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starobinski:1957:2

2 Sociedade

STAROBINSKI, Jean. Jean-Jacques Rousseau: La transparence et l'obstacle. Paris: Plon, 1957 (Edição definitiva revista e ampliada, com sete ensaios adicionais: Paris: Gallimard, 1971, Coleção Bibliothèque des Idées).

CRÍTICA DA SOCIEDADE

1. Rousseau situa-se entre os escritores de seu século que contestam os valores e as estruturas da sociedade monárquica, e a contestação cria entre esses autores uma semelhança e um ar de fraternidade que os torna, a algum título, agentes ou anunciadores da próxima Revolução, explicando a reconciliação póstuma de Rousseau e Voltaire e sua comum apoteose.

2. Rousseau quer apreender o princípio do mal e põe em causa a sociedade e a ordem social em seu conjunto, remontando a uma causa geral que o dispensa de atacar isoladamente tal abuso particular, tal usurpação ou tal impostura, pois é por demais egocêntrico para assumir o papel de defensor dos oprimidos.

3. Rousseau observou uma discordância entre os atos e as palavras dos homens, explicou essa diferença pela distinção entre o ser e o parecer e buscou-lhe a causa na ordem social que, sendo contrária à natureza que nada destrói, tiraniza-a continuamente e a faz exigir sem cessar seus direitos.

4. A contestação diz respeito à sociedade enquanto esta é contrária à natureza, e essa sociedade negadora da natureza não suprimiu a natureza, mantendo com ela um conflito permanente de onde nascem os males e os vícios de que sofrem os homens.

5. A crítica de Rousseau esboça uma negação da negação ao acusar a civilização, cuja característica fundamental é sua negatividade em relação à natureza, pois as falsas luzes da civilização velam a transparência natural, separam os homens, particularizam os interesses e substituem a comunicação essencial das almas por um comércio factício e desprovido de sinceridade.

6. Constitui-se assim uma sociedade em que cada um se isola em seu amor-próprio e se protege atrás de uma aparência mentirosa, num paradoxo singular que faz de um mundo em que a relação econômica entre os homens parece mais estreita um mundo de opacidade, de mentira e de hipocrisia.

7. Rousseau confronta dois tipos de relação que se opõem como a transparência à opacidade, pois a estima e a benevolência constituem um laço pelo qual os homens se reúnem imediatamente, enquanto os laços ordenados pelo interesse pessoal perderam esse caráter imediato e passam agora por coisas.

8. A perversão resultante provém não apenas do fato de que as coisas se interpõem entre as consciências, mas também de que os homens, deixando de identificar seu interesse com sua existência pessoal, identificam-no com os objetos interpostos que acreditam indispensáveis à sua felicidade, de modo que o eu do homem social não se reconhece mais em si mesmo e busca-se no exterior.

9. A crítica de Rousseau denuncia essa alienação e propõe como tarefa um retorno ao imediato, pois a sociedade civilizada, desenvolvendo sempre mais sua oposição à natureza, obscurece a relação imediata das consciências e a perda da transparência original vai de par com a alienação do homem nas coisas materiais.

10. A análise de Rousseau prefigura as de Hegel e de Marx ao apoiar-se em uma descrição do devir histórico da humanidade, pois o Discurso sobre a origem da desigualdade é uma história da civilização como progresso da negação do dado natural, progresso ao qual corresponde uma degradação da inocência original.

11. A história das técnicas é exposta em estreita ligação com a história moral da humanidade, mas, à diferença do esforço filosófico do século XIX e em contraste com as pretensões positivistas de alguns contemporâneos, Rousseau procura fundar um julgamento moral referente à história de preferência a estabelecer um saber antropológico.

12. É como moralista que Rousseau escreve a história da moral, e daí o aspecto ambíguo de sua demonstração, pois as fases pelas quais o homem passou e o estado a que chegou devem em primeiro lugar ser estabelecidos como fatos e, uma vez estabelecidos, devem ser aceitos como transformações inelutáveis.

