User Tools

Site Tools


gaboriau:1964:0

0 Prólogo

GABORIAU, Florent. La nouvelle initiation philosophique. 4 volumes. Paris: Casterman, 1962–1965. Les grandes étapes de la pensée. Décisions I (1965).

1. O programa de pesquisas que dá origem a esta obra concerne à filosofia primeira, e os marcos já fincados em A Entrada na Metafísica e na Fenomenologia da Existência apenas anunciam o que agora se pode abordar, as Etapas maiores da Metafísica, sem que se pretenda comparar esse percurso ao célebre exemplo de uma Fenomenologia completada por uma Lógica identificada à Metafísica.

2. O que importa no desenvolvimento já percorrido é sua fonte interna e sua extensão, correspondente ao que se chama sucessivamente cosmologia, ontologia e teologia, divisões clássicas que separam mais do que convém coisas estreitamente associadas, embora subsistam três graus de pesquisa, não divergentes a partir de um ponto, mas consequentes na unidade da mesma interrogação persistente, a dubitatio universalis que impulsiona toda a investigação.

I

1. A primeira questão do programa é a da substância, questão clássica que deve ser enfrentada indo às próprias coisas, prolongando a démarche fenomenológica em que a dúvida se difundiu de categoria em categoria por todos os fenômenos e em que o sábio se pergunta o que significa cada questão, recusando-se a aceitar como moeda corrente as perguntas da informação comum.

2. Na mesma linha, impõe-se forçosamente a pergunta quid, à qual se responde diariamente de mil maneiras, como quando a poesia atribui identidade e dignidade de ser ao seixo, ao vento ou à pedra.

3. Diante dessa maneira de responder, o filósofo volta a duvidar e indaga o que vale e o que significa de real, existencialmente, essa difusão do substantivo no plano do logos e essa designação de identidade que o espírito, e sobretudo o espírito científico, persegue de questão em questão.

4. Para o físico a questão da substância não tem sentido, pois em seu plano tudo é movimento e fluxo do móvel, ao passo que o matemático apreende uma espécie de substância, o número, ritmo imutável e inalterável que, investido na estrutura do universo físico mas separável dele, revela em ação neste mundo evolutivo uma realidade distinta das coisas brutas e um pensamento às voltas com outro pensamento.

5. O que constitui a força do matemático constitui também sua fraqueza do ponto de vista filosófico, pois o quid das Matemáticas é na verdade um quantum extraído da multiplicidade das coisas, que as acompanha sem defini-las nem ser o segredo substancial de nenhuma, deixando intacta a questão sobre a natureza das coisas, questão subjacente e prévia à própria antropologia quando esta pretende definir o homem e a pessoa.

6. Essa busca, tão perigosa quanto necessária, deve ser conduzida sem ideias preconcebidas, interrogando, sem a ilusão de uma apreensão clara e distinta própria de certa matematização da natureza, o modelado das coisas, como o cristal, a flor ou a concha que se destacam da desordem sensível, pois uma revelação da substância ensinaria muito sobre a natureza das coisas, comodamente demais classificadas em espírito e matéria e reduzidas aos blocos do em si e do para si.

7. A investigação poderia articular-se em torno da função da substância, que se descobre e se demonstra em função dos fenômenos, de sua composição, deduzida de sua decomposição, e de sua essência, obtida por abstração do que o fluxo traz ou leva, análise que apresentaria essa troca constante sob as espécies do ato e da potência, noções existenciais a serem levadas ao extremo do que suportam a partir da própria substância.

II

1. Tal programa dificilmente resiste a uma exposição antecipada, e a dificuldade aumenta ao abordar em seguida o problema eterno da pessoa, que cada homem revive na acuidade de sua consciência como um drama semelhante ao do outro, justificando-se a retomada desses problemas pelo interesse que o homem neles pode encontrar se dedicar a si mesmo a devida atenção.

2. Sem superestimar a eficácia da filosofia diante da gigantesca espontaneidade das forças vivas e de imensos grupos humanos que escapam à reflexão sapiencial, o filósofo não pode renunciar, pois o problema do homem e da cidade reside no homem tal como é, exposto às alienações e ávido de se reapoderar de si, ainda que uma função militante o arraste a lutas em que será preciso golpear.

3. A intenção visa à tranquilidade da ordem, uma pacificação a conquistar mediante um equilíbrio que a filosofia contemporânea nem sempre oferece, já que a pessoa é ora interiorizada no Ego, ora identificada ao Socius, convertendo-se a classe em nova mitologia e o eu em nova teologia, o que exige interrogar o destino concreto da pessoa entre nascimento e morte, a dialética de uma liberdade exposta aos acasos da fortuna, o sentido rigoroso da morte contra os excessos que a tomam por mera aparência, por aniquilação total do Ego ou por veredicto sem fonte justa, e enfim o segredo último do homem, a ligação existencial que dá a cada um seu nome e sua realidade.

4. Estas são, sumariamente indicadas, as pistas em que se deveria avançar.

III

1. Uma terceira questão, crucial, põe-se na dialética das duas primeiras e não pode ser evitada, mas apenas resolvida, bem ou mal, a partir do que é o homem na natureza e a natureza em sua pessoa, pois substância e pessoa se apoiam e se opõem como arcos que se escoram em direção a uma chave de abóbada.

2. Deus não surge aí como um deus ex machina colocado sobre dois pilares.

3. O que se deve buscar, ex natura, é aonde o homem chega em pessoa quando segue até o fim o fio de suas considerações, seja uma Existência dilatadora que mergulha o homem e, por meio dele, a natureza na adoração, seja uma Existência esmagadora cuja superstição se deveria expulsar ou cujo temor se deveria dominar, existência de todo modo obsessiva e que constitui a última questão no itinerário destas pesquisas.

4. Seria um erro atribuir importância menor às démarches precedentes, que já tomaram decisões ao dissipar absolutos prematuros, pois o método da interrogação sistemática dissolve certezas tidas por seguras e é o único capaz de abrir passagem até o Fim, sem se deixar deter por profetas que, temendo um Nome, predizem a priori que além nada existe, quando talvez a descoberta última do Sábio seja o ancoramento naquilo que é, YHWH, e o pensamento decisivo de que Deus salva.

5. Entre o homem que se sabe perdido e a existência de Deus não há existencialmente relação alguma, de modo que a solidez de uma ponte de salvação só é garantida pela fé, sem círculo vicioso para quem recebe essa graça, mas haveria círculo vicioso para o filósofo em fazer depender a descoberta de Deus de uma ideia que a preformasse, razão pela qual o caminho será percorrido de ponta a ponta como filosofia a partir da dúvida, pensando o mundo e pesando as coisas dentro do limite de uma inteligência compreendida na natureza, mas livre para alcançar as conclusões mais ousadas.

6. O filósofo é o homem chamado dia a dia a uma nova consciência de si, que descobre uma segunda leitura de sua existência e realiza a promoção da existência à essência, abrindo passagem à mais alta exigência de universalidade através de circunstâncias difíceis e contraditórias, partindo de sua realidade singular para a ela retornar a fim de justificá-la.

7. Justificar essa realidade significa prestar contas dela e, por consequência, retificá-la, se houver coragem para tanto.

gaboriau/1964/0.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki