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Poder
KOLAKOWSKI, Leszek. Freedom, fame, lying and betrayal essays on everyday life. London: Routledge, Taylor & Francis Group, 2018.
- Um ex-Chanceler britânico, ao ser perguntado se gostaria de ser primeiro-ministro, respondeu com surpresa que certamente todos gostariam, mas essa resposta causa estranheza, pois muitas pessoas nunca nutriram tal ambição, não por acharem suas chances reduzidas, mas por considerarem o cargo um fardo de dores de cabeça, responsabilidades enormes e exposição permanente a ataques e más interpretações.
- A afirmação de que “todos querem poder” depende do sentido atribuído ao termo; em sentido amplo, poder é tudo que permite influenciar o entorno humano ou natural na direção desejada, e esse domínio se manifesta desde os primeiros passos de uma criança até a aquisição de novas habilidades culturais como línguas, xadrez ou natação.
- Essa concepção ampla de poder sustenta teorias segundo as quais toda atividade humana seria expressão da busca por poder: a riqueza seria buscada por conferir domínio sobre coisas e pessoas, e até o sexo seria explicado como desejo de possuir ou excluir outros da posse, remetendo a um instinto presente em toda a natureza.
- Mesmo atos de altruísmo poderiam ser reinterpretados nessa chave, como se a bondade escondesse o desejo de exercer controle sobre a vida alheia, de modo que nenhuma esfera da existência escaparia dessa busca por poder, sendo qualquer outra explicação mera ilusão.
- Teorias que reduzem todo comportamento humano a um único tipo de motivação explicam pouco, pois sua defensabilidade universal revela sua natureza de mero artifício filosófico; equiparar o sacrifício pelo próximo à tortura do próximo elimina qualquer critério válido de distinção entre as ações, ainda que sirva para aliviar a consciência ao supor que todos, no fundo, são igualmente maus.
- Certas correntes do pensamento cristão, hoje praticamente obsoletas, incorriam em tentação semelhante ao sustentar que, sem a graça divina, tudo o que se faz é mau, e com ela tudo é necessariamente bom, tornando irrelevante ajudar ou torturar o próximo, já que os pagãos, por mais nobres que fossem, estariam de qualquer forma condenados.
- Os proponentes de tais teorias buscam sempre uma chave mestra capaz de abrir todas as portas, mas não existe explicação única satisfatória para tudo, pois a cultura se desenvolve justamente porque as pessoas são movidas por motivações diversas e necessidades novas, que se desprendem de suas funções originais e se tornam partes autônomas da cultura.
- Apesar da fragilidade explicativa das teorias totalizantes, o poder permanece um bem largamente desejado, sendo entendido, em sentido mais restrito, como o meio de que dispõe um indivíduo ou uma entidade coletiva para influenciar outros e controlar seu comportamento pela força ou pela ameaça de força, o que pressupõe uma organização coercitiva, hoje encarnada no Estado.
- Todos desejam que os demais se comportem de maneiras julgadas apropriadas, isto é, benéficas a si próprios ou conformes ao próprio senso de justiça, o que não implica, contudo, que todos desejem ser reis, lembrando a observação de Pascal de que só um rei destronado se sente infeliz por não ser rei.
- Sabe-se que o poder corrompe, não sempre, mas com frequência suficiente; sabe-se também que quem o detém por tempo prolongado tende a sentir-se com direito natural a ele, como os monarcas que se julgavam investidos por direito divino, de modo que sua perda é vivida como catástrofe, e que a disputa pelo poder tem sido a principal fonte de guerras e outros males do mundo.
- A existência desses males vinculados ao poder deu origem a utopias anarquistas ingênuas segundo as quais a única cura seria eliminar o poder por completo, chegando, em suas versões mais extremas, a considerar tirânico o próprio poder dos pais sobre os filhos, inclusive o ensino da língua materna, propondo deixá-los em estado natural para inventarem sua própria cultura.
- Variantes menos absurdas de anarquismo visam apenas abolir o poder político, supondo que, sem governos, administrações e tribunais, a humanidade viveria em paz e fraternidade; contudo, a anarquia não se instaura por simples decisão, mas apenas quando colapsam as instituições de poder, abrindo espaço para que forças ávidas de poder absoluto imponham sua própria ordem despótica, como no caso exemplar da Revolução Russa, de modo que, na prática, a anarquia é serva da tirania.
- O poder não pode ser abolido, apenas substituído por formas melhores ou piores de governo; tampouco é verdade que a paz fraterna reinaria sem o poder político, pois a divergência e o conflito de interesses decorrem da própria natureza humana, marcada por certa agressividade e por desejos sem limite, de modo que o desaparecimento das instituições políticas resultaria não em fraternidade universal, mas em morte generalizada.
- Nunca existiu, nem existirá, um “governo do povo” em sentido literal, o que sequer seria tecnicamente viável; o que pode existir são salvaguardas que permitam ao povo fiscalizar o governo e substituí-lo por outro, ainda que, uma vez no poder, o governo imponha restrições em áreas importantes da vida, como a educação obrigatória dos filhos, o pagamento de impostos ou a exigência de habilitação para dirigir.
- Os mecanismos de controle popular sobre o governo nunca são infalíveis, podendo um governo democraticamente eleito ser corrupto e tomar decisões contrárias à vontade da maioria, sem jamais satisfazer a todos.
- Ainda assim, a forma mais eficaz já inventada para evitar a tirania consiste em fortalecer continuamente os instrumentos de controle social sobre os governos e restringir seus poderes ao mínimo necessário à manutenção da ordem, já que a regulação de todas as esferas da vida é precisamente a essência do poder totalitário.
- Convém, portanto, tratar os órgãos do poder político com desconfiança, controlá-los de perto e reclamar deles sempre que necessário, sem contudo questionar a própria existência do poder e de suas instituições, a menos que se seja capaz de inventar um mundo diferente, empreitada em que muitos já se aventuraram sem êxito.
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