3.3 Pensamento fraco
ZABALA, Santiago; VATTIMO, Gianni. Hermeneutic Communism: From Heidegger to Marx. New York: Columbia University Press, 2011.
A hermenêutica como pensamento fraco
1. A hermenêutica, especialmente em sua versão radical, por não ser uma teoria metafísica com pretensões de descrever as estruturas estáveis do Ser apreensíveis por uma espécie de ascensão platônica, só dispõe de motivações históricas contingentes para reivindicar alguma validade razoável.
2. O niilismo nietzschiano resulta da história da metafísica ocidental resumida no capítulo de Crepúsculo dos ídolos sobre como o mundo verdadeiro acabou por tornar-se fábula, cujo fim não é um fato, mas a narração de um intérprete que está dentro dessa história e não pretende discuti-la objetivamente, percorrendo os estágios do platonismo, que pensa as coisas como ideias dotadas de certeza, ao a priori kantiano e ao positivismo, que identifica a objetividade com o resultado do experimento, até reduzir o mundo verdadeiro a produção de um sujeito, esquema que contém as análises heideggerianas da transformação da ideia de verdade, de modo que, em ambos, o fim da metafísica não é descoberta teórica, mas interpretação de uma história à qual cada filósofo pertence, equivalente à morte de Deus anunciada em A gaia ciência, em que os crentes mataram Deus obedecendo a seu mandamento de não mentir, já que a fé permitiu construir um mundo mais seguro, organizado e pacífico, no qual ela se torna uma mentira desnecessária.
3. A hermenêutica não nasceu de uma descoberta teórica, mas é resposta interpretativa ao fim da metafísica, e, sendo a interpretação envolvimento interessado, o fim da metafísica não é um fato a ser inevitavelmente aceito, mas o sentido atribuído, por interesse, às vicissitudes narradas por Nietzsche e Heidegger, lidas como dissolução da metafísica objetiva por oposição à objetividade, que torna impossíveis a história e a liberdade da existência.
4. O pensamento fraco, nome dado pela filosofia italiana recente a esse vínculo entre hermenêutica, niilismo e fim da metafísica, designava inicialmente o abandono das pretensões absolutas das tradições metafísicas, mas não podia deter-se nesse caráter crítico-negativo, assim como o niilismo de Nietzsche não podia ser apenas negativo e reativo, pois, com Heidegger, as vicissitudes da metafísica são consideradas história do Ser a ser interpretada como processo de enfraquecimento de absolutos, verdades e fundamentos, de modo que o pensamento fraco se torna uma teoria (forte) do enfraquecimento como sentido interpretativo da história, sentido que se revela emancipatório pelos inimigos que atrai, já que o pensamento fraco só pode ser o pensamento dos fracos e jamais das classes dominantes, que sempre trabalharam para conservar inquestionada a ordem estabelecida do mundo.
5. Os defensores do realismo metafísico, diante da condição pós-moderna em que princípios, absolutos e dogmas são criticamente questionados, tendem a reduzir sua diferença política a uma diferença cultural de segunda ordem, ao passo que para os pensadores fracos o debate filosófico pode tornar-se luta política, apoiada não em mais um sistema de pensamento, mas no pensamento fraco, isto é, na ideia da impossibilidade de superar a metafísica aliada à capacidade de viver sem legitimações nem valores fundantes, razão pela qual Charles Taylor afirmou que, para romper o encanto de um racionalismo moral estreito cuja suposta força oculta uma fraqueza fundamental, é preciso admitir a plena debolezza, a fraqueza, do pensamento.
6. O pensamento fraco permite à filosofia corresponder à dissolução da metafísica por meio da hermenêutica e buscar novos objetivos nas possibilidades da condição lançada do ser humano, redirecionando a humanidade da compreensão do eterno para a interpretação de sua própria história, e a conotação negativa do termo fraco não alude a um fracasso do pensamento, mas às consequências da transformação do pensamento produzida pelo fim da metafísica e, portanto, a uma possibilidade de emancipação, sendo uma teoria muito forte da fraqueza na qual as conquistas do filósofo derivam não do reforço do mundo objetivo, mas do enfraquecimento de suas estruturas, sem jamais tornar-se forte, pois sempre haverá estruturas a enfraquecer, sujeitos a psicanalisar, crenças a secularizar e governos a democratizar, de modo que sua fraqueza não se opõe a um pensamento forte nem resulta de uma descoberta, mas exprime a consciência da condição pós-moderna.