13. A humanidade sofreu transformações inelutáveis e com isso chegou fatalmente ao direito, e Rousseau buscará esse mundo ora aquém da história, nos antigos tempos em que o progresso corruptor não existe ainda, ora além, em um futuro abstrato em que a desordem atual seria superada por uma ordem mais perfeita.

A INOCÊNCIA ORIGINAL

1. Antes que as artes e as luzes se tenham propagado, o fato humano não está suficientemente desenvolvido para opor-se a um direito ainda não expresso, e o homem primitivo é bom porque não é bastante ativo para fazer o mal, sendo um julgamento retrospectivo do moralista que decide dessa bondade.

2. Quanto ao homem da natureza, vive ingenuamente em um mundo amoral ou pré-moral, pois a diferença do bem e do mal não existe para a sua consciência limitada, e verdadeiramente não há acordo entre o fato e o direito porque seu conflito ainda não surgiu.

3. No horizonte limitado do estado de natureza, o homem vive em um equilíbrio que não o opõe ainda ao mundo nem a ele próprio, pois não conhece nem o trabalho, que o oporá à natureza, nem a reflexão, que o oporá a si mesmo e aos seus semelhantes.

4. Seus desejos não ultrapassam de modo nenhum suas necessidades físicas, sua imaginação não lhe pinta nada, seu coração não lhe pede nada, e sua alma, que nada agita, entrega-se apenas ao sentimento de sua existência atual.

5. Nessa suficiência perfeita, o homem não tem necessidade de transformar o mundo para satisfazer suas necessidades, configurando uma variante animal e sensitiva do ideal estóico de autarquia em que o homem não sai de si mesmo nem do instante presente e vive no imediato.

6. Se cada sensação é nova para ele, essa descontinuidade aparente é somente uma maneira de viver a continuidade do imediato, pois nada se interpõe entre seus desejos limitados e seu objeto e a sensação se abre diretamente para o mundo, a ponto de o homem mal saber distinguir-se daquilo que o cerca.

7. O homem experimenta então um contato límpido com as coisas, ainda não turvado pelo erro, pois os sentidos, limitados a si mesmos e não contaminados pelo juízo e pela reflexão, não sofrem nenhuma distorção.

8. Do mesmo modo que Rousseau confere retrospectivamente a qualificação moral da bondade à situação pré-moral, atribui retrospectivamente um valor de verdade à experiência pré-reflexiva, que ele supõe perfeitamente passiva, a esse estado em que se supõe que o homem viva aquém da distinção do verdadeiro e do falso.

9. Dessa luta que opõe ativamente o homem ao mundo resultará sua evolução psicológica, pois a faculdade de comparar o torna capaz de uma reflexão rudimentar, ele saberá perceber diferenças entre as coisas, se saberá diferente dos animais, se verá em sua superioridade, e já surge um vício: o orgulho.

10. A utilização reiterada dos diferentes seres para si mesmo e de uns pelos outros deve naturalmente ter engendrado no espírito do homem as percepções de certas relações, que nele produziram enfim alguma espécie de reflexão, e as novas luzes resultantes desse desenvolvimento atestaram sua superioridade sobre os outros animais, fazendo-o conhecê-la e produzindo o primeiro movimento de orgulho.

11. Rousseau encadeia toda uma série de momentos que se condicionam uns aos outros e que o homem percorre em razão de sua perfectibilidade, pois ao obstáculo natural se opõe o trabalho, este provoca o nascimento da reflexão, que produz o primeiro movimento de orgulho.

12. Com a reflexão termina o homem da natureza e começa o homem do homem, e a queda nada mais é que a intrusão do orgulho, pois o equilíbrio do ser sensitivo está rompido e o homem perde o benefício da coincidência inocente e espontânea consigo mesmo.

13. Se a natureza nos destinou a ser sãos, quase se pode assegurar que o estado de reflexão é um estado contra a natureza e que o homem que medita é um animal depravado, pois então vai começar a divisão ativa entre o eu e o outro, o amor-próprio vem perverter o inocente amor de si, os vícios nascem e a sociedade se constitui.

14. Enquanto a razão se aperfeiçoa, a propriedade e a desigualdade se introduzem entre os homens e o meu e o teu se separam sempre mais, de modo que a ruptura entre ser e parecer passa a marcar o triunfo do factício e a distância cada vez maior que nos afasta não apenas da natureza exterior, mas de nossa natureza interior.

15. Cada um começou a olhar os outros e a querer ele próprio ser olhado, foi preciso mostrar-se diverso do que se era com efeito, e ser e parecer tornaram-se duas coisas inteiramente diferentes, e dessa distinção saíram o fausto imponente, a astúcia enganadora e todos os vícios que são o seu cortejo.

16. O homem se aliena em sua aparência, e Rousseau apresenta o parecer ao mesmo tempo como consequência e como causa das transformações econômicas, ligando profundamente o problema moral e o problema econômico.

17. O homem social, cuja existência já não é autônoma mas relativa, inventa sem cessar novos desejos que não pode satisfazer por si mesmo, precisa de riquezas e do prestígio, quer possuir objetos e dominar consciências, e só acredita ser ele mesmo quando os outros o consideram e o respeitam por sua fortuna e sua aparência.

18. Categoria abstrata de onde todas as espécies de males concretos provirão, o parecer explica a uma só vez a divisão interna do homem civilizado, sua servidão e o caráter ilimitado de suas necessidades, sendo o estado mais afastado da felicidade que o homem primitivo experimentava ao abandonar-se ao imediato.

19. Já para o homem do parecer há apenas meios, e ele próprio encontra-se reduzido a ser somente um meio, pois nenhum de seus desejos pode ser saciado imediatamente e deve passar pelo imaginário e pelo factício, sendo a opinião dos outros e o trabalho dos outros indispensáveis.

20. Como os homens não procuram mais satisfazer suas verdadeiras necessidades, mas aquelas que sua vaidade criou, estarão constantemente fora de si mesmos, serão estranhos a si mesmos e escravos uns dos outros, e a linguagem de Rousseau, quando denuncia as alienações do estado social, prefigura nitidamente Kant e Hegel mesmo permanecendo sob muitos aspectos uma linguagem de moralista estóico.

21. Naquilo que soa aqui como uma antecipação das filosofias modernas da história, reencontram-se todos os temas da sabedoria antiga, pois de livre e independente que antes era o homem, ei-lo por uma multidão de novas necessidades submetido a toda a natureza e sobretudo aos seus semelhantes, dos quais se torna escravo mesmo ao tornar-se seu senhor.

22. Rico, tem necessidade dos serviços dos outros, pobre, tem necessidade de seus auxílios, e a mediocridade não o coloca de modo algum em condição de dispensá-los, sendo preciso então que procure incessantemente interessá-los em sua sorte e fazê-los encontrar proveito, de fato ou na aparência, em trabalhar pelo seu, o que o torna dissimulado e artificioso com uns, imperioso e duro com outros.

23. O despotismo vai se impor como a forma extrema da servidão doravante universal, em que o homem é escravo tanto de seu semelhante quanto de suas próprias necessidades, e oprimidos pela tirania os homens redescobrem uma nova espécie de igualdade, mas no esmagamento e na nulidade, pois todos os particulares voltam a ser iguais porque não são nada.

24. O círculo se fecha novamente, pois saídos da igualdade na independência pré-social desembocamos na igualdade perfeitamente servil da sociedade despótica, e desenvolveu-se um processo em que o homem produziu-se a si mesmo, mas sofrendo uma degradação moral paralela a seu progresso intelectual e técnico, fazendo de si mesmo um ser factício sem cessar de agravar o conflito que o opõe à natureza.

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