2.2 Melancolia como doença
Erwin Panofsky — SATURNO E A MELANCOLIA
a) A melancolia na teologia e na filosofia moral
1. As observações de Guilherme de Auvergne conduzem da ideia aristotélica de melancolia à dos psicopatologistas, para quem ela era apenas doença mental, questão tratada também por outros teólogos sob esse ângulo, pois uma doença mental que atacava os piedosos e espirituais não apesar de sua piedade, mas por causa dela, colocava um problema particularmente agudo para a filosofia moral cristã, embora quase ninguém tenha chegado ao extremo do hino de Guilherme em louvor da melancolia, possível apenas a alguém inteiramente cristão e inteiramente aristotélico.
2. Entre as discussões da teologia moral sobre a melancolia patológica destaca-se a exortação de Crisóstomo ao monge Stagirius, escrita em 380 ou 381 d.C., em que o estado do protegido é chamado não melancolia, mas abatimento, athymia, sintoma principal da doença melancólica e cuja etiologia e semiologia concordam tão bem com as definições médicas que a tradução de Johannes Trithemius por tristeza melancólica é plenamente justificada, sendo essa epístola a descrição mais detalhada e penetrante da típica melancolia monástica.
- Testemunhas contemporâneas chamam expressamente de melancolia o mal de Stagirius, com comiseração ou censura.
- O texto oferece uma rica visão do ascetismo dos primeiros séculos do cristianismo.
- Stagirius sofria pesadelos aterrorizantes, distúrbios da fala, ataques e desmaios, desesperava de sua salvação e era atormentado por um impulso irresistível ao suicídio.
- Desesperava-o que nada disso lhe tivesse ocorrido antes da vida monástica, o que os médicos achariam muito natural, e ver alguns companheiros curarem-se ao voltar ao mundo e casar-se.
3. O consolo oferecido por Crisóstomo era um apelo à providência divina, que permite ao demônio tentar e ao homem resistir para conduzir a alma à virtude pela necessidade de defender-se, e que, como o árbitro na palestra, impõe aos fortes maiores trabalhos para recompensá-los mais no Juízo, tendo enviado essas tentações a Stagirius, que ao adotar a vida religiosa descera das arquibancadas à arena, quando sabia que ele tinha força para vencê-las, de modo que seus tormentos são ganhos e o demônio só alcança poder real sobre o asceta quando este cede, e, embora a tristeza melancólica facilite a vitória do demônio, o abatimento pode ser vencido pela consideração de que é sofrimento vindo não da própria culpa, mas da providência.
4. Guilherme de Auvergne via na doença melancólica uma graça, e Crisóstomo uma prova que a reflexão razoável torna compreensível e suportável, como também Maimônides tentou combater a desesperação melancólica com consolos semelhantes, referidos antes a um desprezo estoico do presente que a uma esperança religiosa, mas a melancolia podia ser vista também como vício, identificada à pecaminosa acedia, irmã ou mãe da tristitia, pela semelhança dos sintomas, às vezes expressamente ligados à atra bilis, ou ainda, interpretação mais conforme aos desejos espirituais dos devotos, como castigo celeste infligido pela providência, em parte como retribuição dos pecados passados, em parte como prevenção dolorosa dos futuros.
- Os sintomas desses pecados eram timor, taedium cordis, instabilitas loci, amaritudo animi e abandono da esperança de salvação ou perdão.
5. Santa Hildegarda de Bingen ligava a origem do humor melancólico à Queda, pensando não só na doença e no temperamento melancólico, que tinha por especialmente desfavorável, mas em todo desvio do estado perfeito e harmonioso do homem no Paraíso, e, combinando agudeza realista para o detalhe e gosto pelo simbolismo audacioso, característicos de muitos místicos e nela especialmente marcados, descreveu nas Causae et curae os sintomas da melancolia com precisão clínica para interpretá-los teologicamente, afirmando que, com a transgressão de Adão, o fel se converteu em amargura e a melancolia na negrura da impiedade.
6. Descrevendo o humor melancólico como tenaz e elástico como goma, Hildegarda pinta vividamente sua origem no corpo de Adão pela Queda, pelo sopro da serpente e sugestão do diabo, pois, se o homem tivesse permanecido no Paraíso, estaria isento de humores nocivos, mas os homens tornaram-se tristes, acanhados e inconstantes, como vento forte que não serve a ervas nem frutos, e no momento em que Adão pecou a melancolia coagulou-se em seu sangue, interpretação expressiva da doutrina médica da hypostasis, como o pavio que continua a queimar, fumegar e cheirar mal quando se apaga a lâmpada, enquanto antes da Queda o que agora é fel brilhava como cristal e tinha o sabor das boas obras e o que agora é melancolia luzia como aurora e continha a sabedoria e a perfeição das boas obras, extinguindo-se com a transgressão o brilho da inocência, cegando-se os olhos que contemplavam o céu e tornando-se o fel amargura e a melancolia negrura.
7. Essa concepção trágica reintroduzia em parte a antiga ideia do blasfemo punido com a loucura, mas, substituindo uma culpa individual pelo pecado original, transformava uma tragédia pessoal em tragédia de toda a humanidade, sem admitir mitigação nem consolo moral, sendo a melancolia a poena Adae sofrida por toda a raça, mal hereditário e essencialmente incurável cujos piores sintomas só um médico podia atenuar, e a própria santa falava nas Causae et curae tanto como médica quanto como teóloga.
8. Coube à malícia hipócrita de Gaspar Offhuys, autor de notável descrição da doença de seu companheiro noviço Hugo van der Goes, interpretar a loucura melancólica como castigo do orgulho espiritual de um homem de grande talento, correção para a vítima e advertência para os demais, relatando os privilégios concedidos ao famoso pintor ao entrar no mosteiro em 1475, escandalosos para os irmãos, as visitas nobres com quem comia e bebia e a curiosa doença mental que o acometeu em viagem, quando dizia sem cessar estar condenado à danação eterna e queria ferir-se mortalmente, impedido apenas pela força dos presentes.
9. Chegados a Bruxelas, chamou-se o abade, que, julgando a doença de Hugo semelhante à do rei Saul, mandou que se fizesse música diligentemente para ele, segundo a prescrição ainda válida da psiquiatria antiga, e recomendou outros spectacula recreativa para afastar suas fantasias, mas Hugo só se recuperou muito depois de voltar ao mosteiro.
10. As causas da doença de Hugo podiam ser naturais, como alimentos melancólicos, vinho forte e paixões da alma, preocupação, tristeza, estudo excessivo e temor, pois o artista se afundava em pensamentos sombrios por desesperar de alcançar suas aspirações artísticas e talvez o vinho agravasse seu estado, ou a providência divina, que queria salvá-lo do pecado de vaidade causado pela admiração excessiva e reconduzi-lo à modéstia por uma humiliativa infirmitas, modéstia que ele mostrou após a recuperação, renunciando aos privilégios, mas em ambos os casos sua sorte devia servir de advertência salutar, pois era preciso evitar as causas naturais, refreando fantasias, imaginações, suspeitas e pensamentos vãos, e as situações morais que obrigassem a Providência a intervir, humilhando-se o orgulhoso antes que Deus, que abate os orgulhosos e não quer sua destruição, o humilhasse a ponto de torná-lo exemplo para os outros.
b) A melancolia na medicina escolástica
I. A antiga medicina árabe e sua tradução ao Ocidente: Constantino Africano
11. Diferentemente das misturas de concepções teológicas e médicas de Santa Hildegarda e de muitas obras medievais, sobretudo do século XII, Gaspar Offhuys traçava uma linha nítida entre a causa por acidente natural e a causa pela providência divina, e as causas naturais que apontava, alimentos melancólicos, vinho forte, paixões da alma e a malícia do humor corrompido dominante no corpo, eram exatamente as de Rufo de Éfeso e seus seguidores da Antiguidade tardia.
12. O relato desse cronista monástico revela a notável estabilidade das teses da psiquiatria clínica desde o helenismo tardio, devida sobretudo a que a monografia de Constantino Africano sobre a melancolia, de grande importância para o Ocidente, se baseava direta ou indiretamente em Galeno e em sua exposição de Rufo, e a que os antigos tratados árabes, absorvidos pela escola de Salerno e por todo o Ocidente, usavam as concepções gregas tardias com ponto de vista mais prático, sendo o autor copiado por Constantino Ishaq ibn Imran, cuja obra, louvada como incomparável por um historiador árabe do século XIII, voltou a pôr em primeiro plano os fatores espirituais, descrevendo a melancolia como ideias perturbadas pela bílis negra, com medo, ansiedade e nervosismo, doença da alma condicionada pelo físico, capaz de atacar as três virtutes ordinativae e de reagir sobre o corpo, com sintomas ilimitadamente diversos e frequentemente contraditórios.
- Serapião, cujos escritos circularam às vezes sob o nome de Janus Damascenus, e Rhazes buscavam mais o aperfeiçoamento da semiologia e da terapia, com medicamentos, dieta e sangrias, que maior compreensão psicológica ou refinamento teórico.
- Diz-se que Ishaq ibn Imran foi executado no início do século X.
- As três virtutes ordinativae são imaginação, razão e memória, e a doença pode causar insônia, perda de peso e alteração de todas as funções naturais.
- Os loquazes e irritáveis podem tornar-se silenciosos e pacíficos, os acanhados e calados ousados e eloquentes, uns vorazes, outros recusando alimento, muitos passando de um extremo a outro.
13. Alguns melancólicos amam a solidão, a escuridão e o afastamento dos homens, outros os lugares espaçosos, luminosos e relvados e os pomares ricos em frutos e regatos, alguns gostam de cavalgar, ouvir música ou conversar com pessoas sábias ou amigáveis, alguns dormem demais, outros choram, outros riem.
14. Somam-se a isso diversas obsessões, temor do que não deve ser temido, pensamento sobre o que não deve ser pensado, sensação do que não existe, e à diversidade e contradição dos sintomas corresponde a das causas, pois, segundo a experiência, a melancolia pode sempre nascer de causas opostas, como toda espécie de voluptuosidade e um ascetismo exagerado demais.
15. Junto às causas materiais estavam as espirituais, ideia originada em Rufo e descrita com belas palavras que reconhecem o fardo da realização intelectual, lembram a definição hipocrática do pensamento como parto da alma e evocam a doutrina platônica da reminiscência, segundo as quais os estados de ânimo dos melancólicos flutuam entre excitação irascível e mansidão, ousadia e acanhamento, tristeza e frivolidade, e as atividades da alma racional, pensar com afinco, recordar, estudar, investigar, imaginar, buscar o sentido das coisas, fantasiar e julgar, levam em pouco tempo à melancolia quando exercidas em excesso.
- Muitos santos e piedosos tornam-se melancólicos por grande piedade, temor da ira de Deus ou grande anseio de Deus, que acaba por dominar e esmagar a alma, caindo na melancolia como os amantes e voluptuosos.
- Caem na melancolia todos os que se esforçam demais na leitura de livros filosóficos, de medicina, de lógica, de teoria geral, de aritmética, de astronomia, de geometria, chamada pelos árabes ciência das linhas, e de música, ciência da composição das melodias e notas.
- Essas ciências são produtos da alma, que as isola e explora, e seu conhecimento é inato na alma, como diz Galeno lembrando Platão.
- Tais homens assimilam a melancolia com a consciência de sua fraqueza intelectual e, aflitos por ela, caem na melancolia.
- A causa do adoecimento da alma é a fadiga e o esforço excessivo, pois, segundo Hipócrates no livro VI das Epidemias, a fadiga da alma procede de seu pensamento, e, assim como o esforço corporal excessivo leva a graves doenças, o esforço mental excessivo leva a graves doenças, das quais a pior é a melancolia.
16. O tratamento, sempre difícil e laborioso, devia adaptar-se à diversidade de sintomas e causas, com regulação das seis coisas vitais, ar, comida, bebida, sono e vigília, evacuação e retenção, repouso e movimento, prescrição de medicamentos e sobretudo medidas espirituais, pois, embora o médico devesse vencer a substância do mal, materia infirmitatis, os sintomas acompanhantes, accidentia, especialmente graves, perigosos ou ofensivos, deviam ser tratados primeiro, como no caso da doença mental melancólica.
17. O médico deve lutar contra as suspeitas dos melancólicos, dar-lhes o que antes lhes agradava e empregar discursos razoáveis e agradáveis, diversas espécies de música e vinho aromático, claro e muito leve.
