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PRÁTICAS FUNERÁRIAS E CONCEPÇÕES DO ALÉM NO MUNDO ANTIGO
FCLP
- Mentalidade primitiva e necessidade de sustento dos mortos
- Crença em que os mortos permanecem submetidos às necessidades dos vivos, como fome e sede, em sua nova habitação.
- Prática de depositar alimentos e bebidas no túmulo, complementada por sacrifícios periódicos para revitalizar os Mânes.
- Convicção de que oferendas queimadas ou libações vertidas são consumidas pelo destinatário defunto, utilizando-se por vezes lápides perfuradas e tubos para conduzir líquidos aos restos mortais.
- Críticas céticas a essas práticas, contrastando com a persistência evidenciada em inscrições que convidam o viajante a libar vinho.
- Significado e evolução dos sacrifícios de sangue
- Aversão primordial dos mortos, especialmente por água, para saciar sede inextinguível e revigorar humores perdidos.
- Cobiça especial das almas pelo sangue quente das vítimas, visto como sede da vida e veículo da alma.
- Origem em sacrifícios humanos para fornecer companhia (cônjuge, servos) ou montaria ao falecido na existência ultraterrena.
- Ligações com a vingança (vendetta), onde o sangue do assassino podia apaziguar a vítima.
- Substituição gradual, com o apuro dos costumes, por ritos menos bárbaros: oferenda de cabelos (como concentrado de força vital), combates de gladiadores (inicialmente lutas mortais para derramar sangue) e, finalmente, sacrifícios de animais de pelagem negra.
- Persistência teimosa da crença na necessidade de sangue fresco para os mortos, perpetuada em regiões como Síria e Armênia mesmo após a cristianização, e no ritual islâmico de imolar ovelhas sobre sepulturas recentes.
- Libações e oferendas alimentares sólidas
- Libações tradicionais de vinho, leite, mel e azeite, com múltiplas camadas de significado.
- Vinho interpretado como substituto do sangue, mas também dotado de virtude própria como licor de imortalidade nos mistérios dionisíacos.
- Mellikraton (leite e mel) visto como alimento divino ou próprio de recém-nascidos, simbolizando renascimento para vida eterna; mel associado a propriedades conservantes e apaziguadoras.
- Azeite, de planta perene, símbolo de sobrevivência da alma.
- Base fundamental dessas oferendas remonta a época em que constituíam alimentos essenciais das populações; intenção primeira de sustentar os mortos com a mesma dieta dos vivos.
- Uso mágico desses líquidos em necromancia para excitar e evocar os espíritos de seu torpor.
- Deposição de alimentos sólidos (ovos, pão, legumes, farinha, sal) sobre o túmulo para garantir sustento, frequentemente pilhados por mendigos.
- Banquetes funerários e refeições periódicas
- Instituição que afirma com tenacidade as ideias antigas sobre a vida no além-túmulo, com raízes na religião ariana.
- Primeira refeição (silicernium romano) reunindo a família após o funeral, com o defunto considerado participante ou anfitrião.
- Tabus durante o banquete: evitar palavras ofensivas, elogiar o morto, comer em silêncio por precaução, não recolher migalhas caídas (pertencentes aos espíritos).
- Repetição de banquetes em datas determinadas (ex: cena novemdialis romana, 3º, 7º e 40º dias na Grécia), com origens na pré-história indo-europeia.
- Explicações físicas materiais: morte como processo gradual ligado aos estágios de decomposição (3º, 9º, 40º dias), exigindo auxílio ao defunto.
- Explicações posteriores mais espirituais: alma permanecendo três dias junto ao corpo, iniciando então viagem perigosa até o 40º dia.
- Cristianização e reinterpretação dessas datas, com a crença popular mantendo a ideia da visita da alma à casa familiar.
- Banquetes em aniversários de nascimento e morte, e em dias festivos fixos (ex: Rosalia, Violaria).
- Disposições testamentárias e fundações para assegurar perpetuidade desses banquetes, com construção de salas de jantar (triclinia) e cozinhas nos monumentos funerários.
- Presença de assentos ou leitos reservados aos convivas, incluindo um lugar vazio para o defunto.
- Visitas e permanência longa no hipogeu como companhia consoladora para o morto, ideia criticada por filósofos como Marco Aurélio.
- Convicção de participação direta do espírito do morto na alegria e na embriaguez do banquete, confundindo-se com as orgias báquicas onde o vinho conferia imortalidade.
