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Verdade
The Problems of Philosophy by Bertrand Russell, 1912
- Diferentemente do conhecimento das coisas, o conhecimento das verdades possui um oposto, o erro, pois no conhecimento por familiaridade pode haver conhecimento ou ignorância sem que a própria familiaridade seja enganosa, enquanto no domínio das crenças é possível acreditar tanto no verdadeiro quanto no falso.
- Como diferentes pessoas sustentam opiniões incompatíveis sobre os mesmos assuntos, algumas crenças devem necessariamente ser errôneas.
- O problema torna-se especialmente difícil porque crenças falsas podem ser sustentadas com a mesma convicção que crenças verdadeiras.
- Antes de perguntar como distinguir crenças verdadeiras de falsas, é necessário esclarecer preliminarmente o que significam verdade e falsidade, mantendo rigorosamente separadas a questão da natureza da verdade e a questão dos critérios pelos quais uma crença particular pode ser reconhecida como verdadeira.
- A investigação da natureza da verdade precisa satisfazer três requisitos fundamentais.
- Uma teoria da verdade deve admitir a existência de seu oposto, a falsidade, pois teorias que tornam todo pensamento necessariamente verdadeiro encontram grande dificuldade para explicar como o erro pode ocorrer; nesse ponto, a teoria da crença precisa diferir da teoria da familiaridade, já que esta última não exige a consideração de um oposto.
- Se não houvesse crenças, também não haveria falsidade nem verdade no sentido correlativo à falsidade, pois um mundo constituído apenas de matéria poderia conter fatos, mas não verdades e falsidades propriamente ditas; estas são propriedades de crenças e enunciados e, por isso, pressupõem a existência de mentes capazes de acreditar ou afirmar.
- Embora verdade e falsidade sejam propriedades das crenças, sua determinação depende sempre de algo exterior à própria crença.
- A crença de que Carlos I morreu no cadafalso é verdadeira não por alguma qualidade interna da crença, mas porque corresponde a um acontecimento histórico efetivamente ocorrido.
- A crença de que Carlos I morreu em sua cama permanece falsa por mais intensa, vívida ou cuidadosamente formada que seja, porque não corresponde ao que efetivamente aconteceu.
- Verdade e falsidade dependem, portanto, das relações entre as crenças e outras coisas, e não de propriedades intrínsecas das próprias crenças.
- O terceiro requisito conduz à concepção tradicional segundo a qual a verdade consiste em alguma forma de correspondência entre crença e fato, embora seja difícil definir essa correspondência de maneira livre de objeções.
- A dificuldade de estabelecer essa correspondência e a suspeita de que o pensamento talvez não possa reconhecer quando alcançou algo exterior a si levaram muitos filósofos a procurar uma definição de verdade inteiramente interna ao sistema das crenças.
- A tentativa mais importante nessa direção é a teoria da coerência, segundo a qual a falsidade consiste na incapacidade de uma crença integrar-se coerentemente ao conjunto das demais, enquanto a verdade pertenceria ao sistema completamente articulado da Verdade.
- A teoria da coerência enfrenta uma primeira dificuldade fundamental: não há razão para supor que apenas um único sistema coerente de crenças seja possível.
- Um romancista suficientemente imaginativo poderia conceber um passado do mundo perfeitamente compatível com tudo o que atualmente se conhece e, ainda assim, completamente diferente do passado real.
- Nas ciências também podem existir duas ou mais hipóteses capazes de explicar igualmente todos os fatos disponíveis, sem garantia de que novos fatos permitam sempre eliminar todas, exceto uma.
- Também na filosofia podem coexistir hipóteses rivais capazes de acomodar todos os fatos conhecidos, como a hipótese de que toda a vida seja um longo sonho e a concepção de senso comum segundo a qual outras pessoas e coisas existem realmente; como ambas podem ser compatíveis com os fatos conhecidos, a coerência não basta para definir a verdade, já que nada demonstra a existência de apenas um sistema coerente possível.
