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gaboriau:1962:dominio-cartesiano

1.C.32 O domínio cartesiano

32. O domínio cartesiano ou o desvio da metafísica

1. A possibilidade de restituir à metafísica uma liberdade cerceada há séculos condiciona seu destino, pois dessa libertação dependem tanto seu modo de proceder quanto o nível em que pode situar seu ponto de partida.

2. O restabelecimento do nível próprio da metafísica e a investigação de seu ponto de partida constituem problemas filosóficos cuja gênese pode ser esclarecida pelas escolhas que influenciaram a própria maneira de formulá-los.

3. A ampliação do conceito de física para além de seu sentido escolar é insuficiente para desfazer sua identificação com a ciência em geral, pois essa identificação remonta à orientação cartesiana, assimilada desde a juventude e consolidada pelo prestígio filosófico de Descartes, celebrado por Hegel como fundador do pensamento moderno e reconhecido por Husserl como precursor de sua própria investigação.

4. A longa influência da revolução cartesiana deixa em aberto a questão de sua fecundidade, pois a tentativa de fundamentar a física mediante a incorporação da metafísica subordinou esta última a uma finalidade particular e comprometeu progressivamente sua autonomia.

5. A concepção cartesiana da unidade da natureza material reúne sob a física fenômenos tão diversos quanto a luz, os meteoros, a estrutura da matéria, o funcionamento do coração e o movimento dos animais, mas conserva para esse conjunto o nome de filosofia natural, favorecendo a confusão entre física e metafísica.

6. A investigação das leis da natureza exige, na física cartesiana, o recurso à matemática, cuja aplicação se concretiza nos estudos de geometria, óptica e meteorologia que acompanham a primeira edição do Discurso do método.

7. A mesma concepção de conjunto se confirma no Tratado do homem e nos Princípios da filosofia, cujos princípios são, em sua maior parte, princípios de física.

8. A ideia cartesiana da unidade da ciência orienta a integração das investigações matemáticas e físicas em um mesmo empreendimento.

9. A interdependência das ciências é tão estreita que seu aprendizado conjunto se torna mais fácil do que o estudo isolado de qualquer uma delas.

10. A unidade da ciência, que inspira o projeto de uma matemática ou física universal, exprime-se na imagem da filosofia como árvore cujas raízes são a metafísica, cujo tronco é a física e cujos principais ramos são a medicina, a mecânica e a moral.

11. Na árvore cartesiana da filosofia, a física ocupa o centro, a metafísica lhe dá sustentação e as demais ciências a prolongam, de modo que as partes se distinguem principalmente por sua posição numa mesma ordem de dependência lógica.

12. Ao recorrer à metafísica para justificar a validade da física e da geometria, Descartes lhe atribui de antemão a tarefa de duvidar do conhecimento do mundo para fundamentá-lo, desviando-a do exame de seu objeto próprio, que é a existência em todas as suas formas, inclusive a dos objetos da física.

13. A metafísica convocada exclusivamente para fundamentar a física recebe o título de filosofia primeira embora a primazia efetiva pertença à física, cujas pretensões determinam inclusive a exigência de começar pela dúvida.

14. A investigação metafísica da existência parte do reconhecimento de que os saberes pré-científicos, as técnicas e as ciências lidam com algo que existe de algum modo, de maneira que a realidade de seus objetos pode ser graduada após o exame, ao passo que suspendê-la de saída por uma dúvida absoluta constitui uma decisão arbitrária.

15. A exigência cartesiana de uma certeza igual à das demonstrações matemáticas exclui de antemão do exame metafísico todo objeto que só possa ser conhecido por outra via.

16. A adoção da certeza físico-matemática como medida universal do conhecimento fecha o acesso ao objeto próprio da metafísica, cuja investigação pode alcançar uma certeza igualmente rigorosa por um método adequado à sua natureza.

17. Entre as ciências conhecidas, apenas a aritmética e a geometria seriam inteiramente isentas de falsidade e incerteza.

18. A extensão do método de uma única ciência a todo o domínio do conhecimento restringe o campo do investigável aos limites desse método.

