e, como todas as outras épocas, esta formou sua visão de mundo amplamente à sua própria imagem: não na imagem de seu corpo físico, mas em uma imagem que reflete o que se fez da mente humana. Onde outrora portais se abriam para os céus, agora escancaram-se buracos negros, prontos para engolir tudo no esquecimento. Tal é a visão que muitos detêm sobre a morte: uma porta para a extinção da consciência. Onde outrora os anjos planetários guiavam seus carros astrais, agora forças irracionais impelem estrelas e planetas inexoravelmente à sua ruína. E a canção criativa ou palavra de Deus é reduzida lamentavelmente a um big bang.
Para os gregos, a palavra kosmos originalmente não sugeria nenhum desses fatos ou fantasias, mas antes algo ordenado, decorativo e nitidamente arranjado. Como muitas palavras de raízes antigas, ela abre uma janela para uma visão muito diferente do cosmo: aquela que o revelava como um ornamento divino. Os céus pareciam às civilizações antigas artisticamente organizados, regulares e previsíveis, agradáveis ao olho e à mente. No latim, a palavra correspondente mundus também carrega conotações de limpeza e elegância, sugerindo um estado de coisas muito distinto daquele de nosso planeta sujo e desordenado. Não apenas o universo é exatamente como foi projetado para ser, mas um fenômeno tão belo e engenhoso só pode ser obra de um artista supremo. Se o cosmo parece hostil à humanidade, isso ocorre apenas por circunstâncias especiais conhecidas pela ciência da astrologia. Que ele fosse hostil à vida — tal como a conheciam — é absurdo. Pois onde poderia a vida ser mais viva, a inteligência mais aguçada, do que na atmosfera rarefeita e sem restrições dos céus? Onde se poderia ouvir música mais bela do que aquela das esferas e de seus anjos guias, as Seirenes?
O que nossos tempos difíceis e ameaçadores necessitam, mais do que qualquer outra coisa, é de uma revolução na cosmologia: uma revisão completa da maneira pela qual as pessoas instruídas foram treinadas a considerar seu ambiente cósmico. Somente após isso podem ocorrer na terra aquelas outras mudanças pelas quais toda pessoa responsável anseia. Os autores deste livro estão cientes disso. Cada um, à sua maneira, realizou essa revolução cosmológica, e convidam o leitor a fazer o mesmo. Mas a revolução que propõem é ainda mais radical do que a de Copérnico, Kepler e Galileu, que apenas trocaram uma imagem por outra — a heliocêntrica pela geocêntrica. O que agora se exige é que ao ouvido seja novamente dada precedência sobre o olho usurpador: que o tom, e não diagramas ou palavras, seja reconhecido novamente como o reflexo mais verdadeiro da realidade, e a audição honrada como o sentido através do qual melhor se pode aprender sobre sua natureza.
Todo amante da música sabe intuitivamente que a música incorpora uma certa verdade, mas poucos vão tão longe a ponto de obedecer a essa intuição e buscar a verdade por meio da música. A maioria das pessoas aceita que a verdade pertence, por direito, à ciência, à religião ou à filosofia, enquanto as artes, vitais como são para uma vida plenamente humana, são ainda apenas questões de opinião e gosto. Propõe-se, ao contrário, tomar literalmente o dito de Beethoven de que a música é uma revelação mais elevada do que toda sabedoria ou filosofia. Consequentemente, penetrar nos mistérios da música é preparar-se para a iniciação naqueles mistérios insondáveis do homem e do cosmo. As descobertas de cada um serão repletas de implicações para todos os setores da vida: isso será evidente para qualquer pessoa que ler estes ensaios.
