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kolakowski:1999:tolerancia

Tolerância

KOLAKOWSKI, Leszek. Freedom, fame, lying and betrayal essays on everyday life. London: Routledge, Taylor & Francis Group, 2018.

  • A palavra “tolerância” tornou-se muito popular na atualidade, mas seu uso vago e descuidado faz com que se perca de vista seu real significado; embora o termo já existisse no latim clássico, o problema da tolerância emergiu como questão social na Europa do século dezesseis em decorrência dos cismas e conflitos religiosos, significando então a recusa em perseguir outros por suas crenças e práticas religiosas, objetivo pelo qual se buscava reformar a lei para impedir o Estado de impor pela força a religião dominante; apesar de sucessivas revogações de éditos e retorno das perseguições ao longo da história marcada por horrores, pode-se afirmar que a batalha pela tolerância foi, em geral, vencida nos países nominalmente cristãos, ao contrário do que ocorre em países islâmicos onde movimentos agressivos e intolerantes permanecem poderosos, sendo hoje tão amplamente aceito o princípio de abstenção estatal em matéria religiosa que até os países comunistas europeus, apesar da dura repressão às igrejas, ao clero e aos fiéis, o admitiam ao menos verbalmente.
  • Tudo isso parece simples e incontroverso, mas um exame mais atento revela complicações, pois a aplicação do princípio da tolerância exige não apenas leis, mas condições culturais adequadas que não podem ser criadas por decreto; os defensores cristãos da tolerância nos séculos dezesseis e dezessete argumentavam que não deveríamos massacrar uns aos outros por divergências sobre a Trindade, a Eucaristia ou a predestinação, já que Deus, no Juízo Final, não indagaria sobre opiniões teológicas, mas sobre a observância dos mandamentos evangélicos, levando à conclusão implícita de que as diferenças dogmáticas entre igrejas e seitas seriam irrelevantes, ainda que fosse mais difícil convencer as próprias igrejas disso, e mesmo em países relativamente tolerantes, como a Holanda seiscentista, o ateísmo declarado não fosse tolerado; assim se infiltrou no conceito de tolerância um novo sentido, o de indiferença, distinto tanto cultural quanto psicologicamente da posição que tolera grandes erros para evitar guerras religiosas sem, contudo, considerá-los indiferentes.
  • A tolerância também diz respeito não apenas às leis religiosas, mas ao comportamento e à moral humanos, sendo tolerante quem não persegue nem exige a perseguição de outrem e evita reagir agressivamente àquilo que reprova ou que o choca; usa-se o termo em sentido semelhante na medicina, ao falar da tolerância do organismo a certos medicamentos, e na França as antigas “casas de tolerância” e as placas de “estacionamento tolerado” ilustram esse sentido de aceitação relutante daquilo que, em geral, não é considerado bom.
  • Atualmente, porém, a tolerância exigida costuma significar indiferença, pedindo-se que nos abstenhamos de expressar ou mesmo de sustentar qualquer opinião e que aceitemos todo tipo de comportamento ou opinião alheia, ideal próprio de uma cultura hedonista sem responsabilidade nem crenças, fomentado por filosofias hoje em voga segundo as quais não existiria verdade no sentido tradicional, de modo que persistir em nossas convicções, ainda que sem agressividade, seria automaticamente pecar contra a tolerância.
  • Esse ideal constitui um disparate nocivo, pois o desprezo pela verdade prejudica a civilização tanto quanto a insistência fanática nela, e uma maioria indiferente abre caminho para fanáticos, sempre numerosos, sendo esse o espírito de nossa civilização que incentiva a crença de que tudo deve ser mera diversão, como nas filosofias infantis do chamado “Nova Era”, cujo conteúdo é impossível de descrever por significarem qualquer coisa que se queira.
  • Temos o direito de defender nossas convicções: quando a Igreja considera as práticas homossexuais moralmente erradas com base em sua tradição teológica sem exigir sua criminalização, não incorre em intolerância, mas quando organizações homossexuais exigem que a Igreja abandone seu ensinamento, chegando a atacar igrejas na Inglaterra, são elas que demonstram intolerância, pois os homossexuais que discordam da Igreja são livres para deixá-la, sendo a tentativa de impor suas próprias opiniões a ela, de forma agressiva, uma defesa não da tolerância, mas de sua negação, já que a tolerância só é efetiva quando recíproca.
  • Costuma-se dizer que as pessoas devem ser punidas por seus atos, não por suas opiniões, mas a linha entre ambos nem sempre é clara, como no caso da incitação ao ódio racial, que muitos racistas defendem como mera expressão de opinião, quando na verdade a expressão verbal também constitui ação capaz de produzir efeitos danosos, exigindo-se soluções de compromisso sempre desconfortáveis, porém inevitáveis; o mesmo dilema atinge a questão de tolerar movimentos hostis à própria tolerância, que buscam destruir os mecanismos que a protegem, os quais podem ser tolerados enquanto pequenos, mas tornam-se invencíveis ao crescer, de modo que a tolerância ilimitada acaba por se voltar contra si mesma e destruir as condições de sua própria existência, entendendo-se que movimentos que visam destruir a liberdade não deveriam gozar da proteção da lei, já que a tolerância corre menos risco com esse tipo de intolerância do que com a retirada dessa proteção.
  • Não existe princípio bom que não possa ser usado para mal: pode ser aceitável banir a propagação de ideologias racistas, mas nos Estados Unidos pesquisadores que estudam a distribuição estatística de habilidades em populações racialmente definidas foram acusados de racismo de modo inaceitável, pois embora tal pesquisa exija cuidado e seja suscetível de exploração propagandística, proibi-la sob esse pretexto seria pior que seus efeitos indesejáveis, por implicar o princípio totalitário de banir toda pesquisa científica cujos resultados contrariem as ideias aceitas de uma época, devendo-se antes criticá-la com bons contra-argumentos do que estabelecer uma ditadura ideológica sobre a investigação científica.
  • A tolerância é mais bem protegida não tanto pela lei, mas pela preservação e fortalecimento de uma sociedade tolerante, já que todos possuímos potencial de intolerância e forte necessidade de impor nossa visão de mundo aos demais, para sentirmo-nos seguros e dispensados de confrontar nossas crenças com as alheias, o que explica a agressividade dos confrontos entre diferentes crenças religiosas, filosóficas ou políticas; mas se a intolerância, entendida como desejo de converter outros por meios agressivos ou coercitivos, fosse erradicada por um modo de vida em que nada importa exceto a diversão, estaríamos condenados a cair, mais cedo ou mais tarde, sob alguma forma de ideocracia, não devendo, portanto, opor à exaltação da coerção a exaltação da indiferença generalizada.
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