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rosset:2012:start

Invisível

ROSSET, Clément. L'invisible. Paris: Les Éditions de Minuit, 2012.

Epígrafe

PRELÚDIO

I — O INVISÍVEL TAL COMO SE O VÊ

II — O RETRATO ENCANTADO

III — O QUE FALAR QUER DIZER

IV — ESPECTROS E FANTASMAS

V — POÉTICA DO INVISÍVEL


  • O invisível de que aqui se trata não concerne aos objetos que uma impossibilidade material proíbe de ver (como um rosto mergulhado na escuridão), mas àqueles que se julga ver embora não sejam de modo algum perceptíveis, por não existirem ou não estarem presentes (como um rosto ausente de uma sala iluminada).
    • Essa espécie de “existência” de objetos inexistentes, ou de visibilidade do invisível, concebida independentemente de toda patologia alucinatória, parece evidentemente uma contradição nos termos.
  • Tais objetos, porém, existem e são legião, pois o que o autor chamou alhures de “faculdade antiperceptiva” (faculté anti-perceptive) é dupla e complementar.
    • É a faculdade, primeiro, de não perceber o que se tem diante dos olhos, mas também a de perceber o que não existe e escapa por isso necessariamente a toda percepção: ver, ou crer ver, o que não se pode ver, pensar o que não se pensa, imaginar o que na realidade não se imagina.
    • O homem possui a faculdade de crer frequentemente apreender objetos eminentemente equívocos, dos quais se pode dizer ao mesmo tempo que existem e que não existem, e que são menos percepções ilusórias que ilusões de percepção.
    • Esses objetos paradoxais diferem dos miragens vistos no mar ou no deserto, primeiro porque o miragem é uma imagem que qualquer um pode realmente perceber, depois porque reflete um corpo real situado abaixo do horizonte, ao passo que a ilusão de percepção alia a invisibilidade à inconsistência.
    • Se, na ilusão de percepção, o objeto da visão não existe, a “visão” do objeto, ou sua imaginação, nem por isso deixa de existir, e daí a pergunta: que se vê quando não se vê nada? E, como pergunta Jean Paulhan: que se pensa quando não se pensa em nada?
  • Essa faculdade de ver o que não se vê, ou de pensar o que não se pensa, mera generalização da primeira, desafia o bom senso e pode parecer ela mesma ilusória, mas milhares de fatos cotidianos afirmam seu caráter bem real.
    • A simples leitura de provas de estudantes, sobretudo de filosofia, testemunha com abundância essa espantosa faculdade de nada pensar julgando de boa-fé pensar algo, e eles não estão inteiramente errados, pois, se o pensamento não existe, a prova está lá para atestá-lo, ou pretende atestá-lo.
    • Conseguir falar ou escrever de coisa nenhuma é façanha notável, mais surpreendente ainda que a vacuidade do propósito, e certos filósofos profissionais conseguem por vezes vencer também essa aposta.
  • A faculdade de captar objetos inexistentes revela um caráter estranho e algo inesperado do pensamento, e essa esquisitice não carece de interesse nem de importância, pois é justamente a essa faculdade de crer ver e crer pensar, quando nada é visto nem pensado, que os homens devem o essencial de suas ilusões.
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