grassi:1970:2.1.3

2.1.2 As aporias da linguagem

GRASSI, Ernesto. Macht des Bildes: Ohnmacht der rationalen Sprache. Zur Rettung des Rhetorischen. Colônia: DuMont Schauberg, 1970 (Versão ampliada e canônica em língua italiana: Potenza dell'immagine: Rivalutazione della retorica, Bolonha: Il Mulino, 1989). / Poder da Imagem. Impotência da Palavra Racional. Em Defesa da Retórica. São Paulo: Duas Cidades, 1978

As aporias da linguagem: som, voz animal, palavra: a experiência da objetividade

1. O desenvolvimento multifacetado do homem, que inclui o conhecimento racional, é atestado pela palavra, sobretudo pela palavra poética, numa vasta gama de projetos possíveis, e os testemunhos dos artistas mostram os meios pelos quais buscaram alcançar a objetividade, em cuja moldura e tensão o ser humano chega pouco a pouco ao conhecimento.

2. A abertura do homem ao mundo é, por um lado, a premissa dos projetos possíveis pelos quais ele interpreta e ordena o mundo humano e, por outro, a origem de perguntas que podem ser englobadas na palavra, o logos.

3. O termo logos, originalmente sem significado filosófico especial, deriva de légein, reunir e selecionar, o que suscita a questão de como a linguagem pode unir o que se relaciona e separar o que não se relaciona, e se a causa primeira desse reunir, por ser primária e nunca resultado de seleção, não escaparia às palavras, manifestando-se como princípio, arché e regra dominante apenas por sinais e imagens primordiais que representariam a realidade oculta além da realidade empírica e cotidiana de que falaram os artistas.

4. A palavra escrita e a falada parecem hoje intercambiáveis numa época que cultua a escrita a ponto de desvalorizar constantemente a fala, o que explica a incompreensão moderna da retórica, reduzida a mero interesse histórico, e o peso que ainda tem o veredicto de Descartes de que quem possui a inteligência mais penetrante e torna seus pensamentos mais claros persuade melhor, mesmo falando em dialeto e sem jamais ter aprendido retórica.

5. Essa concepção trivializa a personalidade, a paixão e a atitude do orador, reduzindo a palavra falada à expressão do que poderia ser escrito com maior precisão em discursos estritamente lógicos, idolatria da palavra puramente racional e da escrita que as culturas grega e romana desconheciam, e por isso convém descrever o fenômeno da linguagem, suas dificuldades e dilemas, em referência à questão dos sinais e das imagens.

6. Na tradição ocidental confrontam-se duas teses contraditórias sobre a essência da linguagem, a primeira das quais nega seu caráter natural, physei, e, em razão da diversidade das línguas, a considera resultado de uma convenção, nómos, pela qual os homens teriam dado nomes às coisas segundo o desenvolvimento histórico variado dos povos.

7. A tese convencionalista enfrenta a dificuldade de explicar como se chegaria a um acordo sobre os nomes sem a posse prévia da linguagem, dificuldade contornada pela afirmação de que os nomes se compõem de elementos sonoros que exprimem sensações elementares como dor, alegria, medo ou humor, cujas expressões fonéticas comuns teriam permitido a compreensão mútua necessária ao estabelecimento convencional dos nomes entre povos diferentes.

8. Esse mesmo argumento converte a tese convencionalista em seu contrário, pois, se os sons correspondem a sensações elementares, a linguagem adquire caráter natural, e as diferenças entre as línguas se explicariam por reações sonoras distintas às mesmas sensações, de modo que a linguagem natural seria a verdadeira e toda linguagem artificial afastada da natureza seria falsa.

9. Não é admissível, porém, falar de sons verdadeiros ou falsos, nem de substantivos, adjetivos e verbos que revelem ou ocultem a essência das coisas, pois verdade e erro só ocorrem no juízo e estão ligados, segundo Aristóteles, à conexão e à separação, enquanto substantivos e verbos isolados, como homem ou sabe, equivalem apenas à ideia que transmitem, sem verdade nem erro.

10. Como verdade e erro só aparecem na sentença julgada, construída a partir dos elementos anteriores da fala, torna-se problemático falar da verdade ou falsidade natural desses elementos e dos sinais audíveis ou visíveis, e, sendo isso impossível, permanece a questão de qual poderia ser ainda o sentido de uma língua.

11. Reflexões desse tipo só podem conduzir a aporias.

12. As vozes animais e os sons da fala humana que delas se compõem consistem de sons físicos, e Aristóteles, no De anima, distingue os objetos insonoros, como a esponja e a lã, dos sonoros, como o metal e os corpos firmes e lisos, definindo o som como ruído que surge sempre de um objeto, em direção a algo e através de um meio.

13. O som resulta de um movimento mecânico que só se transforma em som ao ocorrer entre objetos que colidem e a audição, por meio de um meio, e, como a audição é órgão e instrumento da vida, onde não há vida não há som nem silêncio, mas apenas movimento mecânico, de modo que é a vida, com sua faculdade transformadora e transcendente, que retira a matéria que colide, o órgão e o meio de sua natureza mecânica e os converte em algo novo.

14. A transformação do som em voz, phoné, ocorre quando ele é o ruído de um ser animado, pois os seres inanimados só possuem voz por analogia, como a flauta, a lira ou outros objetos dotados de tons altos e baixos, sequências semelhantes ao canto e escalas fixas.

15. Embora pareça estranho que apenas a diferença de causa, animada ou inanimada, transforme o som em voz, a definição final da voz remete à sua natureza interpretativa, pois a natureza utiliza o ar respirado para duas finalidades, assim como usa a língua para provar e falar, sendo o gosto uma necessidade obrigatória e mais difundida e a interpretação, hermeneía, voltada para o bem e a perfeição.

16. A voz é não apenas interpretativa, mas também alusiva e semântica, pois nem todo ruído animal é voz, como a tosse, sendo necessário que o elemento animado produza a vibração em ligação com a faculdade imaginativa, já que a voz é sempre um som que alude a algo.

17. Quatro fatores distinguem a voz do som, a saber, que sua causa seja um ser animado, que constitua a interpretação de um fenômeno, que esteja ligada à fantasia e à imaginação e que seja não só interpretativa, mas também alusiva, um sêmantikós psóphos.

18. Deixando de lado o fator imaginativo, o som animal torna-se voz quando interpreta e assim indica algo, como algo doloroso ou agradável, tendo simultaneamente significado hermenêutico e semântico, e, tal como os padrões animais, essa natureza interpretativa das vozes é inata e não resulta de ensino ou aprendizado individual, o que leva a perguntar como as vozes animais se tornam elementos de fala, de logos, no homem.

19. Para o animal a interpretação inata dos fenômenos é essencial, razão pela qual ele vive desde o nascimento num mundo e numa ordem firmemente estabelecidos e as vozes com que interpreta os fenômenos lhe são inatas e específicas da espécie.

20. O homem, ao contrário, não dispõe de um sistema inato de interpretação dos fenômenos nem da faculdade de aludir a eles de modo inequívoco e direto, carência que define a diferença essencial entre a origem das vozes animais e a da fala humana, pois, não estando fixada a padrões interpretativos ou alusivos estabelecidos, a fala exige que o próprio homem procure e forme os elementos interpretativos e alusivos de seus sons, o que funda o caráter histórico da linguagem humana, que acontece com o devir, o desenvolvimento e a história do homem.

21. Impõe-se perguntar qual a origem da interpretação humana dos fenômenos pela qual os sons vocais adquirem significado humano e surge a linguagem, e se o homem pode alcançar um ser em si, um reconhecimento da verdadeira natureza das coisas, e assim falar de modo verdadeiro e revelador, e não de modo falso, obscuro ou velado.

22. A existência de um ser em si e de uma objetividade dos fenômenos, pela qual uma língua pode ser correta ou falsa, é atestada antes pelo bom senso que pela filosofia, pois a experiência diária mostra que os inteligentes chegam ao âmago das coisas enquanto os não inteligentes, vendo apenas aparências, não atingem seu alvo, já que aparência e ser não são idênticos, embora habitualmente se busque a objetividade na disponibilidade abstrata e isolada das coisas, considerando-as independentes das ações humanas, como se fosse preciso conhecer primeiro o ser em si para depois lidar com elas.

23. O ser em si das coisas, entretanto, só se revela na ação humana e por meio dela, pois ao tentar lidar com as coisas aprende-se que não se pode agir arbitrariamente, mas apenas como exige sua natureza, e a essência delas se torna patente por meio de tentativas repetidas e em parte infrutíferas, isto é, pelo devir do homem e por sua história.

24. O reconhecimento de que o aspecto objetivo das coisas se revela na ação e na prática não resulta de teorias pragmáticas, histórico-dialéticas ou existencialistas modernas, mas já existia no pensamento grego, fato frequentemente esquecido.

25. No Crátilo, Platão relaciona originariamente a revelação da objetividade das coisas à prática e à ação humanas, pois toda ação contém um como determinado pela natureza das coisas, natureza que só se revela na ação e não independentemente dela, de modo que ao chegar ao âmago das coisas se encontra sua forma, o eidos, como mostra o exemplo de que só se corta corretamente e com proveito quando se corta segundo a natureza da coisa e com os meios adequados, ao passo que agir contra a natureza leva ao fracasso.

26. O significado originário de eidos, anterior a qualquer interpretação intelectualista que o reduza a fator puramente lógico, mostra que é no trato com as coisas que o homem experimenta sua objetividade e alcança a introspecção a partir da qual define os fenômenos, sendo a ação um meio para alcançar o fim, o que talvez explique por que os gregos chamavam a coisa de prâgma, termo que também significa prática, ação e feito e exprime a relação originária entre o objeto e a revelação de seu ser em si na prática.

27. A linguagem humana é, portanto, a combinação de sinais audíveis, interpretativos e alusivos de origem histórico-evolutiva, e precisamente nisso a fala se distingue das vozes animais, cujos significados estão estabelecidos desde o início conforme a espécie.

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