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Alegria
ROSSET, Clément; LACROIX, Alexandre. La joie est plus profonde que la tristesse : Entretiens avec Alexandre Lacroix. Paris: Stock, 2019.
Alexandre Lacroix
- Clément Rosset teria mesmo morrido em seu domicílio parisiense em 27 de março de 2018? Nada é menos certo: o corpo foi achado pela faxineira na terça-feira 27, mas ele talvez tenha morrido na segunda, no domingo ou até no sábado anterior.
- O médico anotou “parada cardíaca”, o que tecnicamente não se contradiz, pois o coração de todos para com a morte, mas o que levou Rosset ninguém sabe ao certo; o acontecimento mais indesejável e inevitável ficou, no seu caso, cercado de um halo de incertezas.
- É quase uma ilustração póstuma de sua filosofia: o real, em sua idiotia teimosa, isto é, em sua simplicidade, esquiva-se às tentativas de descrevê-lo.
- O autor lembra-se de quão intimidado ficou na primeira entrevista que Rosset lhe concedeu, em dezembro de 2007: era leitor entusiasta de sua obra, os primórdios da Philosophie Magazine ainda não o habituavam a ficar horas a sós com um pensador, e Rosset lhe dava a impressão de já figurar entre os clássicos.
- Rosset nasceu em 12 de outubro de 1939, em Carteret, na Mancha, e publicou seu primeiro livro aos vinte e um anos; ao evocar A filosofia trágica (1960), adotava a posteriori um tom agridoce, confessando tê-la escrito em uma espécie de febre juvenil, sem ainda pesar as palavras.
- Aluno das classes preparatórias do liceu do Parc, em Lyon, teve como professor Jean Lacroix (simples homônimo do autor, sem parentesco), que dirigia uma coleção de ensaios nas Presses universitaires de France e mantinha o folhetim filosófico do Monde; convencido de ter em classe um espírito excepcional, publicou-o mal saído da adolescência e o lançou pela imprensa.
- Entrado na École normale supérieure em 1961, obteve a agregação de filosofia e defendeu tese sob a direção de Vladimir Jankélévitch, publicada em versão revista como A anti-natureza (1973); mas é três anos depois, com O real e seu duplo (1976), que começa a grande investigação sobre o real que o ocupou até o fim da vida e faz a originalidade de seu trabalho.
- Por que o real é insondável e incompreensível, e por que os seres humanos lhe preferem o refúgio da ilusão? Essas questões claras, porém vertiginosas, atravessam todos os seus livros e são amplamente tratadas nas entrevistas que se seguem.
- Do ponto de vista objetivo da carreira, Rosset foi figura atípica, marginal, de percurso solitário: ingressou como professor assistente na universidade de Nice em 1967, onde ficou até a aposentadoria, em 1998, e, apesar de muitas tentativas de ser nomeado professor numa universidade parisiense, o avanço lhe foi sistematicamente recusado.
- Emancipou-se cedo dos códigos acadêmicos: seus ensaios não traziam notas de rodapé nem bibliografia robusta, e ele gostava de citar, entre análises cerradas de Platão, Espinosa ou Nietzsche, peças de Georges Courteline ou álbuns de Tintim; sempre praticou a forma breve, não o aforismo, mas o ensaio curto e cinzelado, a serviço de uma tese forte.
- Se dá a impressão de clássico, é em grande parte por seu estilo: como Montaigne, Descartes e Pascal, inscreve-se na grande tradição dos prosadores franceses, sempre eminentemente legível, proscrevendo o jargão, sem resistir ao prazer de um traço de espírito, preferindo a elegância da concisão ao espírito de exaustividade da filosofia alemã.
- Schopenhauer, um de seus mestres, zombou da pesadez dos universitários e de Hegel, cuja obscuridade assimilava a charlatanismo, e Nietzsche escarnecia dos sábios funcionarizados, “mastigadores de papel” e “enciclopédias ambulantes”; Rosset perpetuava essa irreverência, e a moeda de sua peça lhe foi devolvida em centuplo, pois os universitários se recusaram a levá-lo a sério e barraram sua progressão rumo à Sorbonne.
- Quanto mais seus livros faziam sucesso, mais a proscrição se endurecia; talvez não fosse má sorte, pois permitiu a esse pensador da alegria trabalhar longe das justas parisienses e passar a maior parte da existência sob o sol do Mediterrâneo.
- Não tendo tido a sorte de agradar aos pares acadêmicos, por seu pensamento inclassificável e solto demais, Rosset atraiu também a ira dos intelectuais mais aclamados da época, por sua ironia mordaz para com o marxismo e o estruturalismo e por seu apolitismo visceral.
- Nos anos 1970, os filósofos franceses mais traduzidos e comentados no mundo eram Deleuze, Foucault, Lacan e Derrida; com o primeiro Rosset conviveu amigavelmente alguns anos, mas não queria introduzir as ciências humanas, a história nem o engajamento na filosofia, o que o afastava de Foucault; desconfiava do elogio do delírio e do desregramento da lógica de Deleuze e não entendia que se tecessem coroas à esquizofrenia.
- Zombava abertamente do hermetismo de Lacan e via no culto à sua personalidade uma manifestação de credulidade patológica; de Derrida censurava não só as glosas esotéricas, mas nunca sorrir: “É impossível desempenar Derrida” (Il est impossible de dérider Derrida), gostava de dizer.
- Esse gênero de trocadilho, na época em que a French Theory e a desconstrução dominavam os campi norte-americanos, isolava Rosset; pior, atacou esses figurões com verve panfletária temerária: sob o pseudônimo Roger Crémant, publicou As matinês estruturalistas (1969), esquetes teatrais que pastichavam a linguagem intrincada dos mestres do pensamento de sua geração, e assinou em 1970 série de artigos no Nouvel Observateur em que demolia as referências caras à esquerda libertária, Herbert Marcuse e Wilhelm Reich à frente.
- Essas facécias pertenciam ao seu caráter, mas seu talento não se reduzia a elas: Rosset cavou seu próprio sulco com a paciência de um escritor autêntico e a obstinação de um metafísico, pois o que o interessava no mais alto grau era a metafísica.
- Hoje, extintas as rivalidades acadêmicas e passada um pouco a hora da French Theory, sua obra é talvez mais fácil de apreciar em seu justo valor: retirada a maré das ambições humanas, os livros ficam a descoberto, e os dele estão ali, sem uma ruga.
- A primeira entrevista foi tateante: numa sexta-feira fria, às quinze horas, sentaram-se de lados opostos da mesa de trabalho de madeira maciça, e ele serviu ao autor um grande copo de mostarda com vinho branco.
- Perguntado se o real de que fala é sensível, objeto de nossa percepção, respondeu que sim, mas, quanto ao número dois, disse tratar-se de um real “mental”, de modo que haveria real sensível e real mental.
- Indagado sobre o lugar, em sua filosofia, da distinção entre ser em potência e ser em ato, exclamou, batendo o punho na mesa, que o autor começava a aborrecê-lo com suas perguntas; o autor sentiu os dedos dos pés se encolherem e chegou a perguntar-se se o real de que Rosset se reclamava não seria conceito indeterminado, “astro vazio”, mas útil para denunciar o caráter enganoso das representações.
- A entrevista durou seis ou sete horas: nos livros, Rosset tinha estilo preciso e primoroso, mas sua conversa era rica em tiradas, mudanças de humor e digressões; não pontificava nem procurava ter razão a todo custo, e o presente volume conserva algo de sua palavra viva; o autor saiu atordoado na noite de inverno, ficou dois dias de cama com quarenta de febre, e ao retomar a transcrição percebeu com estupor que Rosset seguira um fio de raciocínio perfeitamente coerente.
- Com os anos os encontros se multiplicaram, instalaram-se o tratamento por “tu” e a amizade; o autor entrevistou Rosset umas quinze vezes, e as horas de gravação, entre 2007 e 2017, deram a matéria do recolhimento.
- Rosset tinha maneira própria e desconcertante de enfrentar objeções: em vez de triunfar na justa retórica, preferia desvencilhar-se da crítica sem enfrentá-la, com um dito de humor de profundidade devastadora, que deixava o interlocutor pasmo e desarmado; não só evitava o duelo, como o dominava pelo riso.
- Num diálogo com o escritor e psicanalista Pierre Bayard, este o acusou de pregar um realismo invivível, tão penoso psicologicamente que seria preciso embriagar-se para suportá-lo; Rosset perguntou-lhe se era muito jovem e se sabia qual o maior país exportador de bananas (Equador), cujas bananas, justamente, seriam as melhores do mundo, “epatante, não acha?”, e Bayard, irritado, perguntou se ele não tentava “afogar o peixe” (noyer le poisson).
- Rosset evocou então sua maior realização pedagógica, aos seus olhos: no ano de serviço militar, em cooperação no Quebec, notou um aluno taciturno e transpirante que, com os meses, foi se distendendo e, ao fim do último curso, lhe trouxe uma garrafa de vinho tinto de grande cru, presente inestimável num país em que o vinho importado era sobretaxado, dizendo que antes estava mal na pele, tinha medo de morrer e não conseguia viver, e agora ia muito bem: “hoje, estou me lixando para tudo!”
- Rosset via nisso o estágio último da sabedoria, obtido em um ano com esse aluno, enquanto a psicanálise só o obtém raramente e depois de dez anos de cura.
- Outra lembrança marcante: o autor aprecia o zoológico do Jardin des Plantes, aonde vai com os filhos, e num domingo à tarde ali encontrou Rosset debruçado no parapeito do pavilhão dos macacos, observando não os orangotangos, mas os mangabeis-coroados, mais ágeis e risonhos.