- Universalidade e persistência teimosa dessas práticas no Império, continuando na era cristã apesar das condenações clericais (ex: Santo Agostinho).
- Uso de plantas, flores e jardins funerários
- Associação entre sono e morte, expressa no costume de depositar o corpo sobre uma liteira de folhagem (de oliveira, louro, hera) ou de flores, imitando o leito dos vivos e simbolizando perenidade.
- Crença em que o espírito do morto não está confinado rigidamente, podendo circular próximo ao túmulo.
- Desenvolvimento de jardins funerários (cépotafos), de origem helenística/oriental, para recrear as sombras com beleza e perfume.
- Função utilitária desses jardins: produção de frutos, vinho e flores para as cerimônias, assegurando a manutenção do culto.
- Cépotafos como figura terrestre do Hades ou dos Campos Elísios, combinando preocupação religiosa e prática.
- Prática de juncar o túmulo com flores frescas, tecer grinaldas e coroas, visando agradar, honrar e revitalizar o morto.
- Preferência por flores vermelhas (violetas, rosas), imitando o sangue e revigorando a sombra, ligadas a mitos de ressurreição (Attis, Adônis, Dioniso).
- Ritos florais perdendo seu caráter de auxílio vital e tornando-se homenagem, sobrevivendo no cristianismo como expressão de piedade e consolo para os vivos.
- Oferecimento de aromas e perfumes
- Empréstimo romano ao Oriente helenístico, com uso imoderado de perfumes difundindo-se após Alexandre.
- Uso de incenso e outras essências aromáticas no culto funerário, inicialmente em funerais fastuosos de personagens ilustres.
- Profusão de gastos com aromas em cerimônias fúnebres por todo o Império.
- Fumaça aromática interpretada como alimento sutil para os deuses e espíritos, facilitando sua comunicação com os vivos.
- Cristianização do incenso como forma de honra puramente profana, depois integrada no ritual fúnebre cristão como procissão triunfal do eleito.
- Iluminação das sepulturas: lampiões, círios e simbolismo da luz
- Costume de depositar lâmpadas no túmulo para fornecer luz indispensável aos espíritos na escuridão; existência de pseudolâmpadas simbólicas.
- Renovação periódica da chama no exterior do túmulo, com concepção material de prover claridade ao morto, persistindo no folclore.
- Significados místicos e simbólicos emprestados do Oriente, especialmente do Egito: luz como proteção contra demônios e espíritos maléficos.
- Simbolismo escatológico: luz da aurora como despertador dos mortos; chama assegurando sobrevivência e imortalidade divina do espírito; iluminação como sabedoria salvífica nos mistérios.
- Persistência da crença popular na relação luz-vida até a época cristã, condenada pelas autoridades eclesiásticas como paganismo, mas depois tolerada e reinterpretada.
- Lâmpada funerária tornando-se símbolo da luz eterna onde revivem as almas bem-aventuradas; tochas em cortejos simbolizando alegria por um nascimento glorioso.
- Associação ritual entre iluminação (lychnaspia) e oferenda de flores (anthobolia), ambas com função revigorante.
- Uso de lâmpadas sepulcrais para queimar incenso, combinando luz, flores e fumigações como formas de homenagem.
- Crenças populares arcaicas sobre a necessidade de luz para o morto nunca eliminadas, transmitindo-se através dos séculos.
- Concepção arcaica do morto como ser sensível e social no túmulo
- Crença persistente, mesmo após difusão de doutrinas filosóficas e teológicas, de que um ser misterioso vive no túmulo, mantendo necessidades e sentimentos humanos.
- Morto como ser que come, bebe, dorme, circula, aprecia comodidades, guarda benevolência ou hostilidade, e permanece sociável, desejando companhia.
- Conexão não rompida com os vivos; desaparecidos misturam-se à vida familiar, comunicam-se, são visitados.
- Contraste com modernidade: túmulos romanos situados junto a estradas movimentadas para que o morto não fosse esquecido e interagisse com passantes, conforme atestam epígrafes dialogais.
- Inscrições onde o morto fala, consola, agradece, saúda, dialoga com os vivos.
- Sobrevivência de muitos usos inspirados nessas crenças (oferendas, banquetes, cuidados com o túmulo) como força da tradição, mesmo sem convicção na sensibilidade do cadáver.
- Gestos rituais tornados expressão de sentimentos íntimos e memória, mas mantendo eco da crença antiga na comunicação constante entre vivos e mortos.
- Expansão da ideia de sobrevivência para os Infernos subterrâneos
- Alargamento da crença da vida no túmulo para uma existência comum dos mortos no seio da terra, apesar da incompatibilidade lógica.
- Sepultura vista como lugar de passagem, antessala da residência definitiva no Hades; oferendas no túmulo magicamente reconfortam as sombras além do Estige.
- Comunicação do mundo subterrâneo com os vivos através de orifícios naturais (fontes termais, grutas mefíticas, crateras vulcânicas), chamados Ploutôneia ou Charôneia.
- Condição inicial dos mortos no além como triste e anêmica, conforme Homero e tradições semíticas (Aralou, Sheol).
- Concepção romana primitiva do Orcus como vasta caverna escura, com Mânes tendo vida gregária e anônima.
- Influência etrusca e, sobretudo, helênica na transformação da escatologia romana.
- Etruscos: combinação de crença no túmulo como morada e em Infernos com demônios punitivos; livros Acheruntici; combates de gladiadores como jogos fúnebres revigorantes.
- Sincretismo etrusco: arte funerária misturando mitos gregos (sacrifício de prisioneiros troianos, Polixena, Circe, evocação por Tirésias) com demônios alados etruscos.
- Recepção romana de mitos e doutrinas da Magna Grécia (influência pitagórica, órfica), via Cumas e Tarento, enriquecendo a mitologia infernal.
- Desenvolvimento da crença grega em julgamento e retribuição póstuma
- Formação gradual de uma concepção tradicional do Hades, com topografia fixa (rios Estige, Aqueronte, Cocito, Piriflegetonte; barqueiro Caronte; cão Cérbero).
- Inicialmente, nenhuma distinção por mérito, apenas existência crepuscular comum.
- Exceção homérica: suplícios eternos de Titio, Tântalo e Sísifo por crimes contra os deuses, conservando vitalidade para sofrer.
- Ampliação para um grupo tradicional de grandes criminosos legendários (Íxion, Danaides, etc.).
- Transformação fundamental operada pelo Orfismo: introdução de julgamento póstumo e retribuição moral generalizada.
- Criação de tribunal infernal com juízes (Minos, Éaco, Radamanto) que distinguem inocentes e culpados.
- Separação no além entre Campos Elísios (para os justos, transferidos para o subterrâneo) e Tártaro (para os ímpios).
- Crença na reencarnação (metempsicose) para almas passíveis de emenda; pena perpétua apenas para almas perversas e incorrigíveis.
- Visão da vida no além como prolongamento da terrestre, perpetuando ocupações, hierarquias sociais e objetos familiares.
- Antropomorfização persistente dos mortos no reino de Plutão, apesar da inconsistência com sua natureza de sombras impalpáveis.
- Concepção grega popularizada como um Estado administrado com justiça rigorosa, sob soberanos (Plutão, Prosérpina), leis e executores.
- Recepção e trivialização literária da mitologia infernal em Roma
- Difusão e banalização das fábulas infernais através da literatura latina (épica, elegíaca, lírica).
- Papel central da Eneida de Virgílio (livro VI), combinando descrição mitológica do Hades com doutrina filosófico-teológica pitagórica (metempsicose, purificação).
- Imitação e paródia do modelo virgiliano por poetas posteriores (Estácio, Silio Itálico, Claudiano).
- Uso convencional de motivos infernais na poesia elegíaca (consolações) e em epigramas fúnebres, como ornamento estilístico esvaziado de crença religiosa.
- Ausência quase total desses motivos nas inúmeras epígrafes em prosa, comprovando seu caráter de fórmula literária.
- Raridade de representações de cenas dos Infernos na escultura funerária romana; quando presentes, interpretadas como alegorias.
- Satirização e descrédito completo nos meios cultos, exemplificado por Luciano de Samósata.
- Dissociação entre a descrença na mitologia helênica pintoresca e a persistente fé popular em um reino subterrâneo dos mortos governado por deuses ctônicos.
- Evidências múltiplas da crença arraigada em um além subterrâneo: maldições em inscrições, papiros mágicos, narrativas de aparições oníricas.
- Sobrevivência, sob verniz helenístico, de concepções arcaicas em amplas camadas do Império, inclusive entre a plebe de Roma e escravos orientais.
- Corrente subterrânea de crenças ancestrais ligando a pré-história ao folclore moderno, ressurgindo no crepúsculo do paganismo e mantendo-se em doutrinas misteriosas e neoplatônicas.
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