7. Schürmann, Lyotard e Rorty, embora tenham exposto de modos muito diversos o antifundacionismo pós-moderno, pertencem à koiné hermenêutica na qual a legitimação dos fundamentos é substituída por uma hermenêutica antifundacional e podem ser considerados inspiradores do pensamento fraco no fim dos anos 1980, pois Schürmann identificou a ausência de fundamentos para a ação prática após a metafísica, Lyotard definiu a condição pós-moderna e Rorty expôs a conversação, em lugar da verdade, como fio condutor ético, intuições que se tornaram referências essenciais para o pensamento fraco e para os fracos em geral, já que, se a existência é interpretação, os seres humanos devem aprender a viver sem legitimações e valores fundantes, o que impõe a questão de como pensar sem fatos, objetos e verdade e de se é possível uma política sem verdade.
8. Schürmann, em Heidegger on Being and Acting: From Principles to Anarchy e em Broken Hegemonies, mostrou que até agora se viveu seguindo fundamentos e paradigmas, pois cada época foi guiada por princípios legítimos e legitimadores tidos por imutáveis, mas as épocas, como Grécia, latinidade e modernidade, criaram princípios distintos, como o uno, a natureza e a consciência, que legitimaram novas práticas, como religiões, ciência e psicologia, impróprias no passado, de modo que a metafísica ocidental se torna uma sucessão de princípios epocais hegemônicos, como mostra o Partenon, presente de modos epocalmente distintos quando os rapsodos preparavam as Panateneias, quando serviu de igreja bizantina, quando os turcos o usaram como paiol e hoje, como mercadoria turística que a UNESCO planeja proteger da poluição com uma cúpula de plástico, cada modo de presença com traços finitos, imprevisíveis e incontroláveis e com o desaparecimento irremediável de cada fisionomia epocal.
9. A consciência atual dessa alternância de épocas não decorre, para Schürmann, da descoberta teórica de outra estrutura do Ser até então desconhecida, que apenas legitimaria novo princípio, mas da assunção existencial da ausência de fundamentos que constitui o fim da metafísica delineado por Nietzsche e Heidegger, sentido da anarquia presente no título de sua obra, já que as economias do Ser, isto é, a substituição de velhos princípios por novos, não seguem um curso racional na história, mas um curso anárquico.
10. Identificados o mecanismo dos princípios fundantes e sua ausência, resta saber o que fazer, e como a veia anárquica da hermenêutica não implica ausência de todas as regras, mas de uma regra única capaz de guiar todas as práticas, na falta de princípios metafísicos últimos só se pode viver mediante a aquisição de uma disposição existencial anárquica, desacostumando-se de viver segundo legitimações e valores fundantes, condição para que o pensamento seja praticado num mundo pós-metafísico ou pós-moderno, razão pela qual, para Schürmann, perguntar hoje o que devo fazer é falar no vazio do espaço abandonado pelas sucessivas representações de um fundamento inabalável, e Lyotard e Rorty indicam como é possível viver sem legitimações e quais oportunidades daí decorrem.
11. Encarregado nos anos 1970 pelo governo do Quebec de redigir um relatório sobre o saber, Lyotard produziu A condição pós-moderna, um dos textos filosóficos mais discutidos do último meio século, expondo as inovações filosóficas de uma expressão que Ihab Hassan usara em 1976 para designar a condição social da civilização ocidental, e delineando indiretamente a condição do pensamento fraco e sua diferença em relação à época moderna e metafísica, indo além de Schürmann, que se limitou a mostrar por que se entrou nesse fundamento abalável, ao descrever a condição que esse novo solo impõe ao pensamento.
