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rosset:2014:2

2 Guerra e paz

ROSSET, Clément. L'endroit du paradis: trois farces. Paris: Les Éditions de Minuit, 2014.

  • Entre os motivos mais representados nos frisos, métopas e frontões dos templos gregos dos séculos VI e V a.C., três se destacam: a tentativa dos Gigantes de destronar os Deuses do Olimpo (a gigantomaquia), que encontra eco na mitologia germânica que inspirou Wagner, em cuja tetralogia Gigantes e Deuses disputam o ouro do Reno; o combate entre gregos e Amazonas, que parece visar a eliminação a flechadas de todas as criaturas masculinas, ou sua redução à escravidão, talvez intuição primeira do destino que as feministas mais radicais de hoje sonham infligir aos congêneres masculinos; e o célebre combate entre Centauros e Lápitas.
    • Os Centauros, completamente embriagados, comportam-se com tanta violência ao tentar violar as esposas dos Lápitas, convidados que os haviam recebido no casamento de um dos seus, que se segue um combate furioso entre esses monstros meio cavalos meio homens e os Lápitas, homens comuns, que saem milagrosamente vencedores.
    • As três lendas contam a mesma história, semelhante à vitória de Davi contra Golias: a violência sempre está errada, somente a paz tem razão e acaba por vencer; a guerra pode triunfar por um tempo, mas termina sempre por sucumbir.
    • Napoleão passa por ter adotado uma divisa que faria bem em seguir mais vezes: só duas potências governam o mundo, o sabre e o espírito, e no fim o sabre é sempre vencido pelo espírito.
  • A sequência infeliz da história ateniense fez que Atenas, cidade ilustre e pacífica por longo tempo, salvo as duas guerras contra os persas que teve de sustentar a contragosto, tomasse, na segunda metade do século V a.C., o partido da guerra contra a paz.
    • Foi uma guerra funesta contra Esparta, catastrófica e inútil, pois a única ameaça a Atenas era então a Macedônia.
    • Aristófanes se esforçou, ao longo de todo o seu teatro, por exortar os atenienses a interromper a guerra, tratar com Esparta e gozar as alegrias da paz, mas não foi ouvido, pois os atenienses que aplaudiam suas peças aplaudiam também a continuação da guerra, obstinadamente querida pelo partido democrático sucessor da era de Péricles, o que levou à capitulação de Atenas, ao desmantelamento de suas fortificações, ao declínio de seu império terrestre e marítimo e à condenação à morte e execução de Sócrates.
    • Repete-se que uma das principais glórias da Grécia ateniense foi ter inventado a democracia, verdade histórica, mas passam-se depressa por cima dos múltiplos danos que dela decorreram, para não voltar aos supostos erros e aberrações de Aristófanes, tido por muitos críticos e filósofos, ainda hoje respeitados, como Émile Faguet, o escritor mais obtuso e estúpido da Grécia antiga.
  • Embora não tenham propriamente inventado a paz e suas virtudes, os gregos dos séculos VI e V descobriram, talvez os primeiros, as virtudes da medida.
    • “Nada em excesso”, dirá mais tarde Horácio, em sentido literário, mas a excelência da medida vale também para a maioria dos campos que pode afetar, como a arquitetura e a escultura, e ainda no sentido político e militar.
    • Por falta de senso de medida, os persas invadem a Grécia e, desapontados com os caprichos do mar Egeu, decidem punir suas ondas açoitando-as.
    • Por desmedida, ou má medida, os atenienses, ao fim da guerra do Peloponeso, abrigaram suas frotas num canto perigoso de onde os espartanos as desalojaram sem custo para exterminá-las, o que pôs fim à guerra e deu a vitória definitiva a Esparta.
  • A paz, contudo, não é a alegria de viver, mas uma ocasião favorável que a torna possível, como diz Aristófanes, que exalta menos a paz que as felicidades a ela ligadas, o que lhe censuram os adversários políticos, por preferir os bens da terra ao triunfo da vitória e dos exércitos.