19. As cadeias de razões empregadas pelos geômetras servem de modelo à hipótese de que tudo o que pode ser conhecido se encadeia segundo uma ordem dedutiva capaz de conduzir, a partir de premissas verdadeiras, até as questões mais remotas ou ocultas.

20. A coerência interna do raciocínio cartesiano preserva o arbítrio de sua premissa, pois, ao pressupor que o método geométrico pode descobrir tudo o que é real, converte os limites desse método em limites da própria realidade cognoscível.

21. Assimilado desde a adolescência e reforçado pela formação universitária, o cartesianismo converte-se em hábito de pensamento que pode levar tanto à rejeição da metafísica como supérflua quanto à sua substituição por um sucedâneo acadêmico, exercendo uma influência muitas vezes despercebida até entre correntes tão distintas quanto o idealismo, o materialismo e o existencialismo.

22. Descartes tinha plena consciência do alcance da operação pela qual preparava, nas Meditações metafísicas, a aceitação dos princípios de sua física.

23. As seis Meditações contêm os fundamentos da física cartesiana, cuja finalidade convinha manter reservada para que os leitores, sobretudo os partidários de Aristóteles, se familiarizassem com os novos princípios e reconhecessem sua validade antes de perceberem que eles derrubavam os aristotélicos.

24. A consolidação da ordem cartesiana conferiu prestígio nominal à metafísica ao mesmo tempo que reduziu seu alcance, pois o projeto de uma ciência universal concentrou-se no conhecimento e no eu pensante, aproximando a disciplina da psicologia e desviando-a do exame do ser do mundo e de suas normas existenciais.

25. A passagem das preocupações matemáticas e físicas às Regras e à elaboração de uma matemática pura e abstrata tornou mais urgente o problema do conhecimento, na medida em que se buscava aplicar às questões físicas a ordem rigorosa das cadeias dedutivas.

26. Para justificar a aplicação da análise matemática à natureza, Descartes recorre à dúvida, ao cogito e à veracidade divina como garantias da validade das ciências, atribuindo à metafísica a função de assentar os fundamentos de uma física geométrica.

27. A preparação gradual da recepção pública da física cartesiana culmina nos Princípios da filosofia, em que a primeira parte trata dos fundamentos do conhecimento sob o nome de metafísica e as três restantes expõem as leis da natureza, a composição do universo e as propriedades dos corpos.

28. A ordem cartesiana, consolidada ao longo de três séculos, condicionou os hábitos do pensamento francês ao ocupar, com a fundamentação da física, o lugar em que a metafísica poderia ter desenvolvido a investigação de seu próprio objeto.

29. Uma vez abandonadas as premissas religiosas pelas quais Descartes vinculava a justificação das ciências ao conhecimento de Deus e de si, a metafísica subordinada à física perdeu sua função e a unidade artificial do saber cedeu lugar à dispersão expressa nas sucessivas classificações das ciências.

30. Na classificação de Auguste Comte, a filosofia tem a tarefa de remediar a especialização excessiva das seis ciências fundamentais, um desdobramento que Descartes não podia prever.

31. Herbert Spencer situa a lógica no ponto mais alto de sua classificação, como a disciplina mais simples e fundamental, e considera diversos domínios da física sob a perspectiva da gênese histórica do mundo, como indicam a astrogenia e a geogenia.

32. O positivismo de Comte identifica a ciência com a positividade e faz do estágio positivo o sucessor dos estágios teológico e metafísico, consumando a exclusão da metafísica em uma concepção de ciência que conserva, sob novas formas, a primazia cartesiana da física.

33. A assimilação precoce dos hábitos cartesianos na formação escolar restringe a visão adulta do mundo a posições como o materialismo e o idealismo, ambas tributárias da mesma tradição.

34. Em outra tradição, a física abrange tudo o que está sujeito ao movimento e à transformação, a matemática investiga o domínio do quantificável e a metafísica conserva sua autonomia ao reconsiderar, sob o aspecto do ser, os objetos das ciências e dos saberes pré-científicos na medida em que existem.

35. A determinação do ponto de vista e da questão inicial que orientam o exame metafísico desses objetos permanece em aberto.

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