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rosset:2013:sartre-2

Sartre questionado

ROSSET, Clément. Faits divers. Textes réunis et présentés par Nicolas Delon et Santiago Espinosa. Paris: Presses Universitaires de France, 2013. (Collection Perspectives critiques).

  • A reticência diante da pessoa e da obra de Jean-Paul Sartre explica-se de saída por algo que todos já sabem: Sartre não é filósofo, romancista, dramaturgo, escritor nem artista, mas sempre e somente um moralista.
    • O cuidado com a apreciação moral dos fatos e das pessoas parece prevalecer nele sobre qualquer outro, a ponto de se perguntar seriamente se a consideração da realidade enquanto tal, independentemente dos juízos morais a seu respeito, chegou alguma vez a reter sua atenção, ainda que por um instante; não se encontra em sua obra vestígio de interesse pela realidade, tal como aqui é concebida.
    • O exame escrupuloso do que é sincero ou “autêntico” (authentique), do que é recomendável, do que deveria ser e do que não deveria relega facilmente à sombra a consideração do que é, do que realmente existe: pouco importa o que é, importa apenas o que é “justo” pensar a respeito.
    • Maria-Antonietta Macciocchi podia declarar sem embaraço tanto seu fervor pelo pensamento do presidente Mao Tsé-tung e seu ideal revolucionário quanto sua indiferença à realidade histórica da China sob o domínio do mesmo Mao: que tudo tenha dado certo ou não, esse modelo permanecerá; Vincent Descombes comentou com ironia que não se poderia partilhar melhor o principal do secundário, sendo secundário o que acontece aos chineses na China e exemplar o que dela se pode dizer entre nós.
    • Roger Hanin afirmou recentemente na televisão francesa, a propósito de seu filme Train d'enfer, que o drama real que o inspirou (assassinato gratuito e atroz de um jovem argelino em novembro de 1983, na linha Bordeaux-Toulouse, cometido por três semianalfabetos superexcitados e embriagados) não tinha interesse comparado ao remodelamento de fatos e personagens que concebeu para uma lição mais alta de moral cívica (assassinato friamente premeditado por um raciocinador fascista que leva a loucura até o fim), sugerindo que a verdade está não no que realmente se passou, mas no que seu filme sugere.
    • Essa desatenção ao real é a marca mais característica do moralismo, venha de Sartre ou de qualquer autor apaixonado por moral, e é também o que há de propriamente desagradável em toda moral: não só erigir-se em juiz e pretender constranger cada um ao seu ponto de vista, mas sobretudo fazer desaparecer o objeto de que fala em proveito das instruções que dele quer extrair, como se descarta uma embalagem vazia após o uso.
    • A moral dispensa do real, e esse é ao mesmo tempo seu privilégio, sua motivação primeira e a razão de sua eterna popularidade.
  • Sartre ocupa-se incessantemente não da essência das coisas, isto é, de sua realidade, mas de suas imagens mais inconsistentes, contestáveis e superficiais: o lugar que ocupam numa “história” e num “destino” mais que problemáticos e o crédito que se lhes pode atribuir numa escala de valores igualmente problemática, ou seja, questões de atualidade tais como as percebe confusamente uma opinião necessariamente mal informada.
    • Se nada há de mais real que o presente, nada há de mais irreal que o que se chama atualidade; Lucrécio já explicava que o cuidado com os eventos é marca de incuriosidade pela realidade material, pois os eventos não têm existência própria como a matéria nem existem à maneira do vazio, sendo mais justo qualificá-los de acidentes da matéria e do espaço.
    • O que Sartre trata é sempre rico em desenvolvimentos intelectuais e morais, mas estranhamente pobre em consistência material: ao falar de um restaurante, dirá que tipo de clientela o frequenta, qual sua disposição de espírito, se a relação do cliente com o alimento é sincera ou inautêntica, mas nunca o que ali se come nem se a cozinha é esmerada.
    • Esse pretenso materialista é completamente indiferente à “matéria” das coisas, e por isso suas descrições de objetos e personagens em romances e teatro são tão pouco sugestivas: as árvores do jardim em A Náusea são de papelão (carton-pâte), a cidade é construção abstrata e seus habitantes entidades puramente cerebrais, cuja única função é serem porta-vozes de uma opinião ou ponto de vista.
  • A obscuridade e a dificuldade de leitura dos escritos propriamente “filosóficos” de Sartre provêm sobretudo de ele ter tentado transcrever preocupações de ordem moral (em O ser e o nada) ou política (na Crítica da razão dialética) numa linguagem filosófica que lhes era inadequada.
    • Daí uma escrita falseada de saída pela confusão dos gêneros literários, complicações inúteis e intermináveis longuras, de que não resulta, em definitiva, nem posição filosófica sólida nem posição política clara.
    • A divisa de Boileau (o que se concebe bem enuncia-se claramente) nunca foi a de Sartre, nem o preceito de Horácio: seja qual for o que ensines, sê breve.
  • Resta reconhecer que Sartre, nos Cadernos da guerra de mentira (Carnets de la drôle de guerre), publicados postumamente, julgou-se a si mesmo com lucidez e severidade que lhe fazem honra e desencorajam de saída toda crítica, tornada assim supérflua.
    • Ele se diz atingido de moralismo: a moral compensava, e nunca acreditou que não compensasse.
    • Por austeridade protestante de justiceiro adotara um pensamento cortante e rude, e não queria apenas ser grande escritor nem ter uma bela vida de grande homem, mas ser alguém “de bem” (« bien »).
    • Mereceria ainda mais dessa vida se nela vivesse moralmente, e a biografia seria mais rica e mais comovente se esse homem que tudo conheceu e amou apaixonadamente, e que deixou obras belas, fosse além disso um homem “de bem”.
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