User Tools

Site Tools


schelling:estudos:veto:7.7

7.7 Ideias

VETO, Miklos. De Kant à Schelling: les deux voies de l’idéalisme allemand. Grenoble: J. Millon, 1998.

1. A Exposição de meu Sistema da Filosofia é um anúncio estrondoso de ruptura com tudo o que é limitado, tudo o que é mera “reflexão” na posição transcendental, marcando o advento do saber absoluto. O idealismo absoluto, porém, é preparado e acompanhado pela filosofia da arte, e esta, por sua vez, recorre com predileção à mitologia.

  • já desde o Programa de Sistema Mais Antigo, o idealismo está como que fascinado pela mitologia, terreno altamente propício ao desabrochar de uma metafísica de totalidades concretas. A intuição estética diz respeito à obra de arte, amostra perfeita da síntese do universal e do particular
  • ora, poder-se-ão encontrar exemplos melhores de obras de arte do que as figuras divinas dos gregos? Os deuses são totalidades concretas, representam uma perfeição além da oposição do teórico e do prático, e constituem um mundo

2. Os deuses, esses descendentes das Mônadas de Leibniz, são seres naturais eternos. São bem-aventurados, gozam de felicidade além da oposição entre felicidade e virtude. Toda cisão, inclusive a de existência e essência, lhes é estranha.

  • não significam, mas são, e são pelo mesmo fato de serem possíveis. E é aqui que se perfila a importância metafísica das figuras divinas. Um deus é o Absoluto na limitação, ou mais exatamente: uma pura determinação ligada a uma absoluidade indivisa
  • os deuses gregos, objetos de iconografia precisa, são figuras estritamente delimitadas. Propriedades mutuamente incompatíveis se excluem umas às outras numa dada figura divina. Minerva, por exemplo, unifica em si a sabedoria e a força, mas lhe falta a doçura feminina
  • presente na deusa, essa doçura reduziria a harmonia sublime das propriedades particulares à indiferença. Por sua natureza, os deuses são particularidades; no entanto, no seio mesmo de sua limitação, gozam da integralidade da condição divina

3. Os deuses constituem um mundo, sendo a mitologia um todo orgânico, fechado. E esse mundo não é apenas um conjunto harmonioso de divindades, uma coexistência ordenada de figuras particulares.

  • o sentido profundo da figura divina, dessa universalidade concreta, é que o particular não ocupa apenas uma seção determinada do universal, mas é, ele mesmo, enquanto particular, universal. A inteligibilidade dos deuses não é apenas função de seu lugar no todo: são, cada um, recapitulações, exemplos do Todo
  • no mundo empírico, as formas particulares constituem uma diversidade e entram fatalmente em conflito. Ora, “no Olimpo majestoso, na região serena dos deuses, não há conflitos, pois também o oposto está desenvolvido até a absoluidade”…

4. Deuses e ideias são noções quase intercambiáveis; a Ideia, porém, logo ultrapassará sua ilustração por excelência, tornando-se conceito-chave do idealismo absoluto em sua primeira formulação.

  • Schelling recebera “a ideia” pela mediação da Crítica e, mesmo em seu comentário sobre o Timeu, a define como forma subjetiva, concebida pela faculdade de representação. Mais tarde, reprovará severamente a Kant por ter relativizado o alcance da ideia, por tê-la refletido na direção da moral
  • isso, certamente, não significa a recaída numa leitura puramente ontológica da noção. A ideia schellingiana não é conceito dogmático que reduziria o Absoluto a uma objetividade toda exterior. O Absoluto é Saber absoluto, e as ideias são modi desse Saber
  • mais exatamente, a estrutura dupla do Absoluto como sujeito-objeto, como conhecimento-ser, repercute até a ideia. “Filhos imediatos do Absoluto”, as ideias reproduzem sua dualidade metafísica. A ideia é tanto ato de pensamento quanto conteúdo pensado, olhar, e também o que o olhar contempla

5. Conhece-se a ideia pela intuição intelectual, que é um saber indiviso, um desdobramento imanente. A intuição intelectual, expressão suprema do retorno a si do eu, essa “apercepção absoluta”, diz respeito à natureza, identidade do produzente e do produto, e à arte, identidade da espontaneidade e da passividade.