- A segunda dificuldade da teoria da coerência consiste em pressupor que o próprio significado de “coerência” já esteja estabelecido, embora a coerência dependa previamente da verdade das leis da lógica.
- Duas proposições são coerentes quando ambas podem ser verdadeiras e incoerentes quando pelo menos uma delas deve ser falsa.
- Para determinar isso, é necessário pressupor princípios como a lei de contradição.
- As proposições “esta árvore é uma faia” e “esta árvore não é uma faia” são incompatíveis porque a lei de contradição já é aceita.
- Se a própria lei de contradição fosse submetida ao teste da coerência e fosse considerada falsa, nada mais seria necessariamente incoerente com coisa alguma.
- As leis lógicas constituem, portanto, a estrutura dentro da qual o teste da coerência opera e não podem ser fundamentadas pelo próprio teste.
- Por essas duas razões, a coerência não pode definir o significado da verdade, embora possa funcionar como critério importante de verdade depois que uma quantidade suficiente de verdades já tenha sido estabelecida.
- Torna-se necessário retornar à concepção da verdade como correspondência com o fato, permanecendo então a tarefa de definir precisamente o que se entende por “fato” e em que consiste a correspondência entre crença e fato que torna uma crença verdadeira.
- Uma teoria adequada da verdade precisa, portanto, admitir a falsidade como oposto da verdade, considerar verdade e falsidade como propriedades das crenças e, simultaneamente, fazer essas propriedades dependerem inteiramente da relação das crenças com coisas exteriores a elas.
- A necessidade de explicar a falsidade impede que a crença seja concebida simplesmente como relação da mente com um único objeto correspondente ao que é acreditado.
- Se a crença possuísse essa estrutura, ela se assemelharia à familiaridade e não poderia ser falsa.
- Quando Otelo acredita falsamente que Desdêmona ama Cássio, não pode estar relacionado a um único objeto denominado “o amor de Desdêmona por Cássio”, pois, se esse objeto existisse, a crença seria verdadeira.
- Como tal objeto não existe, a crença falsa não pode consistir numa relação da mente com ele.
- Tampouco resolve o problema considerar a crença como relação com um objeto proposicional do tipo “que Desdêmona ama Cássio”, pois seria igualmente problemático admitir a existência de tal objeto quando Desdêmona de fato não ama Cássio; torna-se preferível, portanto, buscar uma teoria na qual a crença não consista numa relação da mente com um único objeto.
- Embora seja comum conceber relações como envolvendo apenas dois termos, muitas relações exigem três, quatro ou mais termos.
- A relação “entre” exige pelo menos três termos, como na afirmação de que York se encontra entre Londres e Edimburgo.
- O ciúme pressupõe pelo menos três pessoas.
- Uma proposição como “A deseja que B favoreça o casamento de C com D” envolve uma relação de quatro termos.
- Existem, portanto, relações cuja própria ocorrência depende de uma multiplicidade de termos.
- Para admitir devidamente a possibilidade da falsidade, a relação envolvida em julgar ou acreditar deve ser entendida como relação entre vários termos, e não apenas entre dois.
- Quando Otelo acredita que Desdêmona ama Cássio, não se relaciona com um objeto único, mas participa de uma relação que envolve separadamente Otelo, Desdêmona, a relação de amar e Cássio.
- A crença constitui, assim, uma relação de quatro termos.
- Isso não significa que Otelo possua separadamente a mesma relação com cada um dos outros três elementos, mas que uma única relação de crença reúne simultaneamente todos eles num todo complexo.
- Um ato de crença ou julgamento consiste precisamente na ocorrência, em determinado momento, dessa relação entre uma mente e várias coisas diferentes dela.
- A distinção entre julgamentos verdadeiros e falsos pode ser formulada distinguindo, em cada julgamento, uma mente que julga e os termos acerca dos quais ela julga.
- A mente é o sujeito do julgamento, enquanto os demais termos são seus objetos.
- No julgamento de Otelo de que Desdêmona ama Cássio, Otelo é o sujeito, e Desdêmona, amar e Cássio são os objetos.
- Sujeito e objetos formam conjuntamente os constituintes do julgamento.
- A relação de julgar possui ainda um “sentido” ou “direção”, que ordena seus objetos de determinada maneira.
- Por isso, julgar que Cássio ama Desdêmona é diferente de julgar que Desdêmona ama Cássio, embora os constituintes sejam os mesmos, pois sua ordem foi alterada.
- Esse sentido das relações constitui a fonte última de ordem, série e diversos conceitos matemáticos.
- A relação de julgar ou acreditar reúne sujeito e objetos num todo complexo da mesma maneira que qualquer relação que efetivamente se estabelece entre seus termos cria uma unidade complexa.
- Se Otelo ama Desdêmona, existe a unidade complexa constituída por seu amor por ela.
- Sempre que uma relação conecta determinados termos, forma-se um objeto complexo constituído por essa união, e, inversamente, todo objeto complexo envolve uma relação entre seus constituintes.
- Num ato de crença, a relação “acreditar” funciona como o vínculo que une sujeito e objetos segundo determinada ordem.
- Entre os objetos da crença pode haver uma relação, como “amar”, mas essa relação aparece inicialmente apenas como um dos elementos do complexo da crença, e não como o vínculo que une todos os seus constituintes.
- Quando a crença é verdadeira, existe uma segunda unidade complexa na qual a relação que era objeto da crença passa efetivamente a relacionar os demais objetos na mesma ordem em que apareciam na crença.
- Assim, se Otelo acredita verdadeiramente que Desdêmona ama Cássio, existe efetivamente a unidade complexa constituída pelo amor de Desdêmona por Cássio; se a crença é falsa, essa unidade complexa não existe.
- Uma crença é verdadeira quando corresponde a determinado complexo associado e falsa quando tal complexo não existe.
- Considerando uma crença cujos objetos sejam dois termos e uma relação ordenados pelo sentido da crença, ela será verdadeira se esses dois termos estiverem efetivamente ligados pela relação naquela mesma ordem.
- Se não estiverem, a crença será falsa.
- Julgar ou acreditar constitui uma unidade complexa da qual uma mente participa; quando os demais constituintes formam entre si, na mesma ordem, uma unidade complexa independente, a crença é verdadeira, e quando não formam, é falsa.
- Verdade e falsidade são propriedades das crenças, mas possuem caráter extrínseco, pois a condição de verdade de uma crença não envolve necessariamente nenhuma mente, mas apenas os objetos acerca dos quais se acredita.
- Uma mente acredita verdadeiramente quando existe um complexo correspondente formado apenas pelos objetos da crença.
- A existência desse complexo garante a verdade, e sua ausência implica falsidade.
- Explica-se assim simultaneamente que as crenças dependam das mentes para existir, mas não dependam delas para serem verdadeiras ou falsas.
- A teoria pode ser reformulada afirmando que, numa crença como “Otelo acredita que Desdêmona ama Cássio”, Desdêmona e Cássio são os termos-objeto e amar é a relação-objeto; se existe a unidade complexa “o amor de Desdêmona por Cássio”, constituída pelos termos ligados pela relação na mesma ordem presente na crença, essa unidade é o fato correspondente, de modo que a crença é verdadeira quando existe um fato correspondente e falsa quando ele não existe.
- As mentes não criam a verdade nem a falsidade, embora criem as crenças, pois, uma vez formada uma crença, a mente não pode torná-la verdadeira ou falsa, exceto em casos especiais referentes a acontecimentos futuros que estejam sob o poder daquele que acredita; em geral, o que torna uma crença verdadeira é um fato independente da mente que sustenta essa crença.
- Depois de estabelecido o significado de verdade e falsidade, torna-se necessário investigar de que maneiras se pode saber se determinada crença é verdadeira ou falsa, questão que constitui o passo seguinte da investigação.
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