12. A modernidade legitimou suas normas não por princípios, mas por metanarrativas, mitos fundadores apresentados como narrativas globais como o positivismo, o marxismo e o hegelianismo, que na pós-modernidade entraram em falência não por deixarem de existir, mas pela perda de interesse nelas após os avanços tecnológicos do pós-guerra, já que a tecnologia da comunicação, como troca de notícias e possibilidade de deslocamento de massas inteiras, multiplicou vertiginosamente as perspectivas e pôs fim às ideias da história como desenvolvimento rumo à emancipação social e do saber como progressão rumo à verdade, em favor de uma pluralidade de interpretações que culmina na Internet, de modo que, não podendo mais legitimar o pensamento como progresso rumo à verdade, o próprio conceito de verdade se enfraquece em suas interpretações, tornando impossível conceber os acontecimentos humanos como orientados a um fim e realizar um programa racional de aperfeiçoamento.
13. Para explicar a nova condição pós-moderna da verdade, Lyotard recorreu aos jogos de linguagem do segundo Wittgenstein, segundo os quais a realidade não é descrita por uma teoria abrangente, mas por uma pluralidade de jogos, nos quais o caráter antifundacional da hermenêutica se evidencia, pois suas regras não trazem em si a própria legitimação, mas dependem de um contrato, explícito ou não, entre os jogadores, sem regras não há jogo e a menor modificação de uma regra altera sua natureza, de modo que todo enunciado deve ser pensado como um lance num jogo.
14. O uso lyotardiano dos jogos de linguagem tem motivação política, pois representa o estatuto do saber na pós-modernidade e a pluralidade de verdades que essa sociedade pressupõe, já que, substituindo-se regra por verdade, a verdade deve respeitar a contingência dos processos de que trata, implicando cada jogo uma verdade diferente incapaz de deslegitimar os demais, o que tem profundo alcance político, pois a política já não pode fundar-se em representações exatas da realidade, mas em eventos singulares e diferentes irrepresentáveis por uma teoria racional, evidenciando o projeto político revolucionário da hermenêutica e fazendo de Lyotard um dos pioneiros do apelo emancipatório da interpretação.
15. A depreciação das grandes narrativas por Lyotard foi acolhida pelas minorias políticas, culturais e intelectuais por exigir que a diferença seja princípio a seguir e não a rejeitar e indício de civilização, já que essas minorias sempre foram marginalizadas pela política racional com base em sua diferença, convertida em fator de discriminação, e se a diferença de cada jogo linguístico deve ser incorporada e tornar-se objetivo da organização social, a conversação substitui a verdade para lidar com a pluralidade de jogos, permitindo abandonar as grandes narrativas modernas que explicavam a totalidade das práticas sociais pela conformidade a um padrão universal mesmo diante de culturas diferentes, e embora muitos vissem na conversação a ruína das hierarquias intelectuais e morais em favor do relativismo, Rorty a viu como reforço das possibilidades de libertação dessas hierarquias, pois não há posição fora dos jogos de linguagem historicamente situados a partir da qual distinguir mente e mundo.
16. Rorty demonstrou que a filosofia analítica anglo-saxã é um dos últimos suspiros das filosofias descritivas e que as filosofias realistas analítica e continental são teoricamente responsáveis por limitar as ambições democráticas de liberdade mediante a imposição epistemológica da verdade e do liberalismo estatal, razão pela qual, em A filosofia e o espelho da natureza, após mostrar que a filosofia analítica era condicionada pelo desejo de imitar as ciências naturais e sua agenda técnica, viu na filosofia hermenêutica a expressão da esperança de que o espaço cultural deixado pelo declínio da epistemologia não seja preenchido, tornando-se um dos primeiros defensores do pensamento fraco hermenêutico, que não pretende preencher espaço algum, mas promover a descoberta de diferentes interpretações, pois, como ensinam Nietzsche e a hermenêutica, não se precisa de um novo método, mas de desconfiança em relação à própria ideia de método e a todos os conceitos, inclusive os próprios, que devem ser pensados como ferramentas e instrumentos de resolução de problemas, e não como imagens ou fundamentos firmes para criticar quem usa conceitos diferentes.
17. Após a desconstrução da metafísica por Nietzsche, Heidegger e Derrida, o conhecimento não pode ser adquirido decidindo quais proposições são verdadeiras e quais falsas, mas apenas pela conversação, que se tornou o contexto último no qual o conhecimento deve ser compreendido, mudança de paradigma da verdade para a conversação exigida por Rorty pelas mesmas razões éticas que levaram Nietzsche e Heidegger a superar a metafísica, pois ver como fim da filosofia a verdade sobre os termos que fornecem a comensuração última de todas as investigações e atividades humanas é ver os seres humanos como objetos e não como sujeitos, de modo que sua principal operação filosófica consistiu em extrair todas as consequências do abandono da verdade como representação mental ou linguística da realidade, convidando a substituir a filosofia como espelho da natureza por uma filosofia hermenêutica edificante que guie, projete e mantenha a conversação da humanidade.
18. Nada legitima ou fundamenta as práticas humanas, pois nada mostra que estejam em contato com o modo como as coisas são, e por isso é mais produtivo aceitar como justificadas as práticas acordadas pela comunidade epistêmica, tomando decisões práticas com base na história, na educação e na experiência e não na verdade ou em princípios, que sempre estiveram além da justificação humana como matrizes metafísicas que pressupõem a chegada a um fim, seja vida eterna, justiça ou riqueza, fins que, como ensina Nietzsche, não existem e são apenas projeções de uma humanidade insegura em busca de garantias extremas, ao passo que as justificações humanas finitas são sempre relativas a uma comunidade de jogo de linguagem, na qual reside a possibilidade de tornar-se contingência histórica comprometida com a liberdade e não com a verdade, razão pela qual a ética de Rorty depende de uma concepção fraca da moralidade, não como conjunto de obrigações incondicionais impostas por autoridade divina ou quase divina, mas como algo montado por um grupo que tenta ajustar-se às circunstâncias e alcançar objetivos por esforços cooperativos, humildade que favorece a tolerância para com outras intuições e a disposição de experimentar modos de reformulá-las ou substituí-las.
19. Rorty, Schürmann e Lyotard encontraram no pensamento fraco hermenêutico uma ética sem princípios e uma política sem verdade, para as quais o verdadeiro liberalismo só é possível quando se concede aos seres humanos liberdade infinita para sua própria recriação, de modo que uma sociedade tolerante é aquela cujas conquistas se determinam pela pluralidade de conversações entre diferentes comunidades linguísticas e não pela imposição de um Estado liberal, como na invasão do Iraque, o que só se torna possível quando se abandonam as normas legitimadoras, as crenças fundacionais e os princípios tradicionais que asseguravam o vínculo entre a certeza racional e a Verdade, a Natureza ou Deus.
20. A principal acusação dirigida ao pensamento fraco hermenêutico é a de sustentar uma política sem verdade, isto é, relativismo, mas o relativismo da interpretação favorecido pela pós-modernidade não implica acumulação progressiva de pontos de vista, e sim a impossibilidade de declarar de uma vez por todas a primazia de uma interpretação sobre as demais, pois a preferência por uma interpretação não depende de algo externo capaz de garantir sua objetividade, mas da recordação positiva de suas premissas, isto é, da história que a produziu, e esse relativismo não pode ser absoluto, já que o pensamento fraco se opõe a toda pretensão de absoluto, inclusive a um relativismo absoluto que se traduziria em opressão política, razão pela qual o real ainda existe para a hermenêutica, mas apenas dentro de paradigmas, como explicou Kuhn, sendo sempre possível estabelecer se uma interpretação ou proposição é verdadeira ou falsa, mas apenas dentro de uma condição histórica, de uma disciplina científica ou de uma época política.
21. O pensamento fraco hermenêutico é o pensamento dos fracos, dos que não se satisfazem com os princípios estabelecidos que lhes são impostos e exigem direitos diferentes, isto é, outras interpretações, e nessa política da interpretação a conversação torna-se o espaço em que os poderosos descritores do mundo podem ouvir as reivindicações dos fracos e talvez mudar suas prioridades egoístas, mas, se não ouvirem, os fracos podem hoje finalmente unir-se, como talvez Rorty tenha antevisto ao afirmar que o importante no governo democrático representativo é oferecer aos pobres e fracos um instrumento contra os ricos e poderosos, sobretudo contra a crueldade inconsciente das instituições que os poderosos lhes impuseram.
