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kolakowski:2004:heraclito

Heráclito

KOLAKOWSKI, Leszek. Why is there something rather than nothing?: 23 questions from great philosophers. Translated by Agnieszka Kołakowska. London: Penguin Books, 2007.

  • Heráclito era às vezes chamado “o filósofo que chora”, talvez por lamentar frequentemente a estupidez humana, sendo também conhecido como “o obscuro” devido a seu estilo enigmático e ambíguo, restando de sua obra fragmentos aforísticos hoje amplamente conhecidos, como “tudo flui” ou “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”.
  • Tais máximas contribuíram para a imagem de Heráclito como expoente da mudança e da impermanência eterna, imagem correta apenas em parte, pois, embora falasse de mudança perpétua, jamais afirmou, como seu seguidor Crátilo, que se deveria abandonar a linguagem em favor de gestos por ser o conhecimento impossível; do fato óbvio de que tudo muda não decorre, para Heráclito, que as coisas que vemos sejam ilusórias, pois, apesar de olhos e ouvidos serem testemunhas falhas, alguns eleitos podem ter acesso à sabedoria, que consiste em compreender o Logos, palavra traduzida geralmente como “medida” ou “ordem”, arranjo graças ao qual o mundo, apesar de sua mutabilidade, constitui unidade ordenada, misturando-se e transmutando-se entre si os três elementos terra, fogo e mar, sendo o fogo o elemento primário e a realidade mais ativa.
  • A mudança constante não é caos, havendo proporção e equilíbrio nessa transformação, manifestando-se em toda parte o jogo dos opostos, sem o qual o mundo desabaria, alguns simples, como início e fim de um círculo, outros consistindo na transformação gradual de uma qualidade em outra, como do quente ao frio, e outros ainda produzindo tensão, como a de uma flecha disparada; vê-se também esse jogo no fato de que as mesmas coisas operam diferentemente em criaturas diferentes, sendo a água do mar boa para os peixes e má para os homens, supondo-se que o célebre aforismo “o caminho para cima e para baixo é um só e o mesmo” trate também dessa mútua transmutação dos opostos, expressa mais claramente na afirmação de que a guerra é pai e rei de todas as coisas.
  • Muitas máximas heraclíticas podem parecer banalidades, seja por sua notória concisão, seja por parecerem afirmar o óbvio, mas sua força reside em algo além do talento retórico: legou às gerações futuras a crença numa ordem do mundo, ordem que pode estar oculta ou parcialmente oculta, pois a natureza tende a esconder-se e a harmonia invisível é mais forte que a visível, ordem à qual tudo está submetido; embora ainda não apareça a expressão “lei da natureza”, Heráclito fala do “Cosmos”, universo ordenado mas em constante movimento e conflito de opostos, ordem não criada por mão alguma, divina ou humana, mas sempre existente.
  • O modo heraclítico de pensar o mundo opõe-se ao de Parmênides: multiplicidade e conflito são o real, tensão e movimento são reais, e nosso conhecimento deles também o é, não havendo unidade misteriosa, imóvel e incompreensível a buscar, não sendo o movimento e a mudança véus de ilusão; há quem pense que a Teoria das Formas platônica, entidades imutáveis contrapostas à multiplicidade das coisas particulares impermanentes, tenha sido elaborada como resposta ao mundo heraclítico, resposta distinta da de Parmênides mas igualmente movida pela busca do imutável.
  • É Deus, ou são os deuses, imutáveis? Heráclito por vezes usa a palavra “deus” no singular, mas seria precipitado atribuir-lhe crença num Deus único reconhecível como o ser divino das religiões monoteístas, sendo Deus dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, fome e saciedade; seria então Deus simplesmente tudo que existe em sua multiplicidade? Mas nesse caso a palavra “Deus” seria enganosa e desnecessária, faltando-nos a chave para entender como o “deus” heraclítico se relaciona com o Cosmos e o Logos, sabendo-se apenas que Heráclito desprezava a religiosidade popular e a superstição, como a oração diante de imagens, e não acreditava na “verdade” que se pretendia obter dos mistérios órficos ou dionisíacos, mas certamente a palavra “deus” não figura ali como mero ornamento literário.
  • É igualmente difícil extrair das palavras de Heráclito uma teoria coerente da alma humana: sabe-se que ela é insondável e seus limites imensuráveis, e que a melhor e mais sábia espécie de alma é a seca, ainda que não se saiba exatamente o que isso significa, exceto que o homem embriagado torna sua alma úmida, não sendo a alma seca simplesmente a de um homem sóbrio, mas presumivelmente a de quem domina a si mesmo e suas emoções, pensando racionalmente sem se deixar levar pelas paixões; feita de fogo, a alma se perde ou morre ao transformar-se em água, podendo-se supor, por extrapolação, que retorne após nova transformação, não morrendo as melhores almas com o corpo, sendo mais puras as que morrem na guerra que as mortas por doença.
  • Aristóteles via com maus olhos a filosofia de Heráclito por supor que ela negava o princípio de não contradição, base do pensamento racional, mas ao afirmar que a mesma coisa pode ser e não ser, Heráclito certamente não pretendia autorizar afirmações logicamente contraditórias, mas apenas indicar que, no processo eterno e necessário de mudança conduzido pelo Logos, diferentes qualidades podem transformar-se gradualmente em seus opostos, podendo algo parecer simultaneamente tal e não tal durante essa transformação.
  • Concluamos perguntando, apesar da obscuridade desse filósofo enigmático, algo que, se respondido, explicaria toda sua metafísica e cosmologia: pode-se discernir algum desígnio divino por trás dessas mudanças eternas, por trás da guerra consumidora de coisas em conflito perpétuo, desígnio que não apenas abrange o Cosmos mas lhe confere participação no bem e no mal? Têm tais atributos algum lugar no mundo heraclítico?
  • Podemos buscar resposta hipotética numa única frase, citada pelo neoplatônico Porfírio, que talvez mais que qualquer outra resuma todo esse mundo opaco: “Para Deus tudo é belo, bom e justo.” O que isso pode significar senão que, se o mundo é assim para Deus, ele realmente o é: belo, bom e justo?
  • Eis então a questão que surge ao refletirmos sobre o Cosmos heraclítico: poderíamos fazer a mesma afirmação sobre o Deus cristão? Poderia quem tem fé no Deus cristão descrever a visão divina do mundo do mesmo modo? Deus conhece todo o mal presente em Suas criaturas humanas, conhece a feiura e a injustiça de seus atos; que significaria então dizer que a Seus olhos tudo é belo, bom e justo? Deixando de lado aqui o enigma teológico sobre Deus e o mal, e contentando-nos com a onipotência divina em seu sentido comum, o que significaria dizer que aos olhos de Deus, ou seja, na realidade, tudo é belo, bom e justo? E o que pode significar quando é Heráclito quem o diz, já que não oferece explicação alguma?
  • E se não rejeitarmos isso como absurdo obscuro, faz sentido atribuir tal visão de mundo ao Deus do cristianismo? Poderia essa ideia, que desafia o senso comum, ter lugar na crença cristã? Eis a questão.
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