LOGOS (1961:47-48)
O Logos é, para Heráclito, aquilo que constitui, ilumina e expressa a ordem e o curso do mundo. O logos de Heráclito — o discurso do pensador que pensa o mundo — só pode ser compreendido se entrarmos em diálogo com ele. O logos fundamenta o discurso e o diálogo e anima a dialética. O que chamamos — com muita ambiguidade — de dialética é o ritmo do logos heraclitiano, e devemos seguir esse ritmo para poder dialogar com Heráclito. A dialética pressupõe o logos, mas vamos estudá-la em primeiro lugar, porque ela nos mostra o caminho que segue o pensamento do efésio: ela é um caminho, um método. A dialética, porém, não é um simples procedimento metódico; ela estrutura a intuição que apreende a estrutura do mundo. Ela se oferece à nossa compreensão quando nos casamos com seu ritmo e nos mostra o mito se tornando logos. Nela, a poesia da visão e da palavra se encontra com o pensamento do discurso e da compreensão do mundo. Aristóteles, pensando na lógica sistemática e conceitual, considera Zenão de Eleia como o fundador da dialética 1). Mas foi Hegel quem compreendeu, o primeiro, que Heráclito compreendeu “a dialética como princípio” 2). Com seu capítulo sobre Heráclito, em suas Aulas sobre a história da filosofia, Hegel inicia o diálogo. No entanto, ele traduz o pensamento de Heráclito na linguagem de sua lógica dialética e ontológica; Hegel compreende Heráclito de forma genial, mas no horizonte de seu idealismo especulativo. Ele escreve que “Heráclito agora compreende o próprio absoluto como processo, como dialética… Nele encontramos pela primeira vez a ideia especulativa em sua forma filosófica… Ele é a conclusão da consciência anterior, uma conclusão da Ideia em direção à totalidade (que é o início da filosofia), ou a essência da ideia, que expressa o infinito, o que ele é… O absoluto é a unidade do ser e do não ser… O verdadeiro é o devir e não o ser… O entendimento (Verstand) separa o ser do não ser, a razão (Vernunft) reconhece um no outro… e assim o Todo, o absoluto, deve ser definido como devir… O infinito, o ser em si e para si, é a unidade dos contrários… Em Heráclito, o momento da negatividade é imanente… O tempo é o puro devir… o conceito puro” 3). Ora, a dialética heraclitiana não é conceitual. Ela põe em prática uma intuição fundamental dos contrários. É mais tarde que se construirá a dialética lógica que opera com as oposições dos conceitos e que engloba a lógica formal da não contradição na lógica sintética. O diálogo que Heráclito empreende com o Mundo se expressa através de pensamentos que são grandes equivalências.