    • A vantagem imediatamente sensível da paz é interromper, por algum tempo e diante de certos inimigos, a guerra, mas a cessação da guerra não conduz necessariamente à alegria de viver, que não se funda em circunstâncias, ainda que as mais felizes.
    • A paz não é exatamente o contrário da guerra, assim como a alegria não significa a cessação de uma tristeza; tais concepções veem na alegria o negativo das desgraças e ignoram-lhe o teor positivo.
    • A alegria de repelir inimigos talvez seja o simples negativo do tédio de tê-los suportado por dez ou quatro anos.
    • Isso não minimiza a paz, mas sugere que essa paz, altamente desejável e conquistada por um tempo pelos atenienses, não contém a essência do chamado “milagre grego” nem dá acesso a uma serenidade ou paz duradoura da alma, que os gregos provavelmente não conheceram, mas que alguns souberam esboçar em sua escultura ou literatura.
  • A invenção maior de que os europeus são devedores parece ser a da medida, inspiradora de suas mais belas realizações estéticas, e também a da denúncia de seu contrário, a desmedida: o que se faz sem ponderação, transgredindo os caminhos que a medida e o razoável recomendam, está fadado ao fracasso e ao desastre.
    • Os Gigantes, as Amazonas e os Centauros fracassaram por ter transposto a “linha amarela” que separava o razoável do desarrazoado, como a que, na estrada, separa o que é permitido ultrapassar do que é proibido.
  • O que é medido é ditado pela razão; o que não o é, pela desrazão ou desmedida, que os gregos designaram com uma palavra, hýbris (ubris).
    • A hýbris é paixão tão universal quanto grega, embora os gregos a tenham nomeado, para criticá-la, como uma paixão que parece afetar os homens desde o começo dos tempos: uma loucura que consiste em ir, ou querer ir, além do campo do possível.
    • Sucumbiram a ela os Gigantes, as Amazonas e os Centauros, mas também Ícaro, que quis voar até o sol, e os construtores da torre de Babel, que devia subir ao céu para achar o princípio de uma língua universal, cujo projeto tiveram por herdeiros os criadores do esperanto e, a meu ver, os que hoje sonham com uma língua universal obtida pelos trabalhos da chamada filosofia analítica.
  • A hýbris grega não está muito longe do que hoje se chama cólera: ambos os surtos passionais são ao mesmo tempo irreprimíveis e agradáveis, mesmo engendrando os piores danos.
    • Homero faz Achille dizer, no livro XVIII da Ilíada, que pereça entre deuses e homens o furor que leva o homem a sair de si, ainda que razoável, e que parece mais doce que o mel na língua, subindo como fumaça no peito humano.
    • A cólera é, assim, um docinho a que não se resistiria mais que Ulisses, se tivesse ouvido sem dano o canto das sereias na Odisseia.
  • Desde que pôde ler a Ilíada no original, o autor sempre se alegrou de achar, no verso 109 do livro XVIII, a expressão glukiôn mélitos (mais doce que o mel) escolhida por Homero para caracterizar a cólera.
    • O homem deseja abandonar-se a esse mel, tão doce que lhe tira todo juízo e dele se apodera sem resistência, tentação do pior, ao contrário do remédio de gosto infecto que cura.
    • Bem outra é a atração pela guerra, que cura os loucos (os hospitais psiquiátricos se esvaziam) e enlouquece as pessoas sensatas.
  • A hýbris, se jamais chega a impor-se em definitivo e a lograr o que se propõe, não carece de todo argumento para vencer, mas se choca com temível adversário que os gregos lhe opuseram: Nêmesis (némésis), de início divindade secundária, depois entidade divina encarregada de punir os excessos provocados pela hýbris.
    • Toda empresa de hýbris que fracassa é detida, em seu impulso ou em seu resultado, por bloqueio ou punição de Nêmesis, guardiã do “não exagerar”, atenta a deter tudo o que exagera.
  • Perto do fim do século XX, dois acontecimentos históricos ilustraram com perfeição a natureza da hýbris e da nêmesis, o desvario da primeira e sua punição pela segunda.
    • Os ditadores militares, pouco apreciados, que governavam a Argentina desde um golpe de Estado (1967) tiveram a loucura, para redourar seu brasão, de tomar as ilhas Malvinas, posse inglesa, e por um instante se pôde crer no início de uma terceira guerra mundial, opondo de modo inesperado a Argentina à Grã-Bretanha, quando se esperavam antes russos e americanos.
    • Do mesmo modo, os ditadores gregos, os célebres “coronéis”, decidiram, por razões da mesma ordem, tomar Chipre, já independente e povoada de gregos e turcos.
    • O destacamento argentino foi esmagado pela frota inglesa e o grego pelo exército turco, tardia e distante revanche de Maratona, o que acarretou, no mesmo ano, creio, de 1974, a queda dos ditadores argentinos e dos coronéis gregos: a nêmesis cumprira sua obra.
    • Uma sociedade beneficente inglesa organizou então um leilão das armas e roupas deixadas pelos argentinos, que não tinham outro recurso senão fugir, com lucros destinados aos feridos ingleses e às famílias dos soldados mortos, e o leilão transcorreu com uma seriedade absoluta, embora de fachada, digna do melhor humor inglês: por exemplo, o lote 170, uma bota em estado ainda razoável, abandonada por um sargento argentino em sua debandada, sem que se tenha achado a outra bota, com lance inicial de 2.000 libras.
    • Isso lembra um pouco o célebre leilão de Intriga internacional (La Mort aux trousses), de Hitchcock.
  • A paz não é evidentemente alheia ao desabrochar da arte grega do século V, embora não seja estritamente sua causa: Atenas produziu suas maiores obras-primas durante os cerca de trinta anos seguintes à vitória de Maratona, que repeliu a invasão persa.
    • Uma pilhéria de Aristófanes, que talvez não seja proibido levar a sério, sugere em A Paz que esse vínculo existe: o esforço conjugado dos camponeses atenienses conseguiu, não sem pena, tirar a paz do poço em que fora precipitada, e Hermes explica a Trigeu, viticultor ateniense, que Fídias estivera um pouco implicado nos eventos que levaram ao seu desaparecimento.
    • Trigeu replica que ignorava haver relação entre a paz e Fídias, e o Corifeu diz que também só hoje o aprende, o que talvez explique por que ela é tão bela: é parenta desse ilustre artista.
  • É curioso que quem melhor soube sugerir a calma, a emoção e a serenidade próprias da arte grega tenha sido um poeta que escrevia no auge da corrente romântica que se abatia sobre a Inglaterra e a Europa: John Keats, com sua Ode sobre uma urna grega.
    • O poeta contempla uma urna grega vista de frente, da qual não pode ver a face oculta, como a face da Lua, para sempre invisível da Terra, e pergunta quem são os que vêm ao sacrifício, a que altar verde o sacerdote misterioso conduz a novilha que muge para os céus, com os flancos de seda ornados de guirlandas, e que pequena cidade, à beira de rio ou mar ou construída no monte, esvaziou-se de seu povo nessa manhã piedosa, cujo silêncio ninguém poderá jamais explicar.
    • Como nas estrofes anteriores, nada se move (“Detesto o movimento que desloca as linhas”, Baudelaire), nada se ouve, ninguém se abraça, nada de visível acontece; o efeito maior dessa espécie de imobilidade do tempo é que tudo o que não se percebe, mas se adivinha, tem duração assegurada.
    • O que vai durar é móvel, mas imóvel o que não existe: caberia opor à fórmula famosa (“O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel”, Platão e Plotino) uma fórmula inversa, a de que o tempo é a aparência imóvel da realidade móvel.
    • O amante permanecerá junto à amada e a primavera continua (“O ano não terá mais inverno”, Malherbe), e os aldeões que desertaram seus lares voltarão de sua peregrinação; ainda é cedo (esta manhã piedosa), e à noite haverá festejos e danças na aldeia, pois, como sugere Debussy no terceiro movimento de Ibéria, estamos por ora apenas na “manhã de um dia de festa”.
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