User Tools

Site Tools


rosset:2013:cioran

Cioran

ROSSET, Clément. Faits divers. Textes réunis et présentés par Nicolas Delon et Santiago Espinosa. Paris: Presses Universitaires de France, 2013. (Collection Perspectives critiques).

  • Georges Roditi apresentou Cioran pessoalmente ao autor por volta de 1968, e na mesma época Georges Lambrichs, diretor da La Nouvelle Revue française, também se fez seu ardente advogado junto a Cioran.
    • Roditi, então empenhado na redação de seu Esprit de perfection, que corrigiu e refez durante longos anos, fora diretor literário das edições Plon e orgulhava-se de ter sido o primeiro a publicar, numa revista de que já não se recorda o nome, um texto de Cioran escrito em francês.
    • Ele acreditou, como Lambrichs, discernir certa convergência de vistas entre Cioran e o autor, e convidou-os para almoçar em sua casa, o que deu início às relações entre ambos.
    • Depois disso, o autor jantou muitas vezes na água-furtada (soupente) de Cioran, na rue de l'Odéon, sempre que vinha a Paris, pois trabalhava e vivia então em Nice.
  • Da cortesia e da gentileza de Cioran nada se dirá, pois quem o conheceu as conhece, exceto que não é frequente encontrar alguém atingido por profundo sofrimento que disso não tire razão alguma para queixar-se aos outros.
  • Por mais estranho que pareça aos admiradores que desconhecem a potência cômica do homem e de sua obra, as conversas daquelas noites eram quase sempre de riso incontido.
    • Cioran tinha em reserva toda uma coleção de histórias hilariantes, e o autor um pequeno lote capaz de desanuviá-lo e arrancá-lo por um tempo à melancolia, razão pela qual ele parece ter-se afeiçoado depressa: “Gosto de rir, mas não gosto de rir sozinho”, escreveu ele, provavelmente a chave principal da relação.
    • Ele era o comandante do cômico e o autor seu imediato ativo; as anedotas trocadas diziam respeito a extravagâncias ocorridas no mês, fossem fatos diversos, fossem loucuras que haviam divertido o mundo à custa de personalidades culturais ou políticas.
    • Eram como os Ho-Ho, semideuses da mitologia chinesa, instalados a meia distância entre o céu e a terra, como Evélpides e Pisetero em As aves de Aristófanes, a passar o tempo torcendo-se de rir ao contar um ao outro as últimas imbecilidades humanas.
  • Simone, companheira de sempre de Cioran, era preciosa ajuda por seu humor, sua cultura e sua grande maestria culinária, e servia generosamente um notável Saint-Émilion que fazia a felicidade do autor e enfurecia Cioran, que por razões médicas só tinha direito a um quarto de copo.
    • Esse vinho teria papel importante no dia dos funerais de Cioran.
    • Um dia o autor foi à casa deles com as mãos atacadas por uma doença de pele (psoríase), identificada naquela tarde; Cioran, abrindo um grosso dicionário médico, disse depois de longo silêncio: “Simone, ele pode ficar, não é contagioso.”
  • Depois do jantar, Cioran costumava acompanhar o autor a pé até a ilha de Saint-Louis, onde ficava hospedado em casa de um parente, pois adorava caminhar, sobretudo à noite, e falavam então às vezes de assuntos mais sérios, que giravam em torno da idade e da velhice: Eheu fugaces, Postume, Postume, labuntur anni (ai, fugazes, Póstumo, Póstumo, correm os anos).
    • Nunca falaram de filosofia em todos aqueles anos, pois não era o que ele esperava do autor, que sabia exatamente o que ele pensava por ter lido tudo o que então publicara, sendo e permanecendo grande admirador de sua escrita decapante, muitas vezes salpicada de achados burlescos, e subscrevendo a justeza de suas análises, salvo um detalhe: o autor considerava a vida um paraíso, ele um inferno, questão de que trata o capítulo sobre Cioran que encerra La Force majeure.
    • Lembra-se da opinião de Cioran sobre a leitura de Nietzsche por Heidegger, tida por embuste e desonestidade intelectual, o que era também seu parecer.
    • O único intercâmbio realmente filosófico deu-se numa tarde, sentados frente a frente em assentos rebatíveis (strapontins) do metrô da linha 6, quando, sem saber aonde iam, o autor disse de súbito: pensa exatamente o contrário do que Cioran pensa e, no entanto, não há uma só frase dele com que não concorde inteiramente; ele respondeu, consternado e com seu sotaque romeno: “Evidentemente, é a verdade!”
  • Os gostos musicais diferiam totalmente, e o autor nunca o observou: Cioran só era sensível ao que, para o autor, respirava tédio e depressão, como Brahms, mas tais gostos eram eclipsados por seu amor a Johann Sebastian Bach.
  • O enterro de Cioran, no cemitério de Montparnasse em 1995, foi talvez sua obra-prima absoluta, embora involuntária, para o autor que o assistia um tanto de longe.
    • A sra. Ionesco convencera Simone, bastante relutante, a conceder a Cioran as honras fúnebres do rito ortodoxo romeno: missa pontuada pelo sermão de um pope suplicando a Deus que perdoasse os abomináveis escritos de Cioran, e sepultamento com uma fileira de garrafas do célebre Saint-Émilion em torno da cova ainda vazia e um certo bolo dos mortos, do qual todos deviam comer um pedaço regado com meio copo de vinho.
    • Antes que o cortejo chegasse, os coveiros, tomando as vitualhas à beira da cova por espécie de gorjeta, consumiram a metade e puseram a outra a salvo em seu barracão ao ver a assistência se aproximar, e, interrogados, limitaram-se a agradecer o presente até que lhes explicassem o equívoco.
    • Começaram então negociações à porta do barracão, que esbarraram num compromisso do qual os coveiros em plena revolta, sob a influência de um líder de choque, não queriam abrir mão: devolveriam, se exigido, as garrafas ainda cheias e a metade do bolo, mas essa humilhação e esse “lucro cessante” (manque à gagner) teriam por contrapartida outra: não enterrariam Cioran, em greve ilimitada do pessoal do cemitério.
    • O acordo demorou a ser encontrado, e o autor chegou a crer por um momento que Cioran, que tanto precisava, ficaria para sempre privado do repouso eterno.
rosset/2013/cioran.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki