kolakowski:1999:mentira
Mentira
KOLAKOWSKI, Leszek. Freedom, fame, lying and betrayal essays on everyday life. London: Routledge, Taylor & Francis Group, 2018.
- A transmissão deliberada de informação falsa integra a ordem natural das coisas, como ilustram a borboleta que se disfarça de folha morta para escapar de predadores, conduta que louvamos por sua função protetora, e a vespa que se disfarça de abelha para roubar o fruto do trabalho alheio, conduta que condenamos por sua finalidade parasitária.
- Julgamentos morais semelhantes recaem sobre as mentiras humanas, algumas chocantes e outras justificáveis; filósofos como Kant e Santo Agostinho defenderam a proibição absoluta da mentira em qualquer circunstância, mas tal imperativo, além de improvável de ser cumprido, pode conflitar com deveres como a bondade para com o próximo ou o interesse público, como no caso extremo de esconder um judeu da SS durante a ocupação na Segunda Guerra, situação em que ninguém dotado de consciência entregaria a vítima em nome do princípio de nunca mentir.
- Governos frequentemente mentem a seus cidadãos, direta ou por omissão, muitas vezes para evitar críticas e encobrir erros, mas há mentiras justificáveis por atenderem genuinamente ao interesse nacional, como no caso de questões de segurança de Estado ou da negação de planos de desvalorização cambial, cuja revelação prematura provocaria enormes prejuízos ao país diante da especulação financeira.
- Existe uma linha tênue entre a falsidade e virtudes sociais como a discrição e a polidez, sem as quais a vida em sociedade seria muito pior, de modo que pessoas que insistem em sempre dizer a verdade, ou o que consideram ser a verdade, são vistas como grosseiras.
- Uma questão mais complexa e debatida diz respeito à veracidade dos médicos perante pacientes terminais, cuja não informação sobre a gravidade da condição constitui mentira, direta ou por omissão; os costumes variam entre países e os argumentos de ambos os lados apelam geralmente a princípios humanitários e ao interesse do paciente e da família, não ao valor da verdade em si mesma.
- O senso comum reconhece que há circunstâncias em que mentir se justifica por uma boa causa, mas o problema reside em definir essa “boa causa” sem estendê-la a tudo que convenha aos próprios interesses, já que nem toda conveniência pessoal constitui boa causa para os demais, sendo difícil conceber definição que abarque todos os casos imagináveis.
- Defensores do imperativo estrito contra a mentira argumentam que, se todos mentissem sempre que conveniente, a confiança mútua, condição necessária da vida em sociedade ordenada, seria completamente destruída, e que os próprios mentirosos seriam prejudicados por ninguém mais acreditar no que dizem.
- Esse argumento, embora não desarrazoado, não convence como justificativa de um imperativo moral absoluto contra a mentira, pois a erosão total da confiança mútua é perspectiva improvável: geralmente sabemos quando confiar e quando desconfiar de um interlocutor, já que raramente se mente sem razão, existindo tanto mentirosos contumazes mas inofensivos, que contam histórias fantasiosas sem que ninguém as leve a sério, quanto mentirosos patológicos, incapazes de dizer a verdade sobre qualquer coisa, mas igualmente inofensivos por não serem cred.
- A prevalência da mentira nos negócios, na política e na guerra não compromete a confiança nas relações privadas, pois os que atuam nesses campos sabem identificar quem pretende enganá-los e por quê, e até as mentiras publicitárias são menos nocivas do que parecem, já que leis de proteção ao consumidor punem alegações falsas de fato, como curar câncer, mas permitem exageros subjetivos, como afirmar que determinado sabão é o melhor do mundo, pois o objetivo do anunciante não é fazer crer nessa superioridade, mas fixar a imagem do produto na mente do consumidor pela repetição e familiaridade.
- As mentiras políticas ocorrem com frequência, mas nos países democráticos a liberdade de expressão e a crítica preservam a distinção entre verdade e falsidade, de modo que, mesmo quando um ministro nega falsamente algo que sabia, essa distinção permanece clara, o que não se pode dizer dos países totalitários, especialmente da era stalinista, em que a fronteira entre o verdadeiro e o politicamente correto se dissolveu completamente, levando as pessoas a passarem a crer, por medo, nos próprios slogans que repetiam, e até os líderes políticos a caírem vítimas de suas próprias mentiras, alterando-se assim a memória histórica de toda uma nação.
- Tratava-se não apenas de mentir, mas de tentar erradicar o próprio conceito de verdade em seu sentido normal, tentativa que não obteve êxito total mas causou vasta devastação mental, sobretudo na União Soviética, com efeitos mais brandos, ainda que sensíveis, na Polônia, onde o regime totalitário nunca atingiu seu pleno potencial; a liberdade de expressão e crítica, embora não elimine as mentiras políticas, é capaz de restaurar e proteger o sentido normal das palavras “falsidade”, “verdade” e “veracidade”.
- Ainda que existam circunstâncias em que mentir seja permissível ou mesmo desejável em nome de uma boa causa, não se segue que baste dizer que mentir às vezes é errado e às vezes não, princípio vago demais que poderia justificar qualquer mentira, nem que se deva educar as crianças segundo tal preceito; é preferível ensinar-lhes que mentir é sempre errado, para que ao menos sintam desconforto ao fazê-lo, aprendendo o resto sozinhas, rápida e facilmente.
- Diante da ineficácia de uma proibição absoluta contra a mentira e de seu potencial conflito com outros imperativos morais mais relevantes, não existe princípio geral capaz de abarcar todas as circunstâncias morais e oferecer solução infalível, mas certas máximas podem ser úteis para orientar a reflexão sobre a questão.
- A primeira máxima é o esforço de não mentir a si mesmo, o que implica ter consciência de quando se está mentindo, mesmo em nome de uma boa causa, sem entrar aqui na questão distinta do autoengano.
- A segunda é lembrar que as justificativas dadas a nós mesmos para mentir, e a própria noção de “boa causa” invocada, tornam-se sempre suspeitas quando essa causa coincide com os próprios interesses.
- A terceira é reconhecer que, mesmo quando justificada em nome de um bem moral maior, a mentira não se torna, ela própria, moralmente boa.
- A quarta é ter consciência de que a mentira, embora frequentemente prejudicial a terceiros, é ainda mais frequentemente prejudicial a quem mente, por seus efeitos corrosivos sobre a própria alma.
- A observância dessas quatro máximas não fará de nós santos nem eliminará a mentira do mundo, mas pode ensinar cautela no uso da mentira como arma, mesmo quando seu uso for inevitável.
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