  • a ideia é a herdeira de todas essas dualidades, ou antes seu cumprimento segundo sua maior generalidade metafísica. A coincidência do objeto e do sujeito, do ser e da significação, do atual e do possível, que a filosofia clássica cria dever reservar ao Primeiro, pensamento do pensamento, identidade da essência e da existência, deve ser atribuída igualmente ao particular
  • a filosofia absoluta não se limita ao conhecimento do ser absoluto transcendente, mas se reconhece também a tarefa de reencontrar nos seres particulares, determinados, a absoluidade do Primeiro
  • rebentos verdadeiros da identidade, plantas divinas, animais absolutos, as Ideias recolhem a herança das perfeições do organismo para pô-la a serviço do particular. A felicidade que transparece no rosto dos deuses pode não ser senão o sinal de uma inocência infra-humana — as ideias são “animais bem-aventurados” —, mas o que importa nessa felicidade é sua condição de cifra da autonomia radical, da autarquia metafísica
  • e, finalmente, as ideias são necessariamente belas, não tanto enquanto arquétipos de seres singulares mais ou menos belos, mas segundo sua natureza de manifestação do Absoluto na limitação. Mais exatamente, segundo sua condição de realizações perfeitas do Absoluto no finito

6. A noção suprema desse idealismo é o Absoluto, identidade perfeita do Ser (Wesen) e da Forma. Essa identidade não poderia estar presente como tal num ser particular, mas nele pode refletir-se.

  • Schelling oferece variantes desse tema. A ideia é a identidade da alma e do corpo, coincidência do particular e do universal, dissolução do finito no infinito, permanecendo porém a definição central a da implantação, da Ineinsbildung
  • a unidade dos opostos metafísicos supremos, difratada no particular, é a unidade do universal e do particular implantada no particular, ou seja, a ideia. O universal e o particular não estão apenas reunidos no particular. O universal não é simplesmente acolhido no particular
  • o particular não é apenas uma revelação contingente do universal. A ideia é o Absoluto em sua particularidade, ou o particular absoluto. A mesma identidade que constitui o ser do Absoluto, e que Schelling chama — com o Hegel de Jena — identidade da identidade e da diferença, é difratada na ideia
  • e difração não quer dizer simples projeção ou reflexo, mas retomada autêntica da identidade desdobrada que é o Absoluto

7. Trata-se aqui de uma continuação do filosofema do sujeito-objeto, entrevisto já não sob o aspecto do desdobramento sucessivo dos momentos, mas sob o de uma afirmação integral e paralela em cada um dos particulares.

  • o idealismo absoluto se dá como programa tornar inteligíveis todos os recantos do ser. Isso significa que quer compreender tudo; ora, a condição dessa operação é considerar todos os seus objetos como totalidades
  • na Naturphilosophie, cada mineral reflete a história de toda a terra, cada indivíduo natural exprime toda a natureza. É a antiga doutrina do microcosmo, contendo em resumo e em miniatura tudo o que tem o grande Todo, representada a partir da inspiração leibniziana
  • as ideias são mônadas, espelhos que refletem, ou antes exprimem, todo o universo. A ideia, porém, não é apenas um espelho. O predecessor imediato da ideia-mônada, da identidade, é o eu-mônada do idealismo transcendental
  • ora, esse eu não é simplesmente um poder de representação. Não reflete apenas o Todo, mas também possui sua mesma estrutura. E a doutrina das ideias é a explicação dessa intuição, a saber a apresentação da ideia como instância coessencial do Todo

8. As ideias são totalidades, realidades completas, fechadas sobre si mesmas, e é nesse fechamento, nessa autarquia, que são o Todo. Como o Absoluto, cada ideia é tanto unidade quanto totalidade. Cada ideia é a si mesma e o Todo.

  • mais ainda, instância singular do Todo, é também cada uma das outras instâncias singulares. O Absoluto — diz Schelling em Würzburg — não está dividido entre mônadas, mas está presente em cada uma delas, e inversamente, cada coisa é o Todo absoluto
  • Schelling cita Dante: “no Céu, cada onde é um Paraíso”. Isso significa que, na compossibilidade que o sistema da identidade designa como “espaço absoluto”, cada ponto é “absoluto”, cada pedaço do Universo está “grávido” de todas as possibilidades do Universo

9. Prefigurada pelo organismo, pela obra de arte e pela figura mitológica, a ideia se torna aqui instância de inteligibilidade perfeita. Inteligibilidades integrais em si mesmas, as ideias constituem um universo de articulação perfeita.

  • depois das variações sobre a natureza como organismo uno, a poesia como produto de um único gênio, as diversas obras de arte como instâncias de uma só e mesma obra de arte suprema, a Ideia que é as ideias apresenta um Todo onde todas as possibilidades estão realizadas e onde todas as potencialidades de um todo singular são igualmente potencialidades das outras singularidades
  • todas as possibilidades do mundo das ideias se esgotam na mitologia grega. As ideias apresentam o Todo sem invadir as outras ideias. No céu estrelado, em cada ponto de certa extensão veem-se todas as estrelas, preenchendo cada uma delas toda a extensão sem excluir as demais.
schelling/estudos/veto/7.7.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki