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gil:1984:2.4.c.1-4

2.4.c.1-4 Oposições e negação na Grécia

GIL, Fernando. Mimesis e Negação. Lisboa: Casa de Moeda, 1984.

c. Oposições e negação na Grécia

1. Nos pré-socráticos

1. O pensamento arcaico explora intensamente as possibilidades semânticas da oposição, como mostram as taxonomias primitivas que cindem pares de princípios em classes complementares, mutuamente exclusivas e exaustivas, e as dicotomias dos mitos ameríndios, das cosmologias indonésias, do Yin e Yang, do bramanismo e da religião romana, nas quais a polarização se acompanha frequentemente da busca de mediações e o tempo da narrativa mítica permite que determinações opostas convenham sucessivamente a uma mesma coisa, mas é somente na Grécia que o pensamento por opostos se converte em problema.

2. As duas espécies de oposição distinguidas por Aristóteles, a dos termos e a das proposições, foram amplamente praticadas na Grécia, a primeira desde as cosmologias jônicas e a segunda desde as antilogias, discursos antitéticos destinados a derrotar o adversário em seu próprio terreno e tematizados nos Argumentos Duplos segundo a tese protagórica de que sobre cada assunto há dois argumentos opostos.

3. O trabalho filosófico sobre as oposições foi preparado por práticas discursivas como as antilogias, as expressões polares de Homero e Hesíodo e os sistemas de oposições mítico-religiosas, e a filosofia, atravessada desde o início por oposições conceituais, submeteu esse discurso espontâneo à reflexão crítica de Parmênides, Platão e Aristóteles, da qual surgiram a teoria lógica da negação e a distinção entre as modalidades da oposição, como contradição, contrariedade, relação e privação.

4. Em suas formas elementares, o pensamento por opostos não faz distinções finas, pois Alcméon toma as contrariedades ao acaso e a tábua pitagórica, embora identifique os pares de opostos, mistura sem distinguir oposições sem intermediários, como simetrias, complementaridades e contradições, e oposições com intermediários, como dualidades e contrariedades, sem estabelecer derivações entre os termos nem extrair consequências cosmológicas, ao contrário de Aristóteles, que reduzirá todos os opostos ao par Uno e Múltiplo.

5. As primeiras cosmologias descrevem a formação do mundo como diferenciação a partir de um estado inicial mais simples, mas o poema de Parmênides nega a possibilidade de pensar a diferença e a mudança, reduzindo-as ao não ser, por meio de uma argumentação segundo a qual só o que é pode ser pensado, o que não é é impensável e não pode ser, e, devendo tudo ser ou não ser, o pensável é necessariamente.

6. Tomando como sujeito do é não o ente, mas o pensável, para evitar a tautologia, Parmênides demonstra que o que é é incriado, pois proviria do não ser impensável e inexistente, e insuscetível de aumento ou destruição, pois nenhuma modificação é possível, extinguindo-se a geração e tornando-se impensável a destruição, com os corolários de que o mundo é contínuo, imóvel e limitado.

7. Alteridade e mudança são impossíveis porque há identidade entre o ser e a existência para o pensamento, e o erro dos mortais ignorantes está em contornar essa alternativa exaustiva ao admitir que algo possa vir a ser e desaparecer, ser e não ser, mudar de lugar ou de cor, como faz o pensamento que combina contrários, de Anaximandro, Anaxímenes e Heráclito.

8. Toda predicação que estabeleça algo além da identidade e da existência implicaria a perda de ambas, pois a argumentação parmenidiana confunde os sentidos predicativo, identitativo e existencial da cópula, absorvendo o primeiro nos outros dois e conduzindo à tautologia com consequências ontológicas e a uma alternativa interpretada ontologicamente e não apenas em termos lógico-linguísticos.

9. Após o uso ingênuo dos paradigmas duais léxico-semânticos, o pensamento depara-se com sua contrapartida sintática no plano da proposição, já que, para Parmênides, a predicação não tautológica, assimilada à negação, implicaria a destruição do sujeito.

10. As teses de Parmênides, desenvolvidas por Zenão contra a pluralidade e o movimento e talvez retomadas por Górgias, pesaram como hipoteca sobre o pensamento grego, levando as cosmologias posteriores a atribuir aos constituintes do mundo as propriedades do ser parmenidiano, como as quatro raízes incriadas e imperecíveis de Empédocles, o Nous e os germes de Anaxágoras e os átomos indestrutíveis de Leucipo e Demócrito, cujas combinações explicam a mudança, e sua força decorre de ter inaugurado uma investigação filosófica continuada por Platão e Aristóteles.

2. No Sofista

1. Depois de o Parmênides mostrar que nada se pode dizer do Uno, nem que é nem que não é, o Sofista introduz o Outro como gênero supremo a partir de uma aporia sobre o não ser, que, embora inenunciável e inexprimível, precisa ser tomado como objeto do discurso para ser refutado e precisa existir como correlato dos juízos afirmativos falsos, sob pena de todo pensamento ser verdadeiro e o erro impossível, de modo que refutar o sofista exige atacar Parmênides e apurar o referente do termo não ser.

2. Ao demonstrar que o Movimento, ou a Mudança, um dos gêneros supremos ao lado do Ser e do Repouso, é e não é ao mesmo tempo ele mesmo e outra coisa, e ao generalizar essa coexistência de identidade e diferença aos demais gêneros, justifica-se ontologicamente o Outro, que, tornando cada gênero outro que o Ser, faz dele um não ser real e ocupa uma posição mediadora entre os gêneros, enquanto todos os gêneros, inclusive o Outro, participam do Ser e recebem dele sua positividade.

3. A alteridade pode existir sem reduzir-se ao Ser e equivale ao não ser, mas a um não ser relativo, que não é o contraditório do Ser e que, considerado isoladamente, possui a mesma dignidade que este e é ainda mais abundante, de modo que os gêneros se misturam reciprocamente e o Ser e o Outro, gêneros comunicantes por excelência, atravessam todas as coisas e um ao outro.

3. A crítica de Aristóteles a Platão

1. A demonstração do Sofista, momento crucial do pensamento ocidental, é insuficiente segundo Aristóteles, para quem os platônicos permanecem presos a dificuldades arcaicas ao pensar a oposição entre ser e não ser no quadro da substância e ao entificar a relação, embora o procedimento platônico consista essencialmente em dissociar os sentidos identitativo, existencial e predicativo da cópula amalgamados por Parmênides, distinção não tematizada antes de Frege, mas que constitui o nervo da prova.

2. A aparente reificação platônica do não ser resulta do conflito entre a teoria das ideias, ainda parmenidiana, e a elucidação do comportamento lógico-linguístico da cópula, dificuldade de que Platão tem plena consciência ao especificar que o não ser é simples contrário do Ser e dele participa de modo sui generis, considerando resolvida a questão do referente do não ser e já arcaica a discussão de sua realidade.

3. A questão decisiva é epistemológica e não lógica, pois a demonstração platônica, logicamente forte, revela-se ineficaz do ponto de vista categorial e científico, já que, restrita à predicação e à diferença como embrião da negação, a dialética não pode acolher a física e a biologia fundadas em oposições bem definidas, cabendo a Aristóteles justificar ontologicamente as oposições, esclarecer seus modos de intervenção e fundar o reconhecimento balbuciante, pelo pensamento grego, de que os princípios são contrários.

4. Os opostos como fato do ser e fato da razão: Aristóteles

1. Levantada por Platão a hipoteca sobre a sintaxe da negação, a abordagem aristotélica segue três direções convergentes, a categorial, segundo a qual o não ser se diz em várias acepções conforme as categorias, a lógica, pela qual a não contradição e o terceiro excluído mostram a incoerência das doutrinas tradicionais sobre o ser e a verdade, e a epistemológica, que recusa que os opostos sejam causa de todas as coisas por não poderem agir uns sobre os outros sem um substrato.

2. Deduzidos e classificados segundo a amplitude da negação, os opostos, ontologicamente fundados e logicamente determinados, fornecem conceitos temáticos e explicativos à metafísica, à física e à biologia, tornando inteligível um jogo antes empírico e deixando de ser, como ainda em Platão, mero material de exemplificação dialética e de técnica de definição e divisão, para significar um fato do ser e um fato da razão.

3. Como fato do ser, os opostos tornam-se objeto de uma ciência una, a filosofia, pois derivam todos do par Uno e Múltiplo, sendo o Uno correlativo ao Ser, e se hierarquizam de modo que todas as qualidades sensíveis se reduzem aos pares Quente e Frio, Úmido e Seco.

4. Como fato da razão, os opostos devem ser elucidados formal e sistematicamente, distinguindo-se por amplitude crescente os relativos, a privação, a contrariedade e a contradição, cada qual com relações lógicas e modos de refutação próprios, além do estudo da negação das proposições e da demonstração pelo absurdo, válida apenas quando a proposição falsa é contraditória e não contrária, o que basta para mostrar, sendo contrária a oposição entre Uno e Múltiplo, a insuficiência das argumentações eleática e sofística.

5. Pertencendo ao ser e ao pensamento, a descrição dos opostos prolonga-se coerentemente em análises lógicas, epistemológicas e categoriais que fixam as condições de sua aplicabilidade, como a incombinabilidade de seres de gêneros diferentes, a ausência de contrários nas substâncias primeiras e na quantidade e a variação da oposição entre ser e não ser segundo cada categoria.

6. A descrição dos opostos estende-se ainda a análises linguísticas e empíricas, como o exame do alfa privativo e o estabelecimento indutivo da contrariedade como diferença máxima, justificando o papel constitutivo das oposições nas ciências, de modo que Aristóteles realiza uma categorização da negação, análise categorial tanto da negação lógica quanto dos modos efetivos de intervenção dos opostos, como fará Hegel na Ciência da Lógica.

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