- Rosset fingiu não ouvir o cumprimento e, reconhecendo-o enfim, com certo desconcerto, disse “olha como são engraçados”, voltando à contemplação da jaula; o autor compreendeu que ele estava muito descontente por ser surpreendido em flagrante, ocupado com um de seus passatempos favoritos, como o jogador inveterado flagrado num cassino de pôquer.
- A ménagerie era seu território secreto: um dos maiores filósofos franceses passava horas às escondidas contemplando os macacos, e a Carta sobre os chimpanzés (1965) testemunha esse gosto; o autor percebeu que não era mera pilhéria, pois Rosset lera quase toda a literatura científica sobre os grandes símios e conhecia nomes e características dos esqueletos célebres da pré-história.
- “As teorias dos paleoantropólogos são todas falsas”, advertira, “revisam-nas de alto a baixo quando descobrem um esqueleto que não concorda com seus modelos, e isso ocorre a cada três ou quatro anos!”; para afinar a compreensão dos costumes humanos, nada como manter os primatas no olho.
- Em junho de 2017, o autor esteve pela última vez em seu apartamento da rua Fustel-de-Coulanges, de novo às quinze horas; Rosset se pavoneava, com exames médicos perfeitos, animado, oferecendo vinho branco, rosé, uísque, Campari, Americano; o autor, de braço curto, contentou-se com o branco.
- Rosset tirou de um maço de papéis uma folha rabiscada: refletira sobre o tema da entrevista, os álbuns de Gaston Lagaffe, e achara algo; começou dizendo que o conceito de gafe (gaffe) nunca foi estudado com a seriedade que merece e que a etimologia é apaixonante, pois o termo, atestado desde meados do século XV, designa primeiro um instrumento da marinha, vara munida de dois ganchos que serve para recolher um cordame caído na água e aproximar o barco do cais, mas “ainda não chegamos ao ponto essencial”.
- Recomeçou quatro vezes seguidas com as mesmas expressões, e o autor, aterrorizado, achou que estivesse no ar, com a “síndrome do peixe vermelho”, efeito devastador de setenta e sete anos de alegria impenitente.
- Era subestimar Rosset: fazia-o entrar pela primeira vez em seu verdadeiro ateliê de filósofo; bateu-se com a palavra “gafe” por três horas e meia e ao fim cercou o conceito com definição filosófica rigorosa e de rara pertinência.
- Escrevia assim seus livros, uma página após outra, sem jamais voltar atrás: cada página era um osso a roer, um desafio, e, terminada, não havia vírgula ou adjetivo a retocar; inspirado, levava uma noite inteira para escrever uma folha, retomando incansavelmente as expressões até atingir precisão e fluidez, como antigamente, voltando ao assalto de cada ideia dezenas de vezes até a aurora.
- O autor começou o prefácio sugerindo que o conceito de real permanecera um pouco flutuante, mas o conceito era inesgotável: foi para Rosset a aposta de uma luta titânica e cotidiana de mais de quarenta anos, corpo a corpo com os conceitos de real e de duplo, em luta greco-romana, tentativas de escultura, abordagens racionais, literárias ou metafóricas.
- Tal era sua maneira de praticar a filosofia: não fazer malabarismos com noções nem saltar como acrobata de uma frase a outra, mas agarrar uma ideia e não largá-la mais, engajar com ela um combate singular do qual devia sair K.O., a menos que se saísse atordoado, vencido, só bom para acamar-se com febre alta.
- Uma última lembrança, filosoficamente talvez anti-rossetiana, que mergulhou o autor no pavor: na noite de terça 27 para quarta 28 de março de 2018, despertou sobressaltado às quatro da manhã pensando que devia telefonar a Clément, com quem, por causa de seu último livro, houvera um leve esfriamento; imaginou uma conversa de bem uma hora, que abandonou o pretexto inicial para evocar o Jardin des Plantes, os macacos, a pantera-das-neves de que ambos gostavam, a vida como vai.
- Readormeceu e, às sete horas, achou um SMS de um amigo comum: “Talvez não saibas: Clément Rosset morreu”; e a conversa, ou antes a ilusão de conversa?
- Rosset publicara tardiamente um ensaio intitulado O invisível (2012), que se abre dizendo que o invisível de que trata não concerne aos objetos que uma impossibilidade material proíbe de ver (como um rosto mergulhado no escuro), mas aos objetos que se crê ver embora não sejam perceptíveis por não existirem e/ou não estarem presentes (como um rosto ausente de um cômodo iluminado).
- Clément Rosset está agora invisível, mas muitos ainda conversarão em pensamento com ele, pois é justo, como queria Descartes, que “a leitura de todos os bons livros é como uma conversa com os mais honestos homens dos séculos passados”; o autor não se resigna facilmente ao seu desaparecimento e crê perceber a ausência de seu rosto em todos os cômodos iluminados.
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