18. Devia-se evitar o esforço mental, mas, segundo Rufo citado por Constantino, o comércio sexual moderado era desejável, pois pacifica o austero, refreia a soberba e ajuda os melancólicos, e, lembrando que Rábano Mauro recomendava maior dedicação aos estudos contra a acedia dos piedosos e Crisóstomo perseverança na abstinência contra o abatimento dos ascetas, encontra-se aqui a principal contradição insolúvel entre a psicopatologia médica e a teológica ou ética, mantida com poucas exceções até as controvérsias atuais, enquanto os capítulos sobre a melancolia na Theorica e Practica Pantegni de Constantino, mais curtos e derivativos, baseados no Liber regius de Ali ibn Abbas e representativos do saber árabe pouco antes de Avicena, tiveram influência quase igual, servindo de esquemas às práticas médicas posteriores, que começam com a definição da melancolia como alienação mental sem febre e ligam o amor, chamado hereos e associado ao heroico, à melancolia como species melancholiae, o que foi decisivo para o tipo literário do amante melancólico.
- Ali ibn Abbas, Haly Abbas, morreu em 994.
- Esses extratos breves eram muito inferiores à monografia de Ishaq ibn Imran em erudição e amplitude de visão.
II. Tentativas de sistematização a partir da patologia humoral: a doutrina das quatro formas de Avicena
19. Os primeiros salernitanos ainda não conheciam Avicena, morto em 1037, e a distinção, derivada de Rufo, entre um succus melancholicus, sedimento do sangue, e uma melancholia adusta, nascida da combustão da bílis amarela, perturbara a lógica do esquema dos quatro humores e foi depois usada para classificar a diversidade dos sintomas, admitindo Ali ibn Abbas e Constantino melancolia não natural a partir da bílis vermelha ou da bílis negra queimadas, acrescentando-se depois uma terceira forma, do sangue aduste, que dava base genética às diferenças entre sintomas depressivos, eufóricos e maníacos, faltando apenas uma quarta forma, da fleuma queimada, negada pela escola de Salerno anterior, e a mente ordenada de Avicena adotou um princípio único de divisão que inseriu plenamente a melancolia no sistema dos quatro humores.
20. A melancolia é natural ou devida a secreção e inatural, e desta última uma espécie nasce da bílis incinerada, outra da fleuma incinerada, outra do sangue incinerado e a quarta da melancolia natural incinerada.
21. A doença melancólica pôde assim ter base sanguínea, colérica, fleumática ou melancólica natural, esta última uma melancolia ao quadrado, sistema que acoplava a diversidade dos sintomas à das causas e combinava a teoria canônica da combustão de Galeno com a doutrina dos quatro humores, vigente até os séculos XVII ou XVIII, pois a medicina medieval posterior limitou-se a glosar Avicena e até os salernitanos posteriores a adotaram, assim como enciclopedistas do século XIII, médicos de Gordonius e Guglielmo de Corvi a Giovanni da Concorreggio e Antonio Guainerio e humanistas de Ficino e Melanchthon a Burton, segundo Avicena, para quem a bílis negra misturada ao sangue se une à alegria e ao riso sem tristeza intensa, misturada à fleuma à inércia, pouco movimento e calma, misturada à bílis amarela à agitação, violência e obsessões, semelhantes ao furor, e pura produz máxima cavilação e menos agitação e furor, salvo provocação, briga ou ódio inesquecível.
22. Desses poucos traços marcados constrói-se um quadro cada vez mais vívido, até que Melanchthon, imbuído da concepção heroica do Problema XXX, 1, enobrece as quatro formas da doença com exemplos clássicos e mitológicos e, incluindo Demócrito, antecipa o tipo romântico do humorista melancólico.
- Nascida do sangue e por ele temperada, a melancolia produz a insânia dos néscios felizes, como a loucura alegre de Demócrito, que ria da estupidez humana e, pela tranquilidade de ânimo, viveu até cento e nove anos.
- Nascida da bílis vermelha ou por ela temperada, produz horríveis desvarios e furores, como a loucura de Héracles e de Ájax, e Virgílio chama negra a bílis na cólera de Alcides porque a vermelha se mistura a maior quantidade de negra e com ela se queima e se reduz às mesmas cinzas.
- Temperada por muita fleuma, produz apatia incomum, como numa pessoa perturbada que dormia quase continuamente, falava sem expressão e só se animava ao som do alaúde, erguendo a cabeça, sorrindo e respondendo com alguma alegria.
- Quando a bílis negra, já preponderante, se inflama, produz depressão profunda e misantropia, como a aflição de Belerofonte, que, segundo Homero, vagava infeliz e sozinho pelos campos de Aleia, roendo o coração e evitando os rastros dos homens.
III. Tentativas de classificação sobre base psicológica: Averróis e a medicina escolástica
23. A doutrina das quatro formas permitia muitas distinções importantes, e até a diferença entre melancolia e furor, sempre problemática e às vezes confusa já na Antiguidade, podia reduzir-se à fórmula relativamente clara segundo a qual a melancolia nascida da cólera se chama propriamente mania.
24. Havia também outra opinião, que atribuía a diversidade dos distúrbios mentais não à alteração dos humores nocivos, mas às faculdades lesadas da mente, e segundo Averróis, num capítulo sobre os acidentes das três virtudes imaginativa, cogitativa e memorativa, a melancolia podia atacar o cérebro inteiro e paralisar as três faculdades ou lesá-lo parcialmente conforme seu campo de ação, lesando a imaginação na parte anterior, a razão e o pensamento na parte média e a memória e a conservação na parte posterior.
25. Essa teoria não era inteiramente nova, pois Asclepíades distinguira um distúrbio melancólico da imaginação e outro do entendimento, Ishaq ibn Imran e Constantino falavam das três virtutes ordinativas, o médico Posidônio, no século IV d.C., associara os distúrbios da imaginação, do entendimento e da memória às lesões das partes anterior, média e posterior do cérebro, e Ali ibn Abbas e Constantino reforçaram essa tese com exemplos de Galeno, mas antes de Averróis a conexão explícita da melancolia com as partes do cérebro não parece difundida, sendo de início eclipsada pela patologia humoral pura, que depois complementou, ganhando importância nos séculos XII e XIII com a submissão da medicina à escolástica e a necessidade de descrição sistemática das funções e distúrbios da alma, e contribuindo para dar cunho escolástico às controvérsias sobre a melancolia, centradas na diversitas laesionis operationum.
- Às vezes as doenças da memória eram incluídas na melancolia, mas era mais comum equiparar a melancolia à lesão da virtude imaginativa ou estimativa, ou cogitativa, ou de ambas, considerando o distúrbio da memória doença especial, a letargia.
- A doutrina das três faculdades servia para diferenciar as formas do distúrbio melancólico e para esclarecer a velha discussão entre furor e melancolia.
- Nos que julgavam não ter cabeça ou viam homens negros, a imaginação estava perturbada, mas entendimento e memória intactos.
- Os que, durante uma epidemia, esqueciam os nomes dos parentes continuavam a pensar e imaginar corretamente.
- O doente que lançava pela janela uma criança e vasos de vidro estava lesado não na imaginação nem na memória, mas no pensamento e no juízo, por não saber que os vasos eram frágeis e a criança vulnerável e julgar correto livrar a casa dessas coisas como se fossem nocivas.
26. A medicina tardo-medieval acrescentou pouco à ideia tradicional, pois o saber médico infiltrou-se na literatura médica popular de calendários, farmacopeias e herbários, e os médicos, embora insistissem em falar como physici e não como filósofos ou teólogos, adotaram cada vez mais o modo de pensar da escolástica tardia, enriquecendo com distinções sutis o problema da origem demoníaca da melancolia sem ir além do ceticismo de Avicena, diferenciando causas substanciais e acidentais, sintomas gerais e especiais e medidas terapêuticas, sem tocar o núcleo da concepção, pois o estudo sério e o pensamento profundo continuavam a ser apenas causas ou sintomas da doença e a inspiração superior, como diria Dürer, aparecia ao médico como mera alienação, estando para ele tão doentes os profetas adivinhos quanto os que desesperavam da salvação, os que julgavam falar com anjos ou a mulher que dizia deitar-se com o demônio toda noite e que se curou pela graça de Deus, pois já então o verdadeiro médico não reconhecia santos nem bruxas.
- Nas exposições teóricas dava-se muito menos atenção que na prática ao método bárbaro de acorrentar, açoitar e queimar o paciente.
- Controvérsias metodológicas entre médicos e filósofos eram discutidas com entusiasmo crescente.
27. Houve, porém, uma revolução de enormes repercussões, a impregnação do pensamento médico, racional e voltado ao microcosmo humano, por ideias astrológicas e mágicas nascidas da especulação sobre o universo, transformando a medicina em iatromatemática, processo iniciado nos séculos XIII e XIV por Miguel Escoto, Pietro d'Abano e Arnaldo de Vilanova, mas essencialmente produto do Renascimento, ligado à renovação do saber tardo-clássico orientalizado e da ideia aristotélica de melancolia, amadurecido com Ficino e Gioviano Pontano na Itália e com Agrippa de Nettesheim e Paracelso na Alemanha.
28. As especulações iatromatemáticas relacionam-se com as ideias medievais como a arte dos séculos XV e XVI com o gótico, e um exemplo típico de transição, que revela ao mesmo tempo conexão histórica e diferenças básicas, é Antonio Guainerio, professor em Pádua morto em 1440, representante típico da medicina escolástica, mas predecessor de Ficino, pois no quarto capítulo de seu tratado sobre a melancolia pergunta por que certos melancólicos iletrados se tornaram letrados e como alguns predizem o futuro, dedicando a essas questões um longo capítulo, o que denota renovado interesse pela adivinhação e consideração séria da inspiração melancólica, tratada não como delírio, mas como fato, como no caso de um camponês iletrado que compunha poemas durante seus ataques periódicos de melancolia, comparado por Guainerio, primeiro médico em sentido estrito a aludir ao Problema XXX, 1, ao poeta Máraco mencionado por Aristóteles, que se tornou poeta ao tornar-se melancólico.
29. Guainerio nega a explicação aristotélica, a qualidade peculiar do humor melancólico, e recusa como pagã a atribuição, que diz sancionada por Avicena, desses feitos a influências demoníacas, propondo uma interpretação essencialmente nova: todas as almas intelectivas são igualmente perfeitas no princípio e nascem com todo o conhecimento que podem alcançar, diferindo na vida apenas pelas constituições físicas, desiguais, que entorpecem o intelecto, de modo que a alma encarnada esquece suas ideias inatas e recorda pelo aprendizado parte do que esqueceu, sendo o saber uma reminiscência, como quis Platão, e o momento da encarnação é regido por uma constelação que lhe dá qualidades e aptidões, mas cujas influências atuam limitadamente, pois a alma presa ao corpo conhece discursivamente, e, quando o êxtase ata os sentidos, a alma, sozinha, revive brevemente seu estado pré-natal, percebe sine discursu, por intuição direta, e recebe sem adulteração a influência de seu astro, e, como o melancólico é propenso a esse estado extático, pode tornar-se literatissimus sem ter aprendido, apenas por influxo.
30. As ideias com que poucos anos depois se construiria em Florença uma imponente estrutura doutrinal, o tema do Problema XXX, 1, a epistemologia platônica e sobretudo a crença num influxus astral, já confluíam aqui, por mera coincidência, e iriam transformar gradual e inelutavelmente a ideia de natureza e obrigar a própria medicina a tomar posição, mas Guainerio, embora aludindo a Aristóteles, negava a parte essencial da concepção aristotélica, vendo nas prodigiosas qualidades intelectuais do melancólico sintomas de doença a explicar, e não realizações de um gênio determinado pela melancolia natural, perguntando por que os doentes melancólicos exibem às vezes dons notáveis, sem perguntar por que os homens de dons inatos especiais são sempre melancólicos por natureza, e, enquanto em Ficino e seus sucessores as influências astrais formaram uma visão de mundo completa em que a arte de curar se fundiu com a magia, cosmologia aplicada, a digressão iatromatemática de Guainerio foi um corpo estranho, isolado e ameaçador numa escola de medicina voltada ao prático e mundano, como mostram sua abertura e sua conclusão.
- Na abertura, admite que a solução desses problemas não é inteiramente pertinente numa obra dedicada à cura prática, mas quer oferecer uma explicação verossímil para não ficar mudo diante dos leigos que perguntam pela origem desses sintomas nem parecer ignorante das causas dos acidentes humanos.
- Na conclusão, com suspiro de alívio, deixa aos teorizadores as dificuldades nada leves que as causas atribuídas acarretam e encerra o capítulo passando à gloriosa prática.
